De um lado, o passado ativista e militante do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Do outro, a necessidade de retomar as relações multilaterais com países da América Latina, uma assinatura diplomática brasileira deixada em segundo plano na antiga gestão de Jair Bolsonaro (PL). Esses dois elementos estão em jogo quando opositores e aliados do novo líder do Executivo precisam debater um tema caro e sensível ao petista: as ditaduras de esquerda no continente americano.
Desde o envio do assessor internacional Celso Amorim em uma viagem secreta para encontrar Nicolás Maduro em Caracas, em março, além da negativa brasileira em participar de um documento que condenava atos de tortura e extradição de cidadãos na Nicarágua durante encontro das Nações Unidas, os olhos de todos se voltaram, mais uma vez, para quais deverão ser os próximos passos do governo com relação às ditaduras de esquerda no continente.
Em encontros internacionais, a diplomacia do Brasil tem repetido palavras como “mediação” e “conciliação”, mas políticos da oposição e ativistas dos direitos humanos cobram uma opinião mais dura e assertiva contra os regimes autoritários.
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Nessa espécie de gangorra em que o petista tenta se equilibrar para achar o tom ideal, especialistas apontam ao Metrópoles dois interesses centrais que devem guiar o personagem brasileiro de mediador nos próximos anos. O primeiro deles, o desejo de manter as possibilidades de diálogo abertas, mesmo que elas só sejam deslumbradas mais à frente.
De acordo com os analistas, essa posição casa com a tradição histórica da política externa brasileira, independente das gestões lulistas anteriores. Na outra mão, contudo, existe uma linha de velha-guarda dentro do próprio partido, da qual o atual presidente já fez parte. Ela ainda enxerga e admira rastros de revoluções comunistas da Guerra Fria em líderes como Daniel Ortega e Nicolás Maduro.
Interferência da velha-guarda do partido
“Existe uma tradição anti-imperialista dentro dos governos de esquerda da América Latina, uma leitura de mundo que combate o ideal unipolar, no qual os Estados Unidos são o único modelo possível”, explica André Reis, professor de Relações Internacionais da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). “Isso vem desde a época dos combates às ditaduras militares na América Latina que surgiram durante a Guerra Fria, como um argumento às ‘supostas ameaças da esquerda'”.
Durante esse período da história, os movimentos de esquerda se uniam e se fortaleciam dentro do continente para combater regimes autoritários de direita, seja com apoio financeiro, seja com trocas de bases ideológicas. Foi nessa época, por exemplo, que surgiu o alinhamento de ideais entre Daniel Ortega com Lula, durante a Revolução Sandinista na Nicarágua, entre 1979 e 1990, responsável pelo fim da ditadura do presidente Anastasio Somoza Debayle.
“Existe um pessoal da velha-guarda, integrante do Partido dos Trabalhadores, que acredita que Ortega e Maduro continuam a representar os mesmos ideais das décadas de 80 e 90. Eles tendem a fazer a vista grossa com os regimes por causa do alinhamento ideológico, o que não pode acontecer. Governo autoritário é governo autoritário, independente do jogo político. Certo?”, avalia Luiz Estrella, também especialista em Relações Internacionais pela UFRGS.
Estrella reforça, porém, que uma outra parte do PT já questiona se esses mesmos líderes revolucionários do passado ainda representam o que defendiam. “Essa parcela pensa que Ortega abandonou os princípios sandinistas desde o começo da sua ditadura e dos crimes cometidos contra os direitos humanos, incluindo tortura e prisão de opositores”.
Na avaliação do especialista, o tom escorregadio com o qual Lula trata assuntos relacionados aos governos venezuelanos e nicaraguenses é consequência dessa diversidade de posicionamentos dentro do próprio PT. Para evitar indisposição com diferentes linhas de pensamento do partido, o presidente adota falas pouco objetivas em entrevistas e encontros internacionais.
Membros da diretoria do Partido dos Trabalhadores consultados pela reportagem alegam, contudo, que não faz parte das diretrizes internas da organização apoiar qualquer tipo de “governo ditatorial”. Eles informam que, nos últimos debates, o partido não alinharam uma opinião interna sobre tratativas com relação à Venezuela e à Nicarágua, mas reforçaram a defesa da “soberania interna” e da “autodeterminação dos povos”. De acordo com a mesa diretora, os países devem ter liberdade para resolver as próprias questões.
Em 2021, um tweet publicado pelo perfil oficial do PT em celebração à vitória de Ortega nas eleições presidenciais da Nicarágua, questionada por inúmeros organismos internacionais, foi desautorizado e apagado pela diretoria minutos depois. Gleisi Hoffmann, presidente do partido, veio à rede social para falar que a nota não havia sido submetida para avaliação de superiores e, por isso, não expressava a opinião do movimento.Mediação nas eleições venezuelanas de 2024
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Apesar dos supostos interesses ideológicos e do saudosismo de uma velha-guarda no PT, a política externa brasileira é conhecida internacionalmente pela postura de conciliação e mediação em conflitos. Lula adotou esse tom com relação à guerra entre Ucrânia e Rússia e mostra indícios de fazer o mesmo com crises observadas nos países vizinhos, como a Venezuela.
Fonte: Metrópoles