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SEGREDOS DE BASTIDORES
*Por Antônio Zacarias - Minha gente, quando o eleitor vota para senador, normalmente presta atenção apenas no nome que aparece em letras grandes na propaganda.
Quase ninguém pergunta: Quem é o primeiro suplente? E muito menos: Quem é o segundo?
Não pergunta, mas deveria perguntar. Afinal, o suplente pode assumir o mandato sem receber um único voto diretamente. Pode ocupar o gabinete, contratar assessores, votar projetos, participar de comissões e desfrutar de todas as prerrogativas (e mordomias) de senador.
E mais: dependendo das circunstâncias, pode permanecer no cargo durante anos.
BRAGA ESCOLHE NOVAMENTE A ESPOSA
No Amazonas, o senador Eduardo Braga, candidato à reeleição pelo MDB, registrou novamente a própria esposa, Sandra Braga, como primeira suplente. Não é a primeira vez, como é do conhecimento de todos.
Sandra foi primeira suplente do marido na eleição de 2010. Em 2015, quando Braga assumiu o Ministério de Minas e Energia, ela ocupou efetivamente uma cadeira no Senado.
Em 2018, Sandra voltou a integrar a chapa como primeira suplente. Agora, em 2026, aparece novamente no mesmo lugar.
Portanto, se Eduardo Braga for reeleito e precisar deixar temporária ou definitivamente o mandato, quem assume é sua esposa. Tudo dentro da lei, é bom que se diga.
Agora eu faço uma pergunta a você, caro leitor, e a você, caríssima leitora: Será que tudo o que é permitido pela lei é politicamente correto?
O ELEITOR VOTA EM QUEM?
Vamos falar com franqueza. O eleitor votará em Eduardo Braga ou no casal Braga?
Sandra Braga tem todo o direito de participar da política. É professora, já exerceu o mandato e possui filiação partidária.
A discussão não é pessoal, que fique bem claro. A pergunta é outra:
Num estado com milhões de habitantes, centenas de lideranças políticas, mulheres preparadas, professores, médicos, advogados, empresários, trabalhadores e representantes do interior, por que a primeira suplência precisa permanecer dentro da família?
Vocês não concordam comigo? Tô certo ou tô errado? Me digam, por favor.
Faço agora quatro perguntas que considero pra lá de pertinentes.
Não existia outra pessoa qualificada dentro do MDB?
Não havia uma liderança do interior que pudesse representar os municípios?
Não havia um nome capaz de ampliar politicamente a chapa?
Ou a principal exigência para ocupar a vaga era possuir o mesmo endereço familiar do candidato?
MANDATO NÃO É HERANÇA
Quero aqui ressaltar que o Senado não é herança nem empresa familiar; que mandato público não é patrimônio particular. E suplência não deveria funcionar como uma espécie de procuração passada entre marido e mulher.
O problema, minha gente, não está apenas no Amazonas.
Levantamento publicado por O Globo encontrou pelo menos 21 suplentes com vínculos familiares nas chapas montadas pelo país. Em 14 casos, são parentes diretos dos candidatos. Nos outros sete, familiares de aliados políticos.
Tem candidato indicando irmão, tem candidata levando o próprio filho, tem político acomodando pai de aliado.
É uma verdadeira reunião de família financiada pelo dinheiro público.
No Distrito Federal, Michelle Bolsonaro escolheu o irmão, Diego Torres Dourado. Bia Kicis indicou o filho, Samuel Kicis. No Piauí, Ciro Nogueira colocou o próprio irmão na suplência.
No Amazonas, Braga mantém a esposa. A prática atravessa partidos, ideologias e discursos.
Mas na hora de criticar o adversário, todo mundo defende renovação, não é verdade? Pura lambança!
O SUPLENTE É QUASE INVISÍVEL
O sistema facilita essa prática porque o eleitor quase nunca conhece os suplentes.
Na propaganda, aparece o rosto do titular. No santinho, aparece o titular. No debate, aparece o titular. Nos comícios, quem fala é o titular.
Mas, quando surge uma licença, um ministério ou uma vacância, aparece uma pessoa que o eleitor mal sabia que integrava a chapa.
Foi exatamente isso que ocorreu em 2015, quando Eduardo Braga deixou o Senado para assumir o Ministério de Minas e Energia. Sandra Braga assumiu a cadeira e permaneceu no exercício do mandato enquanto o marido comandava o ministério.
Legalmente, não existe irregularidade. Politicamente, porém, é questionável. E aí uma pergunta é inevitável, inevitável e necessária: Uma família pode concentrar dessa maneira a representação de todo um Estado no Senado?
O INTERIOR FICOU DE FORA
Eduardo Braga possui uma ampla aliança política e recebe apoio de dezenas de prefeitos. Então por que não escolher como suplente alguém do interior?
Uma liderança de Parintins, Tefé, Coari, Tabatinga, Humaitá, Manacapuru ou São Gabriel da Cachoeira poderia levar outra realidade à chapa.
Seria uma forma de dividir espaço, reconhecer aliados e ampliar a representação do Amazonas. Mas a primeira suplência continuou em casa.
Os prefeitos ajudam na eleição, as lideranças pedem votos, os militantes enfrentam sol e chuva, o eleitor aperta os números na urna. Mas, se chegar a hora de substituir o senador, a vaga fica na família.
Convenhamos: é um negócio politicamente confortável demais.
NÃO É ACUSAÇÃO, É COBRANÇA
Não estou acusando Eduardo Braga nem Sandra Braga de qualquer ilegalidade.
A escolha está autorizada pela legislação eleitoral. O que esta coluna questiona é a qualidade democrática desse modelo.
Uma cadeira no Senado representa quase 3 milhões de eleitores amazonenses. Não deveria parecer reservada a um sobrenome.
Braga precisa explicar publicamente quais foram os critérios políticos, técnicos e representativos usados para escolher novamente a esposa como primeira suplente.
Experiência? Confiança? Fidelidade? Ou simplesmente a certeza de que, se precisar deixar o mandato, o poder continuará sob controle familiar
CONCLUSÃO DE BASTIDORES
Minha gente, a classe política adora falar em democracia, participação popular e renovação.
No entanto, quando chega o momento de dividir o poder, muitos olham primeiro para a árvore genealógica.
A escolha de Sandra Braga pode ser legal, pode estar registrada no TSE, pode cumprir todas as formalidades, mad a pergunta continuará de pé:
O mandato pertence ao povo do Amazonas ou deve permanecer protegido dentro da mesma família? Porque eleição é uma coisa. Herança é outra. E cadeira no Senado não deveria constar em inventário familiar.
*Antônio Zacarias é jornalista e fundador do PORTAL DO ZACARIAS, um dos portais de notícias mais acessados do Brasil e referência no jornalismo digital da Região Norte.
Com longa trajetória na imprensa da Amazônia, foi editor-geral de diversos jornais na Região Norte. No Amazonas, dirigiu os jornais Diário do Amazonas e O Povo do Amazonas, cujos proprietários eram o empresário Dissica Thomaz e o hoje senador Plínio Valério.
Também atuou como correspondente do jornal O Globo na Região Norte durante dois anos, a convite do jornalista Ascânio Seleme, então coordenador dos correspondentes no Brasil e atual editor-geral do jornal.
Antônio Zacarias é autor do livro “100 erros de português que todo mundo comete, inclusive você!”, obra dedicada à valorização do bom uso da língua portuguesa.