Ex-presidente aconselhou o filho a contar toda a verdade de uma vez só e sugeriu apresentação de prestação de contas de filme biográfico
Pessoas próximas ao ex-presidente Jair Bolsonaro afirmam que ele ficou irritado com a forma como vieram à tona as informações sobre a relação do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) com o ex-banqueiro Daniel Vorcaro. Segundo interlocutores da família ouvidos pelo GLOBO, Bolsonaro teria passado a atuar pessoalmente para tentar conter o desgaste na pré-campanha presidencial do filho. Flávio não se manifestou.
De acordo com aliados, Bolsonaro avaliou que a demora em admitir a dimensão da relação política e financeira com o banqueiro acabou ampliando o desgaste do senador e criando a percepção de que a campanha estaria escondendo informações e reagindo de forma tardia aos acontecimentos.
O senador teria relatado que, em conversa com o pai, recebeu o conselho de “contar toda a verdade” sobre a relação com Vorcaro. Interlocutores do ex-presidente também afirmam que ele defendeu a apresentação de uma “prestação de contas definitiva” envolvendo o filme “Dark Horse”, biografia de Bolsonaro.
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Seguindo a orientação, Flávio anunciou na terça-feira que solicitou uma prestação de contas do longa.
— Pedi à produtora que se organize para fazer uma prestação de contas do filme, de forma transparente. Nossa ideia é divulgar isso em até 30 dias — disse.
A avaliação de Bolsonaro sobre a condução da crise teria sido compartilhada dentro da própria coordenação da pré-campanha. Na quinta-feira, o senador Rogério Marinho (PL-RN), coordenador político da campanha de Flávio, admitiu falhas na gestão da narrativa.
— Passou a ser criminalizado porque se perdeu o controle da narrativa, se colocou como se fosse ruim. Deveria ter se antecipado uma situação, mas não se falou em tempo hábil que aquela relação existia — afirmou.
ENTRAVE NO CLÃ
O desconforto de Bolsonaro teria aumentado à medida que a crise deixou de afetar apenas a imagem de Flávio e passou a alimentar discussões internas na direita sobre possíveis alternativas presidenciais e o futuro do bolsonarismo. Interlocutores afirmam que o ex-presidente passou a enxergar risco de fragmentação no PL e antecipação da disputa pelo espólio político do movimento.
Nos bastidores, o nome de Michelle Bolsonaro voltou a circular entre lideranças evangélicas e dirigentes do partido. Segundo aliados, Bolsonaro foi informado sobre as articulações e reagiu reafirmando que pretende manter a candidatura de Flávio “até o final”. Michelle não se manifestou.
Ainda segundo interlocutores, Bolsonaro também teria descartado neste momento qualquer possibilidade de lançar a ex-primeira-dama ao Palácio do Planalto, afirmando que ela “ainda não tem experiência política” e que seu projeto político segue sendo uma candidatura ao Senado pelo Distrito Federal.
A tensão familiar também teria sido alvo de tentativa de contenção por parte do ex-presidente. Na terça-feira, durante evento do PL Mulher em Brasília, Michelle foi questionada sobre a crise e evitou defender diretamente o enteado.
— Flávio, você tem que perguntar para ele — respondeu.
A fala gerou desconforto entre aliados de Carlos e Eduardo Bolsonaro, que teriam interpretado o silêncio como distanciamento político. Pessoas próximas à família afirmam que os dois esperavam uma defesa mais explícita da madrasta.
Aliados de Michelle, por outro lado, afirmam que ela estaria focada nos cuidados com Bolsonaro e que a relação com os enteados já enfrentou desgastes anteriores.
O desconforto teria aumentado ainda mais após Michelle comentar sobre o ministro Alexandre de Moraes, do STF, durante o mesmo evento:
— Vou profetizar aqui, porque Deus transformou Saulo em Paulo. Nosso irmão em Cristo, Alexandre de Moraes, liberou o cabeleireiro — afirmou.
A declaração ocorreu após autorização para a entrada de um cabeleireiro na residência onde Bolsonaro cumpre prisão domiciliar.
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Segundo aliados, Bolsonaro passou a atuar diretamente para evitar que a crise interna evolua para um confronto público entre familiares, avaliando que esse cenário poderia acelerar o enfraquecimento político da candidatura de Flávio e antecipar disputas pela sucessão do capital político do grupo.