Na educação básica, a Cultura Oceânica é uma abordagem que contempla competências e habilidades importantes para a formação de pessoas preocupadas com o meio ambiente e a justiça social
Será que compreendemos as influências do Oceano em nossas vidas e as nossas influências sobre o Oceano? Cada pessoa tem uma história, a qual pode estar mais ou menos relacionada ao Oceano. Mas, nenhum ser humano que habita este planeta está completamente desassociado do Oceano. Essa compreensão é fundamental e constitui o que especialistas chamam de Cultura Oceânica (do inglês Ocean Literacy).
O movimento da Cultura Oceânica busca sensibilizar a sociedade para a importância do Oceano em nossas vidas e sobre os efeitos que as ações humanas têm sobre ele para promover mudanças nas relações da sociedade com o Oceano, independente da proximidade geográfica com o ambiente marinho.
Reconhecido por suas dimensões terrestres continentais, o Brasil também tem uma grande área de oceânica, o que torna o Oceano um excelente tema para ser discutido no processo formativo do brasileiro dada a sua importância social, ambiental e econômica para o país.
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É importante que pessoas de todas as idades possam aprender sobre o Oceano: o quanto ele é determinante para o clima do planeta; quanta biodiversidade e ecossistemas ele abriga; quanta energia ele transporta; que é fonte de recursos e meio de transporte; que oferece empregos e renda para muitas pessoas; que é fonte de grande parte do oxigênio atmosférico; que ainda é insuficientemente conhecido pela ciência; que está diretamente ligado à história, à cultura e à arte e que são necessários conhecimentos de diferentes disciplinas e pensamento sistêmico para melhor compreendermos o Oceano.
A escola pode contribuir com essa aprendizagem quando inclui nos currículos os sete princípios da Cultura Oceânica, os quais justamente abordam esses conhecimentos, dessa forma permitindo o trabalho com competências e habilidades importantes para a inclusão social e o pleno exercício da cidadania.
A formulação de questionamentos e o levantamento de hipóteses sobre fenômenos observados no Oceano; a observação de seres vivos marinhos; a coleta, sistematização e análise de dados oceânicos (bióticos ou abióticos); a proposição e execução de ações (individuais e coletivas) para a conservação do Oceano; a produção de obras artísticas com temas oceânicos; o estudo da história e das culturas humanas relacionadas ao Oceano; os produtos alimentícios, químicos, biológicos e tecnológicos gerados com matéria-prima que vem dos mares; o desenvolvimento de modelos e protótipos, entre outras possibilidades, são alguns exemplos daquilo que é possível se desenvolver a partir de temas relacionados ao Oceano.
Foto: Reprodução
Uma pesquisa publicada em 2022 por Carmen Edith Pazoto, Edson Pereira Silva e Michelle Rezende Duarte revelou que os princípios da Cultura Oceânica aparecem mais nos currículos regionais do que na Base Nacional Comum Curricular, especialmente no que diz respeito ao princípio 1 (A Terra tem um no grande oceano com muitas características). Além disso, a maioria dos conceitos dos princípios 2 (O oceano e a vida no oceano moldam as características da Terra), 4 (O oceano torna a Terra habitável) e 5 (O oceano suporta uma grande diversidade de vida e ecossistemas) foram mal explorados, e não houve menção ao princípio 7 (O oceano é em grande parte inexplorado).
Em outro artigo publicado por estes mesmos autores em 2023, verificou-se que os temas oceânicos são principalmente trabalhados nas disciplinas de Biologia e Geografia, e raramente na disciplina de História, o que pode sugerir a falta de aproximação com o tema, a dificuldade de encontrar materiais que estabeleçam claramente a relação com o Oceano para além das grandes navegações ou mesmo falta de conhecimento, o que gera insegurança. Uma análise dos currículos de formação em História, por exemplo, evidencia que estes documentos apresentam pouca ou nenhuma informação em relação à História Ambiental do Antropoceno.
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Os materiais pedagógicos muitas vezes não oferecem oportunidades concretas de se trabalhar com temas oceânicos. Compreender que o Oceano está presente nas propostas curriculares também não é uma tarefa simples, pois “traduzir” a BNCC para propostas concretas de sala de aula envolve discussões complexas sobre o documento. Além disso, muitos assuntos relacionados com a lei 10.639/03, que trata da história e cultura afro-brasileira e africana, tem o Oceano como elemento fundamental. Neste sentido, oferecer cursos de formação inicial e continuada é um caminho fundamental para a construção dessa visão ampla, complexa (composta de múltiplas dimensões), sistêmica (composta por elementos que interagem, formando sistemas) e interdisciplinar (composta de conhecimentos de diferentes disciplinas) sobre o Oceano
Fonte: O Eco