Moeda americana sobe 8,2% e Ibovespa registra queda de 13,88%; Banco Central e Tesouro Nacional intervêm para conter a volatilidade financeira.
O resultado das eleições presidenciais provocou fortes oscilações no mercado financeiro brasileiro nesta segunda-feira (26). Após a vitória de Luiz Inácio Lula da Silva sobre Flávio Bolsonaro no segundo turno, o dólar comercial encerrou o dia cotado a R$ 5,40, com alta de 8,2%. Já o Ibovespa, principal índice da Bolsa de Valores brasileira, recuou 13,88%, aos 176.608 pontos, registrando a maior queda diária desde março de 2020.
A reação dos investidores começou logo na abertura dos mercados. O dólar chegou a R$ 5,42, com alta de 8,65%, atingindo o limite de oscilação inicial. Após a retomada das negociações, pouco antes das 10h, a moeda americana avançou até R$ 5,60, uma valorização de 12,2%.
A intensidade das oscilações também afetou o mercado de ações. A queda superior a 10% do Ibovespa acionou o mecanismo conhecido como circuit breaker, que interrompe temporariamente as negociações para reduzir os efeitos de movimentos extremos e permitir que os investidores reavaliem suas estratégias. Após a retomada das operações, as perdas aumentaram, chegando a cerca de 17% durante o pregão.
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Tesouro Nacional cancela leilões de títulos públicos após turbulência no mercado financeiro
Diante da instabilidade, o Tesouro Nacional anunciou operações de recompra de títulos públicos para reduzir a pressão sobre o mercado de juros. Na primeira operação, foram recomprados R$ 7,067 bilhões em títulos prefixados, conhecidos como NTN-F.
Durante a tarde, o órgão realizou uma nova operação, desta vez com títulos indexados à inflação, as NTN-B, recomprando outros R$ 7,7 bilhões. Após os leilões, as taxas negociadas no mercado de juros futuros apresentaram recuo.
O Banco Central também atuou no mercado cambial por meio de leilões de swap cambial, operações que ajudam a oferecer proteção contra oscilações do dólar. A atuação disponibilizou o equivalente a US$ 3,75 bilhões no mercado futuro da moeda americana.
Depois da intervenção, a valorização do dólar perdeu força. Por volta das 12h30, a moeda era negociada a R$ 5,4135, com alta de 8,42%. Na sexta-feira (23), antes do segundo turno, o dólar havia fechado a R$ 4,99.
INVESTIDORES REAVALIAM CENÁRIO ECONÔMICO
A forte reação dos mercados foi atribuída, principalmente, à mudança de expectativas após a vitória de Lula, que recebeu 51,79% dos votos, contra 48,21% de Flávio Bolsonaro.
Parte dos investidores havia apostado em uma vitória do candidato de direita, cuja liderança no primeiro turno havia impulsionado os ativos brasileiros. A expectativa era de adoção de medidas de maior rigor fiscal, capazes de contribuir para a redução dos juros no futuro.
Com o resultado, bancos, corretoras e gestores de recursos passaram a rever suas projeções para o câmbio, a Bolsa e os juros. A expectativa de uma mudança nas políticas econômicas também ampliou a cautela dos investidores.
Bruno Funchal, CEO da Bradesco Asset Management, afirmou que o resultado eleitoral provocou surpresa no mercado e exigiu uma reavaliação das promessas e perspectivas econômicas do próximo período.
Apesar do pessimismo inicial, alguns analistas avaliam que o real poderá se recuperar gradualmente após o período de maior instabilidade. Entre os fatores apontados estão os juros reais elevados no Brasil, a diferença entre as taxas de juros brasileiras e americanas e a expectativa de manutenção de uma política monetária cautelosa pelo Banco Central.
POLÍTICA FISCAL SERÁ DECISIVA
O comportamento dos ativos brasileiros nos próximos meses deverá depender, em grande parte, das decisões econômicas do governo eleito. Entre os principais pontos de atenção estão o controle das despesas públicas, a trajetória da dívida, a composição da equipe econômica e as medidas previstas para o Orçamento de 2027.
Em relatório, Gustavo Sung, economista-chefe da Suno Research, destacou a importância de acompanhar a condução da política econômica no médio prazo. Segundo ele, a reação negativa inicial não determina necessariamente o desempenho futuro da Bolsa, que pode ser influenciado por decisões fiscais e pela evolução das propostas do governo.
Uma análise do Goldman Sachs também apontou que Lula terá de negociar com um Congresso de maioria conservadora, o que poderá limitar a aprovação de determinadas medidas. Para os economistas do banco, as sinalizações sobre a política econômica e a escolha do próximo ministro da Fazenda serão fundamentais para orientar as expectativas dos investidores.
O mercado também deverá acompanhar a apresentação de um plano fiscal para os próximos quatro anos, incluindo estimativas transparentes dos custos das promessas de campanha e dos ajustes necessários no Orçamento de 2027.
REAÇÃO INICIAL PODE DAR LUGAR À ESTABILIZAÇÃO
Antes da votação, instituições financeiras já previam uma reação negativa caso Lula vencesse. Uma pesquisa do Citigroup com 73 investidores, divulgada na sexta-feira, indicava expectativa de desvalorização do real e alta dos juros futuros diante desse cenário.
Ainda assim, analistas ressaltam que os movimentos iniciais podem refletir não apenas mudanças nas expectativas econômicas, mas também a necessidade de investidores desfazerem posições assumidas antes da eleição.
Desde que retornou à Presidência, em janeiro de 2023, Lula adotou medidas voltadas ao consumo, à renda e à expansão do crédito. No período, o país também registrou queda do desemprego e crescimento da renda média dos trabalhadores. Por outro lado, as preocupações com o déficit público e a sustentabilidade das contas governamentais continuaram presentes nas avaliações de economistas e investidores.
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A perspectiva para os próximos meses dependerá, portanto, da capacidade do governo de apresentar diretrizes econômicas claras e transmitir confiança sobre a trajetória fiscal do país. Até que essas definições avancem, o mercado deverá permanecer atento aos anúncios da equipe econômica e às primeiras decisões do novo mandato.