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‘SEGREDOS DE BASTIDORES’: GREVE DOS ÔNIBUS VIRA BOMBA-RELÓGIO PARA ROBERTO CIDADE, O ‘COCÔ DE OURO’, E ABRE NOVA FRENTE DE DESGASTE NA CORRIDA PELO GOVERNO
Foto: Reprodução / PORTAL DO ZACARIAS

 

SEGREDOS DE BASTIDORES

 

*Por Antônio Zacarias - O ônibus voltou a circular, mas a crise política ficou estacionada no colo do governador-tampão Roberto Cidade, o famoso “Cocô de Ouro”.

 

A greve dos rodoviários durou dois dias, paralisou o transporte coletivo de Manaus e colocou milhares de passageiros no meio de uma guerra política entre Prefeitura e Governo o Estado.

 

O pior para Roberto Cidade: a crise aconteceu justamente no momento em que ele tenta se apresentar ao eleitor como candidato competitivo à reeleição.

 

A pergunta que todo mundo tá fazendo é simples: quanto custa politicamente uma greve de ônibus para quem está no comando do Estado?

 

A CONTA CHEGOU NO COLO DO ‘COCÔ DE OURO’

 

O episódio começou com a paralisação dos rodoviários, em meio a atrasos salariais. A Prefeitura de Manaus atribuiu parte da responsabilidade ao Governo do Amazonas, apontando a falta de repasses relacionados ao Passe Livre Estudantil da rede estadual.

 

O Governo, por sua vez, reagiu e tentou afastar de si a responsabilidade pela paralisação, jogando o problema para o outro lado da mesa. Mas aí veio o detalhe que mudou o jogo.

 

Em meio à crise, o Governo do Amazonas anunciou o repasse de R$ 18 milhões ao Sinetram, valor relacionado ao Passe Livre Estudantil. No dia seguinte, os rodoviários encerraram a greve e os ônibus voltaram às ruas.

 

Politicamente, a imagem que fica é complicada. Se o governo não tinha nenhuma responsabilidade pelo problema, por que foi necessário fazer um repasse de R$ 18 milhões justamente no meio da crise para destravar a situação?

 

É aí que a onça comeca a beber água.

 

DOIS DIAS SEM ÔNIBUS, MILHARES DE ELEITORES LEMBRANDO DO PROBLEMA

 

Greve de ônibus não é uma crise qualquer. Ela mexe diretamente com a vida do trabalhador. É o cidadão que precisa chegar ao emprego, o estudante que precisa ir à escola, o pequeno comerciante que depende do transporte e a família que não tem dinheiro para pagar transporte por aplicativo.

 

Quando o ônibus para, o problema deixa de ser uma discussão contábil entre governo e empresas. Vira um problema de rua. E problema de rua, em ano eleitoral, tem memória.

 

O eleitor pode até esquecer uma coletiva de imprensa; pode esquecer uma nota oficial; pode até não acompanhar uma briga entre Prefeitura e Governo.

 

Dificilmente, porém, esquece quando fica horas esperando um ônibus que não chega.

 

A ‘GUERRA DOS R$ 18 MILHÕES’

 

O episódio ainda deixou uma contradição política difícil de administrar.

 

De um lado, o “Cocô de Ouro” tentou sustentar que a paralisação não havia sido provocada por uma dívida estadual. Do outro, anunciou o pagamento de R$ 18 milhões referentes ao Passe Livre Estudantil, e o depósito foi seguido pelo fim da greve.

 

O “Cocô de Ouro” usou o vice Serafim Corrêa para rebater acusações sobre valores maiores apresentados pelo Sinetram, ou seja: a guerra política agora não é apenas sobre quem deve ou quem pagou.

 

É sobre quem vai ficar com a conta política da greve. E, nesse jogo, Roberto Cidade tem um problema adicional: ele é o governador e também é candidato.

 

Quem está no poder tem a caneta, mas também leva a cobrança.

 

QUANDO A CRISE VIRA MATERIAL DE CAMPANHA

 

Renato Júnior percebeu rapidamente o potencial político da crise e partiu para o ataque.

 

Ao chamar o “Cocô de Ouro”de “governador caloteiro”, o prefeito transformou uma disputa financeira em munição eleitoral.

 

Isso é exatamente o que mais preocupa uma campanha, pois a oposição não precisa convencer o eleitor de que o governador é responsável por todos os problemas. Basta colar nele a imagem de que, quando a crise aparece, a solução só vem depois da pressão.

 

Essa narrativa pode ser repetida durante toda a campanha.

 

Os ônibus pararam; pos salários atrasaram; o governo negou a responsabilidade; depois veio o pagamento.

 

É uma história simples. Ehistória simples, em política, costuma ser perigosa.

 

O ‘COCÔ DE OURO’ ENTROU NA ZONA DE TURBULÊNCIA

 

Roberto Cidade já enfrenta uma eleição complicada porque precisa transformar a força da máquina pública em voto.

 

Só que existe uma diferença entre ter visibilidade e ter popularidade.

 

Quem governa aparece mais. E quem aparece mais também apanha mais. Simples assim.

 

A greve dos ônibus cria exatamente esse tipo de desgaste: uma crise que atinge diretamente a população e que pode ser explorada pelos adversários em cada debate, cada entrevista e cada caminhada de campanha.

 

A oposição ganhou uma frase pronta. E frase pronta é o sonho de qualquer marqueteiro. Concorda comigo?

 

O PROBLEMA É QUE A ELEIÇÃO NÃO ESPERA

 

O momento é particularmente delicado porque a disputa pelo segundo turno está aberta.

 

Enquanto Omar Aziz tenta consolidar a liderança, David Almeida, Maria Enxofre do Carmo e Roberto Cidade brigam por espaço e por uma vaga no segundo turno.

 

Nesse cenário, cada ponto percentual vale ouro. Sozinha, uma crise como a dos ônibus não decide uma eleição, é claro. Mas pesa, e pesa muito.

 

Até os menos entendidos sabem que, quando uma candidatura já enfrenta dificuldades, uma crise mal administrada pode se transformar em mais uma camada de rejeição.

 

É AÍ QUE MORA O PERIGO!

 

O problema de Roberto Cidade não é apenas a greve que acabou. O problema é o que ficou depois dela.

 

E o que ficou? Ficou a discussão sobre os atrasos; ficou a briga entre Prefeitura e Governo; ficou a diferença entre os valores apresentados publicamente; ficou a cobrança dos trabalhadores; ficou, principalmente, uma pergunta que os adversários vão tentar repetir até outubro: Se o governo tinha dinheiro para resolver, por que a crise chegou ao ponto de parar os ônibus?

 

É uma pergunta política, não apenas financeira. E pergunta política não se resolve com depósito bancário.

 

A GUERRA AGORA É PELO CONTROLE DA NARRATIVA

 

Roberto Cidade precisa agora fazer uma operação de emergência para evitar que a greve dos ônibus se transforme em símbolo de sua administração.

 

A estratégia será mostrar que o problema foi resolvido.

 

Os adversários, naturalmente, vão insistir no contrário: que o problema só foi resolvido depois que a pressão aumentou.

 

A batalha, portanto, mudou de lugar. Antes, era nos terminais e nas garagens. Agora, é nas redes sociais, nos palanques e na cabeça do eleitor. E aí, meu amigo, o ônibus voltou a rodar, mas a crise política ainda está acelerando.

 

CONCLUSÃO DE BASTIDOR

 

A greve dos rodoviários foi encerrada depois de dois dias e os ônibus voltaram às ruas após o repasse de R$ 18 milhões anunciado pelo Governo do Amazonas.

 

No entanto, para Roberto Cidade, o “Cocô de Ouro”, a conta política pode estar apenas começando.

 

O episódio expôs uma disputa pública entre Estado e Prefeitura, colocou o transporte coletivo no centro do debate eleitoral e deu aos adversários uma nova munição contra o governador-candidato.

 

A greve, sozinha, não tira ninguém de uma eleição, como eu ressaltei acima. Mas pode aumentar a temperatura de uma campanha que já está pegando fogo.

 

No fim das contas, o ônibus voltou a circular. Agora falta saber se o “Cocô de Ouro” conseguirá fazer a sua candidatura sair da zona de turbulência.

 

Ninguém discorda que, em eleição, quando o eleitor começa a associar o candidato aos problemas que enfrenta no dia a dia, o sinal amarelo acende. E, dessa vez, o “Cocô de Ouro” ficou parado no ponto.

 

* Antônio Zacarias é jornalista e fundador do PORTAL DO ZACARIAS, um dos portais de notícias mais acessados do Brasil e referência no jornalismo digital da Região Norte.


Com longa trajetória na imprensa da Amazônia, foi editor-geral de diversos jornais na Região Norte. No Amazonas, dirigiu os jornais Diário do Amazonas e O Povo do Amazonas, cujos proprietários eram o empresário Dissica Thomaz e o hoje senador Plínio Valério.


Também atuou como correspondente do jornal O Globo na Região Norte durante dois anos, a convite do jornalista Ascânio Seleme, então coordenador dos correspondentes no Brasil e atual editor-geral do jornal.


Antônio Zacarias é autor do livro “100 erros de português que todo mundo comete, inclusive você!”, obra dedicada à valorização do bom uso da língua portuguesa.

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