*Por Antônio Zacarias - “E o senhor não precisa pagar a gente, não”.
A frase ficou martelando na minha cabeça. Foi pronunciada por um rapaz de 28 anos que presta serviços domésticos em minha casa. Dias atrás, ele me perguntou em quem eu pretendia votar nas próximas eleições.
Respondi com naturalidade. Disse o nome do meu candidato a governador, do meu candidato a senador e daquele em quem pretendo votar para deputado estadual.
Ele ouviu atentamente e respondeu que votaria nos três. Mais: disse que pediria aos familiares que também votassem.
Até aí, nada de extraordinário. É assim que a política também funciona. As pessoas conversam, trocam opiniões, perguntam em quem o amigo vai votar, ouvem alguém em quem confiam e, muitas vezes, levam aquela opinião em consideração.
Foi então que ele acrescentou: “E o senhor não precisa pagar a gente, não.”
Confesso que a frase me desconcertou. Não porque eu tivesse cogitado pagar um único centavo pelo voto dele ou de qualquer pessoa. Evidentemente, não.
O que me perturbou foi justamente o contrário.
Por que aquele rapaz achou necessário dizer que eu não precisava pagar?
Talvez esteja aí uma das faces mais tristes da nossa cultura eleitoral.
Para aquele jovem, aparentemente, havia alguma relação possível — talvez até corriqueira — entre pedir votos para a candidatos e receber alguma coisa em troca.
Eu não lhe ofereci dinheiro, ele não me pediu dinheiro, não houve negociação, não houve promessa. Exatamente por isso sua frase é tão reveladora.
Afinal, ninguém costuma dizer “não precisa pagar” quando a hipótese do pagamento nascer faz parte da sua realidade.
A frase não prova que ele tenha vendido voto alguma vez, embora seja grande a possibilidade, a julgar pela frase em questão.
Concorda comigo, caro leitor, caríssima leitora?
Como a situação está apenas no campo da possibilidade, eu seria irresponsável se afirmasse que o rapaz já vendeu voto.
No entanto, a frase revela, no mínimo, que a compra do voto faz parte do imaginário eleitoral de uma parcela da população a ponto de precisar ser espontaneamente afastada da conversa.
Isso deveria nos incomodar profundamente, não é mesmo?
O VOTO QUE GANHOU PREÇO E PERDEU VALOR
Durante décadas, aprendemos a denunciar o político que compra voto. E temos toda a razão.
Comprar voto é crime eleitoral. É uma das formas mais degradantes de corrupção porque atinge exatamente o momento em que todos deveriam ser iguais.
Na urna, o voto do milionário vale exatamente o mesmo que o voto do trabalhador que pega dois ônibus para chegar em casa.
É talvez o instante mais radical de igualdade produzido pela democracia.
Existe, porém, um problema anterior à urna. É quando o voto deixa de ser percebido como um direito e começa a ser tratado como mercadoria.
Não raro — todos sabemos disso — um voto é comprado por cinquenta reais, cem reais, um tanque de gasolina, uma cesta básica, um milheiro de tijolo, uma conta de luz paga.
A mercadoria muda conforme o lugar e a necessidade. A lógica é sempre a mesma.
Quanto vale o seu voto?Essa pergunta, por si só, já deveria ser ofensiva.
QUEM PRECISA MAIS É QUEM FICA MAIS VULNERÁVEL
Há ainda uma perversidade adicional nesse sistema: a compra de votos explora principalmente a necessidade.
Para quem tem dinheiro, cem reais podem não representar absolutamente nada, mas para uma família que está com a geladeira vazia, podem representar comida para alguns dias.
É justamente aí que mora a crueldade. O comprador não está apenas comprando um voto, está se aproveitando da fragilidade econômica de alguém para adquirir uma parcela de sua liberdade política.
É uma transação profundamente desigual. De um lado, alguém com dinheiro, estrutura ou poder. Do outro, alguém que muitas vezes precisa resolver o problema de hoje antes de pensar no governo dos próximos quatro anos.
O ELEITOR TAMBÉM PRECISA REFLETIR
Seria confortável colocar toda a responsabilidade exclusivamente sobre os políticos. Não podemos. Não podemos mesmo.
É claro que a responsabilidade de quem oferece é naturalmente muito maior porque utiliza poder econômico para corromper a liberdade do voto.
No entanto, precisamos discutir, sem hipocrisia, a normalização social dessa prática.
Quando alguém passa a perguntar “quanto estão pagando?”, como se estivesse consultando o preço de um produto, alguma coisa muito grave aconteceu.
A verdade nua e crua é que a corrupção eleitoral deixou de causar espanto. Virou rotina. E ao virar rotina, deixou de escandalizar, de provocar indignação.
O DINHEIRO ACABA; O MANDATO FICA
Há uma conta simples que raramente fazemos: o dinheiro recebido pelo voto pode acabar naquela noite; a cesta básica dura algumas semanas; o combustível termina; o saco de cimento vira parede.
Já o mandato… Esse dura quatro anos.
São quatro anos de decisões sobre o preço do feijão, do arroz, da farinha.
São quatro anos de decisões sobre hospitais, escolas, segurança pública, estradas, transporte, emprego, impostos e dinheiro público.
O eleitor que vende o voto por uma necessidade imediata pode passar quatro anos pagando uma conta infinitamente maior.
O político que compra votos, por sua vez, também aprende uma lição terrível: que não precisa conquistar aquele cidadão, precisa apenas comprá-lo novamente na eleição seguinte.
POBREZA NÃO SIGNIFICA FALTA DE DIGNIDADE
Também é necessário tomar cuidado para que essa discussão não descambe para o preconceito.
Cumpre destacar que pobre não vende voto porque é pobre.
Há milhões de brasileiros de baixa renda que jamais aceitariam dinheiro para escolher um candidato.
Assim como há pessoas de excelente condição financeira perfeitamente dispostas a trocar apoio político por cargos, contratos, privilégios e interesses econômicos.
A compra de votos dos pobres apenas costuma ser mais visível. A dos poderosos às vezes recebe nomes mais elegantes.
Por isso, não faço qualquer julgamento sobre o rapaz que trabalha em minha casa.
Ao contrário. Ele não pediu nada e fez questão de dizer que não queria nada.
Foi justamente sua recusa espontânea que provocou esta minha reflexão.
“NÃO PRECISA PAGAR”
Ele certamente, dada a sua pouca instrução, não imaginou o peso daquela frase.
“E o senhor não precisa pagar a gente, não”.
Não precisa. Ninguém deveria precisar. Porque voto não deveria ter comprado nem vendedor. E, principalmente, não deveria ter preço.
O voto tem outra coisa. Tem valor. E existe uma diferença enorme entre preço e valor.
Preço é aquilo que alguém oferece para levar alguma coisa sua. Valor é aquilo que você se recusa a vender.
Que chegue o dia em que, diante de uma conversa sobre eleição, nenhum brasileiro considere necessário dizer que não precisa ser pago para votar.
Quando esse dia chegar, talvez tenhamos aprendido uma das lições mais elementares da democracia: o voto é nosso justamente porque não está à venda.
*Antônio Zacarias é jornalista e fundador do PORTAL DO ZACARIAS, um dos portais de notícias mais acessados do Brasil e referência no jornalismo digital da Região Norte.
Com longa trajetória na imprensa da Amazônia, foi editor-geral de diversos jornais na Região Norte. No Amazonas, dirigiu os jornais Diário do Amazonas e O Povo do Amazonas, cujos proprietários eram o empresário Dissica Thomaz e o hoje senador Plínio Valério.
Também atuou como correspondente do jornal O Globo na Região Norte durante dois anos, a convite do jornalista Ascânio Seleme, então coordenador dos correspondentes no Brasil e atual editor-geral do jornal.
Antônio Zacarias é autor do livro “100 erros de português que todo mundo comete, inclusive você!”, obra dedicada à valorização do bom uso da língua portuguesa.