NOTÍCIAS
Geral
André Mendonça: a dívida com os Bolsonaro chegou ao Master?
Foto: Luiz Roberto/TSE.

Plinio Coêlho questiona a atuação de André Mendonça no caso Banco Master e cobra o mesmo rigor na investigação das relações de Flávio Bolsonaro com o dinheiro destinado ao filme Dark Horse

*Por Plinio Cesar Coêlho - Há perguntas que não podem mais ser tratadas como coincidências. Por que Jair Bolsonaro escolheu André Mendonça para o Supremo Tribunal Federal? A explicação conhecida é que Bolsonaro prometera indicar alguém “terrivelmente evangélico”. André Mendonça preenchia o requisito. Mas terá sido somente por isso? Para responder essa questão, é preciso voltar a abril de 2020.

 

Sergio Moro deixou o Ministério da Justiça em 24 de abril daquele ano, depois da exoneração do diretor-geral da Polícia Federal, Maurício Valeixo. Ao sair, acusou Bolsonaro de tentar interferir politicamente na PF. Dois dias antes, em reunião ministerial gravada, Bolsonaro havia feito declarações que entrariam para a história de seu governo.

 

Reclamou da falta de informações, mencionou expressamente a Polícia Federal, falou de sua família e de amigos e anunciou que iria interferir. Disse ainda que, se não pudesse trocar alguém na ponta, trocaria o chefe e, se necessário, trocaria o ministro. Não é interpretação minha. Está gravado.

 

Veja também

 

Quando Campos Neto e Flávio Bolsonaro vão sentar no banco dos réus?

 

Hitler também teve o apoio de evangélicos

 

Bolsonaro posteriormente sustentou que estava falando de sua segurança pessoal. Moro apresentou outra versão: afirmou que o presidente queria interferir na Polícia Federal. O episódio deu origem a uma investigação. Mas a sequência dos acontecimentos permanece. Valeixo saiu, Moro saiu, Bolsonaro tentou colocar Alexandre Ramagem, homem de sua confiança e próximo de sua família, na direção da Polícia Federal. E quem ocupou o lugar de Sergio Moro no Ministério da Justiça? André Mendonça.

 

 

DA SAÍDA DE MORO À ESCOLHA DE MENDONÇA

 

Essa pergunta, portanto, é inevitável: que tipo de ministro Bolsonaro procurava naquele momento? Certamente não outro Sergio Moro.

 

Bolsonaro acabara de romper com um ministro que o acusava de interferência na Polícia Federal. Precisava colocar no Ministério da Justiça alguém em quem confiasse. Escolheu André Mendonça.

 

E Mendonça demonstrou rapidamente que estava disposto a defender Bolsonaro. Durante sua passagem pelo Ministério da Justiça, a máquina estatal foi acionada contra críticos do presidente, inclusive mediante pedidos de investigação com base na antiga Lei de Segurança Nacional.

 

Depois veio a recompensa política mais extraordinária que um presidente da República poderia proporcionar a um integrante de seu governo: uma cadeira no Supremo Tribunal Federal. Bolsonaro indicou André Mendonça.

 

E agora chegamos ao Banco Master. Não estamos diante de uma pequena irregularidade bancária.

 

A Polícia Federal desencadeou sucessivas fases da Operação Compliance Zero para investigar suspeitas envolvendo crimes contra o sistema financeiro, organização criminosa, embaraço de investigação e outras condutas. Daniel Vorcaro tornou-se personagem central de um dos maiores escândalos financeiros recentes do país. E no meio desse lamaçal apareceu novamente um sobrenome conhecido: Bolsonaro.

 

Vieram à tona os milhões destinados ao projeto Dark Horse, o filme sobre Jair Bolsonaro. Vieram as relações de Daniel Vorcaro com integrantes do mundo político. Vieram as suspeitas envolvendo Flávio Bolsonaro. Vieram os caminhos percorridos pelo dinheiro.

 

E veio até acordo de colaboração premiada de empresário ligado a Vorcaro cuja empresa, segundo as investigações, teria enviado recursos para um fundo nos Estados Unidos que supostamente financiaria o Dark Horse.

 

 

O DINHEIRO DO DARK HORSE

 

Portanto, investigar esse filme não é investigar cinema. É investigar dinheiro. É descobrir de onde saiu, por onde passou, quem recebeu, por que recebeu e qual eventual contrapartida existiu.

 

É verdade que André Mendonça autorizou a abertura da investigação sobre os repasses ao Dark Horse. Esse fato precisa ser registrado. Mas autorização para investigar não significa que todas as perguntas estejam respondidas. A questão é: até onde essa investigação chegará? Chegará a Flávio Bolsonaro? Teremos acesso ao mesmo grau de transparência dispensado a outros personagens do escândalo? Serão abertas todas as relações financeiras e políticas entre Daniel Vorcaro e o clã Bolsonaro? É aí que a história fica ainda mais grave.

 

Nesta terça-feira, 8 de setembro de 2026, André Mendonça determinou o afastamento do diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, e do diretor de Inteligência da instituição, Leandro Almada. Andrei estava à frente da Polícia Federal justamente durante as investigações que fizeram avançar o caso Master.

 

A justificativa de Mendonça é conhecida: ele afirma que relatórios produzidos no âmbito da PF revelariam monitoramento ilegal contra ele e outras autoridades. A decisão precisa ser examinada juridicamente e não escondida do leitor. Mas isso não elimina a pergunta política. Ao contrário, quem ganha com uma Polícia Federal enfraquecida justamente quando ela investiga um escândalo que alcança o Banco Master, Daniel Vorcaro e personagens poderosos da política brasileira?

 

E há algo ainda mais revelador. Quem comemorou o afastamento de Andrei Rodrigues? Flávio Bolsonaro.

 

 

A POLÍCIA FEDERAL NO CENTRO DA CRISE

 

O candidato à Presidência elogiou a decisão de André Mendonça e disse que ela serviria para recuperar a independência da Polícia Federal. Curiosa independência.

 

A Polícia Federal é independente quando sua direção é afastada por André Mendonça, mas era inconveniente quando Bolsonaro reclamava que não recebia as informações que queria?

 

Voltemos a 2020. Bolsonaro falava de família e amigos. Moro saiu denunciando interferência. André Mendonça entrou.

 

Em 2021, Bolsonaro colocou André Mendonça no Supremo. Agora, em 2026, temos Flávio Bolsonaro envolvido politicamente nas revelações relacionadas ao dinheiro de Vorcaro e ao Dark Horse. Temos a Polícia Federal investigando. Temos André Mendonça na relatoria. E temos André Mendonça afastando o diretor-geral dessa mesma Polícia Federal. Quantas coincidências são necessárias para que uma coincidência deixe de ser tratada apenas como coincidência?

 

Não estou afirmando que exista um contrato escrito entre Bolsonaro e André Mendonça. Não preciso inventar documento algum. Os fatos conhecidos já são suficientemente graves para exigir respostas. A questão central é outra. Se André Mendonça considera indispensável expor e investigar as relações de Alexandre de Moraes com Daniel Vorcaro, ótimo. Investigue, abra tudo. Não proteja ninguém. Mas aplique exatamente a mesma régua a Flávio Bolsonaro.

 

Abra os caminhos do dinheiro do Dark Horse. Mostre quem pediu, quem negociou, quem autorizou, quem pagou, quem recebeu. Por quais empresas e fundos o dinheiro circulou. E, principalmente, qual era o interesse de Daniel Vorcaro em colocar tamanha quantidade de dinheiro num projeto destinado a construir cinematograficamente a imagem de Jair Bolsonaro.

 

 

UMA INVESTIGAÇÃO NÃO PODE TER DUAS VELOCIDADES

 

O Brasil não pode aceitar uma investigação com duas velocidades: lupa sobre os adversários e neblina sobre os aliados. O Banco Master não é uma briga particular entre André Mendonça e Alexandre de Moraes. Muito menos uma disputa eleitoral entre Lula e Flávio Bolsonaro.

 

Estamos falando de um escândalo financeiro de enorme dimensão, com repercussões para investidores, credores, instituições públicas e para o próprio sistema financeiro brasileiro. A Polícia Federal tem obrigação de seguir o dinheiro, independentemente de onde ele termine. Se chegar a Alexandre de Moraes, investigue Alexandre de Moraes. Se chegar a gente ligada ao governo Lula, investigue. Se chegar a Flávio Bolsonaro, investigue Flávio Bolsonaro. Se chegar a Jair Bolsonaro, investigue Jair Bolsonaro. E se a investigação chegar perto do próprio André Mendonça, investigue André Mendonça. É assim que funciona a República.

 

O que não podemos admitir é que alguém transforme a relatoria de um dos maiores escândalos financeiros do país numa arma política para escolher quem será exposto e quem permanecerá protegido. Por isso volto à primeira pergunta. Por que Bolsonaro escolheu André Mendonça? Foi apenas porque era “terrivelmente evangélico”? Foi porque confiava nele?

 

Foi porque André Mendonça demonstrara lealdade quando aceitou substituir Sergio Moro justamente depois da crise provocada pelas acusações de interferência na Polícia Federal? E agora a pergunta inevitável: a dívida com os Bolsonaro chegou ao Banco Master?

 

André Mendonça tem uma maneira muito simples de responder. Não precisa dar entrevista. Não precisa fazer discurso. Não precisa invocar Deus. Basta mandar investigar Flávio Bolsonaro e o dinheiro do Dark Horse com o mesmo rigor, a mesma transparência e a mesma disposição que demonstra quando o investigado está do outro lado. Até lá, a pergunta continuará de pé.

 

E cada nova decisão que enfraqueça justamente a Polícia Federal que desvendou o escândalo só fará essa pergunta ficar ainda maior.

 

Curtiu? Siga o PORTAL DO ZACARIAS no Facebook, Twitter e no Instagram.

Entre no nosso Grupo de WhatApp, Canal e Telegram

 

*Plinio Cesar Albuquerque Coêlho é professor do Departamento de Economia da Universidade Federal do Amazonas (UFAM). É mestre em Administração pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e doutorando na Universidade de Ciências Empresariais e Sociais (UCES), em Buenos Aires.

LEIA MAIS
DEIXE SEU COMENTÁRIO

Nome:

Mensagem:

Copyright © 2013 - 2026. Portal do Zacarias - Todos os direitos reservados.