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‘SEGREDOS DE BASTIDORES’: A GUERRA PELO SEGUNDO TURNO COMEÇA COM OMAR MOSTRANDO FORÇA E DAVID ATACANDO
Foto: Reprodução / PORTAL DO ZACARIAS

 

SEGREDOS DE BASTIDORES

 

*Por Antônio Zacarias - A eleição para o Governo do Amazonas entrou oficialmente em uma nova fase.

 

As convenções partidárias começaram a transformar pré-candidatos em candidatos e, com elas, os discursos também mudaram de tom.

 

Já não é mais hora de apenas testar nomes, medir temperatura ou mandar recados pelos bastidores. Agora é campanha.

 

As duas convenções realizadas na semana passada deram um retrato muito claro de como o Omar Aziz e o David Almeida pretendem disputar essa eleição.

 

O David foi para o ataque, o Omar Aziz foi para a demonstração de força.

 

Um falou mais sobre o que pretende fazer, enquanto o outro fez questão de mostrar quem está ao seu lado.

 

É justamente aí que começa a ficar interessante a disputa pelo Governo do Amazonas.

 

DAVID SOBE AO PALANQUE COM UMA TESOURA NA MÃO

 

A convenção do Avante, realizada na quinta-feira, 23 de julho, na Alameda Alphaville, teve uma mensagem política muito clara: o David quer se apresentar como o candidato da mudança na administração estadual.

 

Ao lado da médica Shádia Fraxe, escolhida para ser sua vice, o David não economizou nas críticas ao governador Roberto Cidade, o “Cocô de Ouro”, e ao ex-governador Wilson Lima.

 

Mas o discurso não ficou apenas no ataque. O David colocou propostas na mesa.

 

Prometeu dobrar o Auxílio Estadual, de R$ 150 para R$ 300, e apresentou a saúde como uma das principais bandeiras de sua candidatura.

 

Também falou em zerar a fila do SISREG e anunciou o chamado Corujão da Saúde, com a utilização complementar da rede privada para ampliar a oferta de consultas, exames e procedimentos.

 

Politicamente, o movimento é inteligente do ponto de vista de campanha: o David tenta construir um discurso em duas frentes: de um lado, diz que a atual gestão estadual precisa ser substituída; do outro, apresenta propostas concretas para ocupar o espaço deixado pela crítica.

 

É a velha fórmula eleitoral: atacar o adversário e, ao mesmo tempo, dizer ao eleitor o que pretende fazer quando chegar lá.

 

A TESOURA DE DAVID TEM ALVO CERTO

 

Mas talvez o trecho mais político do discurso do David tenha sido aquele em que ele associou o aumento do Auxílio Estadual à revisão de contratos do Governo.

 

O David afirmou que pretende acabar com contratos que, segundo ele, envolvem o próprio governador e falou em cifras de centenas de milhões de reais, o que não é nenhuma novidade pra ninguém, já que o assunto é de domínio público.

 

Eis uma das principais linhas narrativas que o David deverá explorar durante a campanha:

 

A ideia é simples de entender: o dinheiro que, na visão dele, estaria sendo gasto de maneira inadequada poderia ser direcionado para a população.

 

É uma mensagem que o eleitor de baixa renda assimila facilmente. E, ao mesmo tempo, coloca o “Cocô de Ouro” na defensiva, pois, a partir de agora, toda vez que o David falar em aumentar o Auxílio Estadual, a campanha de Roberto Cidade terá de explicar como pretende manter ou ampliar o programa. E toda vez que o David falar em contratos, o “Cocô de Ouro” terá que responder do outro lado.

 

A campanha começa a se desenhar, portanto, como uma disputa também pelo controle da narrativa sobre o dinheiro público.

 

DAVID QUER TRANSFORMAR A ELEIÇÃO EM UM PLEBISCITO SOBRE A GESTÃO ATUAL

 

O discurso do David Almeida tem outro detalhe importante: ele tenta fazer com que a eleição seja menos sobre a comparação entre quatro candidatos e mais sobre uma pergunta simples:

 

O eleitor quer continuar com o grupo que está no poder ou quer mudar?

 

Esse é o caminho mais natural para quem está na oposição. O David precisa convencer o eleitor de que a eleição não é apenas uma disputa entre ele, o Omar, a Maria Enxofre do Carmo e Roberto Cidade.

 

Ele precisa transformar a disputa em uma escolha entre dois campos. De um lado, a continuidade. Do outro, a mudança.

 

O problema é que o Omar Aziz também quer ocupar o espaço de oposição.

 

Aí está um dos grandes desafios estratégicos do David, pois enquanto ele ataca o “Cocô de Ouro”, o Omar observa. E quando o Omar observa, o David corre o risco de gastar energia eleitoral combatendo um adversário que não é necessariamente o único que disputa sua vaga no segundo turno.

 

A GUERRA PELO SEGUNDO TURNO COMEÇOU

 

É aqui que a eleição fica mais interessante.

 

O Omar continua aparecendo nas pesquisas, inclusive nas mais recentes, em posição de liderança, enquanto o David, Maria Enxofre do Carmo e Roberto Cidade disputam espaço na faixa seguinte do eleitorado.

 

Uma pesquisa Ipen/G6 divulgada em maio apontou o Omar com 29,8%, o David com 16%, a Maria Enxofre do Carmo com 15,6% e o “Cocô de Ouro” com 14,9%. É um retrato anterior às convenções, portanto não pode ser tratado como fotografia definitiva, mas ajuda a entender por que a briga pelo segundo turno é tão importante.

 

O discurso do David na convenção revela que ele sabe disso. Por isso, apresentou propostas. Por isso, atacou a atual gestão. Por isso, colocou a saúde no centro da campanha.

 

O David precisa sair da imagem de ex-prefeito de Manaus e construir a imagem de candidato a governador.

 

A pergunta que a campanha dele terá de responder é: consegue transformar sua força na capital em uma candidatura competitiva no interior?

 

É justamente aí que entra o Omar Aziz.

 

OMAR NÃO PRECISOU GRITAR PARA MOSTRAR FORÇA POLÍTICA

 

Se o David escolheu o confronto e as propostas, o Omar escolheu a fotografia. E até os que entendem só um pouquinho de política sabem que, nesse campo, fotografia fala. E fala muito!

 

A convenção de PSD, MDB e Republicanos, realizada no sábado, 25 de julho, oficializou o Omar para o Governo, Alessandra Campelo como vice e Eduardo Braga para a reeleição ao Senado.

 

O evento reuniu uma ampla aliança e apresentou ao eleitorado uma imagem muito diferente daquela do David.

 

Omar quis mostrar estrutura, prefeitos, lideranças. Quis mostrar interior.

 

Segundo os organizadores, 49 prefeitos estiveram presentes. O dado mais importante politicamente, porém, é a demonstração de uma rede de apoio municipal significativa em torno da chapa.

 

No Amazonas, onde o interior historicamente tem peso decisivo nas eleições estaduais, o candidato mostrar prefeitos ao seu lado é uma forma de dizer ao eleitor: “Eu tenho capilaridade.”

 

OMAR VENDE EXPERIÊNCIA. DAVID VENDE MUDANÇA

 

Os dois discursos, portanto, têm características diferentes.

 

O David Almeida tenta construir uma candidatura com discurso de mudança, colocando saúde, assistência social e revisão de gastos públicos no centro da conversa.

 

Já o Omar Aziz aparece cercado por uma estrutura política mais ampla e tenta transformar sua experiência administrativa e sua rede de alianças em uma espécie de garantia de governabilidade.

 

É como se cada um estivesse respondendo a uma pergunta diferente.

 

O David responde: “Por que você deve mudar?”

 

O Omar responde: “ Por que você deve confiar em mim para governar?”

 

Essa diferença pode ser decisiva na campanha. Afinal, eleição não é apenas uma disputa de propostas, também é uma disputa de confiança.

 

A BATALHA PELO INTERIOR FICOU MAIS CLARA

 

A convenção di Omar trouxe um elemento que o David terá de enfrentar: a presença de prefeitos e lideranças municipais ao lado do senador reforça a percepção de que o grupo conseguiu montar uma rede política ampla.

 

Isso não significa, evidentemente, que prefeito transfira automaticamente voto. Não transfere, mas prefeito ajuda a organizar campanha, mobilizar lideranças, abrir portas e construir palanques.

 

Isso, numa eleição estadual, pesa. E pesa muito!

 

O Omar já vinha trabalhando nessa direção desde a pré-campanha, com reuniões e articulações envolvendo lideranças da capital e do interior.

 

Agora, a convenção colocou essa estratégia em grande visibilidade.

 

O David, por sua vez, terá de mostrar que a força política construída em Manaus consegue atravessar o rio Negro e chegar aos municípios.

 

É aí que a eleição pode começar a se decidir.

 

A DISPUTA AGORA É ENTRE DOIS DISCURSOS

 

Se olharmos os discursos das duas convenções, fica evidente que o Omar e o David estão tentando construir narrativas diferentes.

 

O David quer falar de futuro, o Omar quer falar de capacidade política.

 

O David quer falar de mudança, o Omar quer falar de experiência.

 

O David mira a gestão atual, o Omar procura se colocar acima da briga direta com os adversários e apresentar uma frente política mais ampla.

 

Existe, porém, uma questão que os dois terão de enfrentar: nenhum dos dois poderá passar a campanha inteira falando apenas do adversário.

 

O eleitor vai querer saber o que cada um pretende fazer com a saúde, segurança, educação, infraestrutura e economia do Amazonas, e, principalmente, como pretende fazer.

 

OMAR TEM A ALIANÇA. DAVID TEM O DISCURSO

 

O Omar saiu da convenção com uma demonstração clara de força política.

 

O David saiu da sua convenção com uma mensagem mais agressiva e propostas mais ao gosto do eleitor.

 

Isso cria uma disputa interessante: o Omar tem uma rede de alianças; o David tem uma narrativa.

 

O Omar tem prefeitos; o David tem a máquina política de Manaus ao seu redor, agora comandada por Renato Júnior, que já declarou publicamente sua lealdade ao grupo. Renato também passou a coordenar a campanha do David.

 

O Omar tem Eduardo Braga ao lado na disputa pelo Senado. O David tem Shádia Fraxe como vice, apostando em uma mensagem de saúde e gestão.

 

Cada chapa escolheu uma forma diferente de falar com o eleitor. E agora começa a verdadeira guerra pela segunda vaga.

 

A ELEIÇÃO NÃO É SÓ OMAR CONTRA DAVID

 

O grande erro seria imaginar que as convenções transformaram a eleição em uma disputa exclusiva entre o Omar Aziz e o David Almeida.

 

Roberto Cidade ainda vai homologar sua candidatura, e Maria Enxofre do Carmo também.

 

Ambos terão seus próprios palanques, suas alianças e suas estratégias.

 

O “Cocô de Ouro” continuará usando a máquina administrativa e a visibilidade do cargo para construir a percepção de que é o candidato da continuidade.

 

Maria Enxofre do Carmo buscará ocupar o espaço de oposição ao grupo político tradicional. O David tentará se vender como alternativa à atual gestão. E o Omar tentará consolidar a imagem de candidato com experiência e força política para governar.

 

São quatro narrativas disputando o mesmo eleitor. É por isso que a disputa pelo segundo turno será tão brutal.

 

É exatamente por isso que cada discurso, cada aliança e cada prefeito começa a ter valor político.

 

A ELEIÇÃO ENTROU NA FASE DO ‘AGORA É PRA VALER’

 

As convenções mudaram o ambiente. Antes, os candidatos podiam recuar, podiam trocar de partido, podiam mudar de estratégia.

 

Agora, a máquina eleitoral começa a engrenar.

 

O calendário de convenções segue até 5 de agosto, e a propaganda eleitoral começa oficialmente em 16 de agosto. Até lá, ainda haverá alianças a fechar, chapas a ajustar e palanques a organizar.

 

Mas uma coisa já ficou clara: o Omar entrou na campanha mostrando força política e capilaridade.

 

O David entrou mostrando disposição para o confronto e apresentando propostas.

 

E o Roberto Cidade, que ainda precisa oficializar sua candidatura, terá de encontrar uma resposta para os dois, pois enquanto o Omar tenta consolidar sua liderança e o David tenta ocupar o espaço de mudança, o “Cocô de Ouro” não pode deixar que a eleição seja disputada apenas entre os dois.

 

É aí que mora o perigo.

 

CONCLUSÃO DE BASTIDOR

 

As convenções do Omar Aziz e do David Almeida deixaram uma imagem interessante da eleição para o Governo do Amazonas.

 

O Omar mostrou uma frente política ampla, com PSD, MDB e Republicanos, e apresentou uma demonstração de força especialmente importante no interior.

 

O David fez uma convenção de massa e transformou o discurso em uma combinação de ataque à gestão estadual e apresentação de propostas, com destaque para o aumento do Auxílio Estadual e para a saúde.

 

São duas estratégias diferentes.

 

Agora começa a fase em que os discursos serão testados nas ruas. E aí, caro leitor, a conversa muda de figura, pois eleição é voto, e não apenas palanque e discurso bonito.

 

* Antônio Zacarias é jornalista e fundador do PORTAL DO ZACARIAS, um dos portais de notícias mais acessados do Brasil e referência no jornalismo digital da Região Norte.

 

Com longa trajetória na imprensa da Amazônia, foi editor-geral de diversos jornais na Região Norte. No Amazonas, dirigiu os jornais Diário do Amazonas e O Povo do Amazonas, cujos proprietários eram o empresário Dissica Thomaz e o hoje senador Plínio Valério.

 

Também atuou como correspondente do jornal O Globo na Região Norte durante dois anos, a convite do jornalista Ascânio Seleme, então coordenador dos correspondentes no Brasil e atual editor-geral do jornal.

 

Antônio Zacarias é autor do livro “100 erros de português que todo mundo comete, inclusive você!”, obra dedicada à valorização do bom uso da língua portuguesa.Governo

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