Da Redação do “PORTAL DO ZACARIAS” — Com mais de 1,4 milhão de eleitores, Manaus tem uma geografia eleitoral marcada por periferias densamente povoadas, comunidades rurais e áreas de difícil acesso, levantando uma questão: as pesquisas de intenção de voto estão alcançando, de fato, todos os territórios da capital?
Em ano eleitoral, uma pergunta costuma dominar o noticiário: quem está na frente? Em Manaus, porém, talvez seja necessário fazer outra pergunta antes dessa: onde está o eleitor que colocou determinado candidato na frente?
A questão não é retórica. Ela nasce da própria geografia eleitoral da capital amazonense, uma cidade de dimensões territoriais singulares, marcada por contrastes entre áreas centrais, bairros densamente povoados, periferias de expansão, comunidades rurais, localidades fluviais e territórios cujo acesso exige deslocamentos muito diferentes daqueles necessários para chegar aos principais centros urbanos.
Veja também

Não há, neste momento, elemento suficiente para afirmar que as pesquisas eleitorais realizadas em Manaus estejam erradas, que determinados institutos estejam deixando de ouvir determinados bairros ou que exista qualquer irregularidade deliberada.
Uma conclusão dessa natureza exigiria a análise individual de cada levantamento registrado na Justiça Eleitoral. Existe, entretanto, uma questão metodológica legítima e verificável: a geografia da amostra das pesquisas está representando adequadamente a geografia do eleitorado de Manaus?
Trata-se de uma pergunta que pode ser respondida com dados públicos e talvez seja aí que esteja uma das investigações eleitorais mais interessantes a serem feitas na capital amazonense.
O eleitorado de Manaus supera 1,4 milhão de pessoas. Esse universo, porém, está longe de ser distribuído de maneira uniforme. Há grandes concentrações populacionais em bairros periféricos, regiões de expansão urbana, comunidades situadas nas franjas da cidade e localidades rurais e fluviais.
Há também territórios em que a distância física, as condições de acesso e a infraestrutura de transporte tornam a coleta de informações mais complexa. O cadastro da Justiça Eleitoral revela essa diversidade com precisão muito maior do que qualquer mapa político convencional.
TRABALHO SÓ COM AMOSTRA
A estrutura eleitoral da capital é organizada em zonas, locais de votação e seções, permitindo identificar onde estão os eleitores e quantos estão vinculados a cada ponto de votação. A própria Justiça Eleitoral, portanto, não enxerga Manaus como um bloco homogêneo.
E essa constatação é importante porque uma pesquisa de intenção de voto, por definição, não entrevista todo o eleitorado. Trabalha com uma amostra. A questão central passa a ser outra: como essa amostra é construída?
Um dos pontos mais objetivos do levantamento está nas localidades que o próprio cadastro eleitoral identifica como Zona Rural. Não se trata de uma classificação criada para sustentar uma hipótese jornalística. É uma identificação constante da documentação eleitoral utilizada no levantamento.
Na 40ª Zona Eleitoral, por exemplo, aparecem locais como as escolas municipais Divino Espírito Santo, com 277 eleitores aptos, São José, com 635, São Sebastião II, com 406, Bom Jesus, com 344, Luiz Jorge Silva, com 342, José Sobreira do Nascimento, com 932, São Sebastião I, com 354, e Santo Antônio, com 66. Juntos, esses oito locais somam 3.356 eleitores aptos.
A reorganização promovida pela Justiça Eleitoral também deslocou para a 62ª Zona dois locais rurais anteriormente vinculados à 40ª Zona, a Escola Municipal Neuza dos Santos Ribeiro, com 1.106 eleitores, e a Escola Municipal Maria Isabel Cordeiro de Melgueiro, com 901.
Na 68ª Zona Eleitoral aparecem outros estabelecimentos oficialmente identificados como Zona Rural, entre eles Luiz Alberto Castelo, com 228 eleitores, Nossa Senhora de Nazaré, com 262, Nossa Senhora do Carmo, com 169, São Francisco, com 149, Manoel Chagas, com 174, Professora Elizabeth Siqueira Ferreira, com 221, Abílio Alencar, com 1.240, Canaã I, com 97, e São Pedro, com 126.
Considerando as localidades classificadas como Zona Rural no levantamento utilizado nesta reportagem, chega-se a 12.344 eleitores. Esse número precisa ser tratado com precisão. Ele não representa todo o eleitorado periférico de Manaus e tampouco corresponde a todos os eleitores que vivem em áreas de difícil acesso.
Na realidade, esse número é, especificamente, o núcleo de eleitores que pode ser identificado a partir da classificação oficial de Zona Rural utilizada no cadastro eleitoral analisado. E isso é apenas uma parte do problema.
O QUE É “GROTÃO”?
A palavra “grotão” é comum no vocabulário político e popular, mas não é uma categoria oficial do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) ou do Tribunal Regional Eleitoral do Amazonas (TRE-AM).
O termo pode ser usado para descrever periferias profundas, áreas de ocupação, comunidades distantes, regiões de expansão urbana, territórios de difícil acesso ou localidades nas quais determinadas estruturas de pesquisa, comunicação e mobilização política tenham menor presença.
Por isso, seria incorreto dizer que o TSE ou o TRE-AM identificam determinado número de eleitores nos chamados grotões. Não identificam. O que os dados oficiais permitem fazer é outra coisa: mapear a distribuição territorial do eleitorado e confrontá-la com o desenho das amostras eleitorais.
Essa possibilidade ganhou ainda mais relevância com as regras vigentes para as pesquisas eleitorais em 2026. A regulamentação do TSE determina que as pesquisas eleitorais sejam registradas no Sistema de Registro de Pesquisas Eleitorais, o PesqEle, e exige informações sobre metodologia, plano amostral, ponderações, área física de realização do trabalho, nível de confiança, margem de erro e fontes públicas utilizadas na construção da amostra.
Em fevereiro de 2026, a Resolução TSE nº 23.747 alterou a Resolução nº 23.600 de 2019 e reforçou a transparência sobre a composição da amostra. O próprio TSE informa que os registros das pesquisas ficam disponíveis para consulta pública e ressalta que a Justiça Eleitoral não realiza controle prévio sobre o resultado dos levantamentos.
Registrar uma pesquisa não significa que o TSE esteja certificando previamente que seu resultado esteja correto. A responsabilidade pela metodologia, pelas informações prestadas e pela realização do trabalho é da empresa ou entidade responsável pelo levantamento.
COMPLEXIDADE TERRITORIAL
Mas a existência de informações metodológicas públicas permite que jornalistas, especialistas, partidos, candidatos e pesquisadores independentes façam uma pergunta que interessa diretamente ao eleitor: a amostra declarada consegue representar a complexidade territorial de Manaus?
Imagine-se uma pesquisa com 2 mil entrevistas. O número, isoladamente, diz pouco sobre a distribuição territorial do trabalho. É preciso perguntar onde foram realizadas as entrevistas, quantas foram feitas em cada área, como os entrevistados foram selecionados, que ponderações foram aplicadas, qual foi a área física efetivamente abrangida e quais fontes públicas foram utilizadas para construir a amostra.
Isso não significa que uma pesquisa precise entrevistar pessoas proporcionalmente em cada bairro de Manaus. Uma amostra científica não funciona dessa maneira simplista. O ponto é outro. O desenho amostral precisa ser capaz de representar adequadamente o universo que pretende retratar. É aí que a geografia ganha importância.
Talvez a maior descoberta sugerida pelo levantamento esteja aqui. Quando se fala em eleitor de difícil alcance, a imagem mais comum é a de uma comunidade distante, um ramal, uma localidade rural ou uma residência às margens de um rio. Mas os próprios números eleitorais de Manaus sugerem uma realidade diferente. O grotão também pode estar dentro da cidade.
Um exemplo é a Cidade de Deus. Na 70ª Zona Eleitoral, os locais de votação relacionados no levantamento incluem a Escola Estadual Letício de Campos Dantas, com 6.058 eleitores aptos, a Escola Municipal Dr. Aristofanes Bezerra de Castro, com 2.617, a Escola Municipal São Benedito, com 3.441, a Escola Municipal Antisthenes de Oliveira Pinto, com 3.433, a Escola Municipal Áureo Nonato, com 4.542, a Escola Estadual Frei Mário Monacelli, com 4.493, a Escola Municipal Wilma Vitoriano Geber, com 1.525, a Escola Municipal Almeron Caminha Monteiro, com 3.058, o CMEI Ailton Roth, com 2.217, a Escola Municipal Governador Eduardo Ribeiro, com 775, a Escola Municipal Biólogo Adolpho Ducke, com 1.932, e a Escola Municipal Olga Figueiredo, com 1.361.
Nos locais relacionados no levantamento, a soma chega a 38.478 eleitores aptos. São quase 40 mil eleitores concentrados em um mesmo território urbano.
Santa Etelvina apresenta fenômeno semelhante. Entre os locais listados na 62ª Zona Eleitoral estão a Escola Estadual Arthur Virgílio Filho, com 6.838 eleitores, a Escola Estadual Octávio Mourão, com 5.296, a Escola Municipal Professora Elizabeth Beltrão, com 3.985, a Escola Municipal Sara Barroso Cordeiro, com 3.785, a Escola Municipal Síria Mamed Amed Chagas, com 3.762, a Escola Municipal João Goulart, com 4.600, a Escola Estadual Senador Evandro das Neves Carreira, com 7.172, e a Escola Municipal Professora Antônia Pereira da Silva, com 29. Nos locais relacionados no levantamento, são 35.467 eleitores aptos.
Mais uma vez, a dimensão do território desaparece quando todos esses eleitores são reduzidos a uma única porcentagem municipal.
JORGE TEIXEIRA
Jorge Teixeira é outro território que merece atenção. Na 68ª Zona Eleitoral, apenas três dos locais citados no levantamento já concentram 6.967 eleitores. São eles a Escola Municipal Professora Inês de Vasconcellos Dias, com 2.372, a Escola Municipal Francisco Maia de Amorim, com 2.458, e a Escola Municipal Rubem da Silva Peixoto, com 2.137.
Esses três locais são apenas parte do conjunto eleitoral do bairro. A constatação é importante porque desloca o foco da discussão. O problema potencial não está apenas na distância entre a cidade e a floresta. Existe também uma enorme periferia urbana, densamente povoada, com dezenas de milhares de eleitores e características territoriais próprias.
São fenômenos diferentes e precisam ser tratados como tais. De um lado está o eleitor que vive em comunidades oficialmente classificadas como Zona Rural, incluindo localidades rurais e fluviais.
De outro lado está o eleitor que vive em bairros periféricos densamente povoados, muitas vezes nas franjas da expansão urbana. O primeiro grupo é numericamente menor, mas pode apresentar características específicas.
O segundo grupo pode ser muito maior e, por sua dimensão, pode tornar-se ainda mais importante para a representação estatística do eleitorado. É por isso que restringir a investigação aos 12.344 eleitores oficialmente classificados como Zona Rural seria insuficiente. O verdadeiro universo da pergunta é a geografia eleitoral de toda a periferia de Manaus.
A MARGEM DE ERRO
Outro ponto precisa ser esclarecido. Uma pesquisa pode ter margem de erro estatisticamente adequada e, ainda assim, não significa que todos os territórios da cidade tenham sido entrevistados na mesma intensidade.
A margem de erro é uma medida associada ao desenho estatístico da pesquisa. Ela não constitui, por si só, um certificado de cobertura territorial perfeita. Não basta olhar para uma tabela e verificar que um candidato tem 30% e outro 25%.
É preciso saber como aqueles números foram produzidos. O plano amostral, as ponderações, a área física, o processo de seleção dos entrevistados e as fontes utilizadas para construir a amostra são partes essenciais desse retrato.
Há uma pergunta simples que qualquer instituto responsável por um levantamento eleitoral em Manaus deveria ser capaz de responder: como a sua amostra representa a geografia eleitoral da capital?
A partir daí, outras questões podem ser feitas. Quantas entrevistas foram realizadas em cada área? Quais zonas eleitorais foram contempladas? Qual foi a fonte pública utilizada para construir o plano amostral? Como foram ponderados os diferentes perfis do eleitorado? Como foram tratados os territórios rurais e fluviais? Qual foi a área física de coleta? Houve entrevistas presenciais, telefônicas ou outros métodos? Como foram selecionados os entrevistados? Quais setores censitários fizeram parte da amostra?
As informações registradas no PesqEle permitem que parte significativa dessas perguntas seja investigada publicamente. E é essa possibilidade que torna a discussão jornalisticamente relevante.
O cadastro eleitoral sabe onde estão os eleitores. Sabe em qual zona eleitoral estão. Sabe em qual local votam. Sabe quantas seções existem. Sabe quantos eleitores estão vinculados a cada local. A pesquisa trabalha com uma amostra. São duas representações diferentes da mesma cidade. O desafio jornalístico é colocar os dois mapas lado a lado. De um lado, o eleitorado real. Do outro, a geografia declarada da coleta.
CRUZAMENTO NECESSÁRIO
O resultado desse cruzamento poderá confirmar que as pesquisas estão representando adequadamente os territórios da capital. Mas também poderá revelar diferenças que mereçam investigação. Sem esse cruzamento, qualquer afirmação categórica seria precipitada.
Há pelo menos três cenários possíveis. O primeiro é o mais simples. As pesquisas podem estar contemplando adequadamente os principais territórios eleitorais de Manaus. Se isso for demonstrado, a investigação terá servido para afastar uma suspeita.
O segundo cenário é a existência de pequenas diferenças de cobertura. Nesse caso, poderá haver espaço para maior transparência ou aperfeiçoamentos metodológicos.
O terceiro cenário seria a identificação de grandes áreas sistematicamente pouco representadas nas amostras. Se isso ocorrer, a descoberta terá relevância eleitoral e jornalística. Não porque significaria automaticamente que alguma pesquisa está errada, mas porque revelaria uma diferença entre o mapa do eleitorado e o mapa da coleta de opinião. E essa diferença poderia ser mensurada.
Há um limite que precisa ser respeitado. Não é possível afirmar, sem analisar individualmente os registros, que determinado instituto deixou de pesquisar determinado bairro.
Também não é possível concluir, apenas a partir do número de entrevistas, que uma pesquisa seja inadequada. E não é possível dizer que eleitores periféricos, rurais ou fluviais necessariamente votem de maneira diferente dos demais. A hipótese precisa ser testada. Essa cautela é importante porque fortalece, e não enfraquece, a investigação.
A proposta não é substituir a ciência estatística por impressão política. É o contrário. É usar os dados oficiais disponíveis para verificar se a representação estatística corresponde à realidade territorial que pretende retratar.
ELEITORADO DESIGUAL
Os 12.344 eleitores identificados no levantamento em localidades oficialmente classificadas como Zona Rural são um ponto de partida. Mas os números de Cidade de Deus, Santa Etelvina, Jorge Teixeira e de outros territórios periféricos mostram que o fenômeno é muito maior.
Há milhares de eleitores nas áreas rurais. Há dezenas de milhares nas grandes periferias urbanas. E há um eleitorado municipal superior a 1,4 milhão de pessoas distribuído de forma extremamente desigual pelo território.
Assim, a discussão não deveria ser simplesmente sobre quantos eleitores estão no interior ou na floresta. A pergunta mais importante é quantos eleitores vivem nas franjas urbanas, rurais e fluviais que precisam ser efetivamente representadas por uma pesquisa que pretende falar em nome de Manaus.
Há uma diferença fundamental entre ser invisível para o cadastro eleitoral e ser pouco alcançado por determinadas formas de pesquisa. Para a Justiça Eleitoral, o cidadão não é invisível. Ele tem título, zona, seção e local de votação. Está no cadastro.
O que pode acontecer é que determinado eleitor seja menos acessível a algumas formas de coleta de opinião. Essa é a hipótese que precisa ser investigada. E ela pode ser investigada sem escolher candidato, partido ou lado político.
BANCO DE DADOS
O próximo passo é relativamente claro. É possível construir um banco de dados cruzando as pesquisas eleitorais registradas no PesqEle, o número de entrevistas de cada levantamento, as áreas físicas declaradas, os planos amostrais, as ponderações, as fontes públicas utilizadas, as zonas eleitorais de Manaus, os locais de votação, o número de eleitores aptos, os bairros e territórios abrangidos e, quando disponível, a distribuição da coleta por setor censitário.
A partir desse cruzamento, será possível construir um mapa da relação entre o eleitorado existente e o eleitorado pesquisado. Poderá ser possível descobrir quais territórios concentram mais eleitores, quais aparecem nas amostras, quais aparecem com menor frequência e como essas diferenças são corrigidas pelas ponderações estatísticas. Mais importante, será possível transformar uma suspeita difusa em uma pergunta mensurável.
Talvez a imprensa esteja acostumada demais a perguntar quem está na frente. Talvez seja hora de acrescentar outra pergunta: onde está esse eleitor? Porque uma pesquisa eleitoral não é apenas uma tabela de percentuais. É também uma representação da sociedade. E toda representação depende de quem foi ouvido.
Manaus oferece um caso particularmente complexo. Uma cidade com mais de 1,4 milhão de eleitores reúne bairros densamente povoados, periferias extensas, áreas de expansão, comunidades rurais e territórios fluviais.
INVESTIGAR É PRECISO
O levantamento analisado identifica 12.344 eleitores em localidades oficialmente classificadas como Zona Rural. Ao mesmo tempo, mostra bolsões urbanos de dezenas de milhares de eleitores em territórios periféricos como Cidade de Deus e Santa Etelvina. O tamanho desses números é suficiente para justificar uma investigação mais profunda.
A investigação não seria para desacreditar as pesquisas. Não para acusar institutos. Não para favorecer candidatos. Mas para fazer uma pergunta elementar em qualquer democracia: quem está sendo ouvido e onde?
A regulamentação eleitoral vigente em 2026 já exige que as pesquisas informem elementos essenciais de sua construção, incluindo plano amostral, ponderações, área física, margem de erro, nível de confiança e fontes públicas utilizadas. O cadastro eleitoral, por sua vez, permite saber onde está o eleitorado.
Falta apenas colocar os dois mapas diante um do outro. De um lado, onde o eleitor está. Do outro, onde a pesquisa foi buscar sua opinião.
É desse encontro que poderá surgir uma resposta para uma das perguntas mais importantes da próxima eleição em Manaus. Quanto do eleitorado da capital está realmente sendo ouvido e onde?
Curtiu? Siga o PORTAL DO ZACARIAS no Facebook, Twitter e no Instagram.
Entre no nosso Grupo de WhatApp, Canal e Telegram
Antes que o próximo percentual de intenção de voto seja transformado em verdade política, essa é uma pergunta que merece resposta.