Cecilia Machado defende que Brasil precisa avançar em divisão mais igualitária nos cuidados com os filhos para permitir avanço profissional das mulheres. Diferencial de salários para os homens dá um salto após a maternidade
O Congresso aprovou e o presidente Lula sancionou a ampliação da licença-paternidade, e especialistas já dizem: é mais do que um benefício, é um passo contra a desigualdade de gênero no trabalho. Cecilia Machado, economista-chefe do banco BoCOM BBM e professora da PUC-Rio, lembra que a verdadeira batalha pela igualdade salarial e profissional ainda começa em casa.
Apesar das mulheres ocuparem cada vez mais cargos e cursos antes dominados por homens, a diferença aparece de forma clara depois que o primeiro filho nasce. Estudos mostram que, antes disso, homens e mulheres têm salários parecidos; depois, a disparidade salta. A chamada “penalidade da maternidade” não desaparece nem em empresas modernas com líderes mulheres, porque o cuidado com os filhos continua associado culturalmente às mães.
Cecilia cita Claudia Goldin, Nobel de Economia 2023, para reforçar: desigualdade no mercado de trabalho não é só discriminação, é reflexo de desigualdades domésticas. Mulheres muitas vezes escolhem empregos mais flexíveis, abrem mão de salários mais altos e acabam reproduzindo a diferença, mesmo quando a lei garante igualdade salarial.
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Por isso, políticas de licença-maternidade e paternidade não são apenas benefícios; são ferramentas para mudar normas culturais. A licença-maternidade evita que mulheres saiam do mercado de trabalho e desperdicem capital humano. Já a licença-paternidade ajuda a desfazer o estereótipo de que cuidar dos filhos é só responsabilidade da mulher.
No Brasil, a ampliação para 20 dias é vista como um passo gradual, mas importante. Experiências internacionais, como a Suécia, mostram que mudanças iniciais podem causar rupturas sociais, mas que reformas contínuas promovem equilíbrio entre pais e mães na divisão de cuidados. A licença concomitante tem ainda um papel prático nos primeiros dias de vida do bebê, quando a mãe precisa de apoio direto.

Foto: Reprodução
O desafio brasileiro é maior, porque o mercado informal deixa muitas mulheres de fora desses benefícios. A licença obrigatória para homens, remunerada pelo INSS, garante que a política funcione de fato, e não apenas no papel. Estudos internacionais indicam ainda que a flexibilidade das profissões é crucial: quando mulheres podem ajustar horários sem perder produtividade, elas prosperam sem abrir mão de seus empregos.
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No fim, ampliar licenças é apenas uma peça do quebra-cabeça. A verdadeira igualdade depende de mudar padrões dentro de casa, para que mercado de trabalho e vida doméstica caminhem juntos. Afinal, não é só sobre salário, é sobre quem segura o bebê enquanto o mundo gira.