A primeira-dama Janja da Silva defendeu que o Discord seja retirado do ar no Brasil
A proposta de retirar o Discord do ar no Brasil, defendida pela primeira-dama Janja da Silva após a morte de uma adolescente de 13 anos, abriu um novo debate sobre como combater crimes e conteúdos perigosos na internet. Especialistas avaliam que o bloqueio da plataforma não seria suficiente para impedir a atuação de criminosos e poderia fazer parte dos usuários migrarem para outros serviços.
O caso que motivou a discussão ocorreu em Naviraí, no Mato Grosso do Sul. Segundo as investigações, a adolescente teria sido coagida por usuários durante uma transmissão ao vivo. A polícia apreendeu cinco adolescentes e prendeu um homem de 18 anos suspeitos de envolvimento no episódio. As autoridades apontam que grupos utilizavam o Discord e o Telegram para atrair meninas, disseminar discursos de ódio, promover radicalização e incentivar comportamentos violentos.
Janja defendeu o bloqueio imediato da plataforma durante uma cerimônia no Palácio do Planalto. A primeira-dama afirmou que não consegue aceitar que uma menina tenha sido vítima de violência e morrido durante uma transmissão na internet. A Advocacia-Geral da União também anunciou que pretende reunir informações sobre o caso para avaliar medidas judiciais contra a empresa.
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Dados da SaferNet mostram que as denúncias envolvendo o Discord aumentaram 54% entre janeiro e julho de 2026, em comparação com o mesmo período do ano anterior. Foram 406 registros nos primeiros sete meses deste ano, contra 264 em 2025. A plataforma já apareceu em investigações relacionadas a crimes como extorsão sexual, tráfico de pessoas, venda de drogas e armas, ataques violentos e incentivo à automutilação.
Apesar da gravidade dos casos, especialistas afirmam que um bloqueio nacional pode produzir um efeito contrário ao desejado. Usuários poderiam recorrer a VPNs para continuar acessando o Discord ou simplesmente migrar para outras plataformas, algumas delas ainda mais distantes do alcance das autoridades brasileiras. Para especialistas em segurança digital, a medida poderia dificultar a identificação e o monitoramento de grupos criminosos.
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À esquerda, vídeo de estupro virtual realizado no Discord sendo
compartilhado no X; à direita, imagem de servidor de um
grupo interessado em realizar ataques a escolas
Outro ponto levantado é a estrutura do próprio Discord. A plataforma permite a criação de servidores privados e comunidades fechadas, nas quais os administradores definem regras de acesso e funcionamento. Segundo especialistas, falhas na verificação de idade e na identificação de conteúdos criminosos aumentam os riscos, principalmente para crianças e adolescentes.
A discussão ocorre enquanto órgãos brasileiros analisam as medidas que podem ser aplicadas contra a empresa. A Agência Nacional de Proteção de Dados (ANPD) abriu uma investigação para verificar se o Discord cumpre as exigências do ECA Digital, incluindo mecanismos de proteção de menores, verificação de idade e retirada de conteúdos ilegais.
A empresa terá de apresentar medidas para aumentar a segurança dos usuários e demonstrar como pretende impedir que menores sejam expostos a conteúdos que incentivem automutilação e suicídio. Caso sejam encontradas irregularidades, a plataforma poderá sofrer sanções previstas na legislação brasileira, incluindo multas.
Embora o bloqueio seja tecnicamente possível, especialistas lembram que nenhuma suspensão é totalmente eficaz. O acesso pode continuar por meio de VPNs e de provedores que eventualmente não consigam implementar o bloqueio. Além disso, a medida afetaria também usuários que utilizam o Discord para atividades legítimas, como comunicação, trabalho, estudos, entretenimento e comunidades de interesse.
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Judiciário ordena o bloqueio de redes sociais à Anatel, que
repassa a ordem às operadoras de internet.
(Fotos: Reprodução/BBC Brasil)
O Discord afirmou que não tolera grupos ou pessoas que promovam violência e disse colaborar com as autoridades brasileiras nas investigações. A empresa também declarou manter diálogo com órgãos do governo e atuar no encaminhamento de casos graves às forças de segurança.
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Diante do cenário, o governo terá de avaliar se o bloqueio é a medida mais adequada ou se outras sanções e exigências podem pressionar a plataforma a reforçar seus mecanismos de proteção. Para especialistas, responsabilizar a empresa, melhorar a moderação em português e ampliar a proteção de crianças e adolescentes podem ser caminhos para enfrentar o problema sem simplesmente transferi-lo para outros ambientes digitais.