Profissionais da rede primária recebem treinamento para acolher pacientes e reduzir filas na atenção especializada.
Diante da crescente demanda por atendimento em saúde mental e das longas filas para psicólogos e psiquiatras no SUS, municípios brasileiros têm investido na capacitação de equipes da atenção básica para acolher e acompanhar pessoas com quadros leves e moderados de depressão, ansiedade e outros transtornos.
O objetivo não é substituir especialistas, mas ampliar a capacidade de cuidado nas Unidades Básicas de Saúde (UBSs), onde a população já busca atendimento para doenças como hipertensão, diabetes e acompanhamento de pré-natal situações que frequentemente vêm acompanhadas de sofrimento emocional.
A iniciativa já está em andamento em cidades como Aracaju, Santos e São Caetano do Sul (SP), seguindo recomendações da Organização Mundial da Saúde (OMS) e do próprio SUS: nem todo sofrimento psíquico exige atenção especializada de início. Com formação adequada, protocolos e supervisão, os profissionais da atenção primária podem realizar acolhimento qualificado e intervenções breves, prevenindo agravamentos e reduzindo a sobrecarga em ambulatórios e Centros de Atenção Psicossocial (Caps).
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O programa é coordenado pela organização sem fins lucrativos ImpulsoGov, que, em parceria com governos, capacita profissionais do SUS. Desde 2023, cerca de 125 trabalhadores, entre agentes comunitários de saúde e técnicos de enfermagem, passaram ou ainda estão passando pelo treinamento.
“Existe uma lacuna de formação muito grande. Esses profissionais já recebem demandas de saúde mental no dia a dia, mas muitas vezes não sabem como acolher, o que perguntar ou como conduzir a conversa”, explica Evelyn da Silva Bitencourt, coordenadora de produto da ImpulsoGov.
Atualmente, a saúde mental é a quarta condição mais atendida na atenção primária, atrás de hipertensão, diabetes e puericultura, representando 6,5% de todos os atendimentos em 2025.
A capacitação inclui 20 horas de aulas teóricas em uma semana e cinco meses de prática supervisionada. Durante esse período, os profissionais atendem pacientes reais com o suporte de especialistas para discutir casos e tirar dúvidas.
O principal instrumento utilizado é o AIP (Acolhimento Interpessoal), modelo de escuta estruturada e intervenção breve, organizado em quatro encontros. Também são ensinadas escalas como PHQ-9, que avalia sintomas depressivos, e a Columbia, para risco de suicídio.
“O protocolo orienta quem pode ser acompanhado na UBS e quem precisa ser encaminhado à atenção especializada. Assim, pacientes leves recebem atenção rápida, evitando que o quadro piore”, afirma Evelyn.
Segundo dados do programa, pacientes com pontuações moderadas no PHQ-9, entre 13 e 14, chegam a reduzir os sintomas em cerca de 50%, encerrando o acompanhamento com aproximadamente 7 pontos, indicativos de depressão leve. Até o momento, foram registrados cerca de 1.200 atendimentos.
Em Aracaju, onde o programa começou em 2024, a saúde mental já é a terceira condição mais atendida na atenção primária. A cidade enfrenta uma fila de cerca de 10 mil pessoas aguardando psicólogos e psiquiatras, algumas há mais de um ano.
“Se a atenção primária não conseguir atender os casos leves e moderados, tudo vai para a especializada, e a fila só cresce”, afirma Mayra Oliveira, coordenadora da atenção primária na Secretaria Municipal de Saúde.
A adesão dos profissionais ao treinamento ainda é um desafio. Muitos reconhecem a necessidade de cuidar de si antes de cuidar de outros. Para a enfermeira Ana Paula Britto Oliveira Santos, que passou pela capacitação, a formação mudou sua prática:
“Antes me sentia limitada diante do sofrimento emocional dos pacientes. Agora sei acolher e conduzir intervenções de forma estruturada, o que faz toda a diferença.”
Pacientes também relatam melhorias significativas. M.C.A., 34 anos, começou a receber acompanhamento em saúde mental durante o pré-natal da terceira filha, vivendo luto pela morte do pai. “As conversas me ajudaram a lidar com o medo e o luto. Hoje me sinto mais leve e preparada para essa nova fase da vida”, conta.
O psicólogo Lucas Rosa Palmeira, assessor técnico do programa, explica que, se necessário, é possível iniciar um novo ciclo de atendimento de quatro encontros. Casos que se agravam são encaminhados aos Caps, e, se houver necessidade de medicação, o tratamento pode continuar na UBS com apoio remoto de um psiquiatra.
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“Essa abordagem evita que pessoas com quadros leves enfrentem filas longas, garantindo acompanhamento próximo e seguro desde o início”, conclui Palmeira.