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Brasil fictício: Fazenda registrada no meio do rio obtém R$ 4,6 milhões em crédito rural; CPF falso é usado para cadastrar mais de cem imóveis
Foto: Reprodução

A mesma sequência, atribuída a um suposto técnico agrícola, foi utilizada em outros 112 propriedades na região

Registrada com uma área equivalente a 126 campos de futebol, a fazenda BV, no interior do Pará, recebeu R$ 4,6 milhões em crédito rural para investir na criação de gado. Para obter o empréstimo bancário, com juros subsidiados pelo governo, utilizou dados do Cadastro Ambiental Rural (CAR) que atestavam a regularidade do imóvel.

 

As coordenadas no sistema, contudo, mostram uma localização impossível para se criar bois e vacas: no meio do Rio Araguaia, na altura da cidade de Palestina do Pará, a cerca de 670 quilômetros de Belém. Além disso, o CPF cadastrado não consta na base da Receita Federal. A mesma sequência, atribuída a um suposto técnico agrícola, foi utilizada em outros 112 propriedades na região.

 

Como revelou O GLOBO, a manipulação do CAR, com a inserção de dados falsos ou inconsistentes, é uma das estratégias adotadas por proprietários de terras na Amazônia para burlar a fiscalização e tentar regularizar em áreas de desmatamento. O uso de CPFs falsos e até a mudança do registro para dentro de rios, a quilômetros de onde o terreno está verdadeiramente localizado, está entre as modalidades utilizadas pelos fraudadores.

 

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Implementado em 2014 para verificar se os donos de imóveis estão cumprindo as regras do Código Florestal, que barra o desmatamento ilegal e exige a preservação de vegetação nativa, o CAR possui atualmente 7,8 milhões de propriedades inscritas. O cadastro é obrigatório e autodeclaratório, ou seja, é o próprio dono do imóvel que informa os limites da sua fazenda, se ela tem nascentes, mata nativa e áreas a serem protegidas, por exemplo.Esse registro serve como uma espécie de RG da terra, necessário para ter acesso a crédito em bancos, licenças ambientais e, em casos de produtores rurais, uma exigência para vender seus produtos agrícolas.

 

O problema é que a maior parte das autodeclarações não são checadas pelas autoridades no mesmo ritmo com que entram no sistema, o que abre brechas para eventuais fraudes. Responsável por fiscalizar os registros inseridos no CAR, o governo do Pará informou ter cancelado a inscrição da fazenda BV e dos outros 100 imóveis atrelados ao CPF, após ser informada dos dados inconsistentes pelo GLOBO. Uma norma do Ministério do Meio Ambiente prevê a invalidação do cadastro quando são constatadas informações "total ou parcialmente falsas, enganosas ou omissas".

 

"Um novo sistema, a ser lançado no segundo semestre, fará cruzamento automático de dados, o que impedirá este tipo de fraude antes mesmo da inscrição", informou a Secretaria estadual de Meio Ambiente do Pará. Já o Banco da Amazônia, que concedeu o crédito rural de R$ 4,6 milhões, afirmou que a inscrição da fazenda BV no CAR estava regular quando o empréstimo foi autorizado, em 2021. "Os cancelamentos (da inscrição no CAR) são posteriores e não afetam a regularidade da contratação das operações, que observaram rigorosamente o que determina o Manual do Crédito Rural", disse o banco, em nota ao GLOBO. O manual citado pelo banco veda a concessão de empréstimos para cadastros "cancelados ou suspensos".

 

Vista da Apa Triunfo do Xingu, que fica entre Altamira e São Félix do Xingu (PA) — Foto: Bruno Cecim/ Agência Pará

 

“A concessão da operação foi realizada com base em análise georreferenciada, assegurando que as áreas financiadas estavam contidas no perímetro cadastrado, conforme determina o MCR”, destacou o banco. A mudança no cadastro do imóvel posterior ao empréstimo é possível porque, além de autodeclaratório, o CAR pode ser editado pelo proprietário. Assim, o sistema permite, por exemplo, que o imóvel seja deslocado para áreas onde nunca sofrerá embargos por desmatamento, como em cima de rios e lagos, além da troca de dados cadastrais.

 

A fiscalização para saber se os registros feitos pelos proprietários no CAR estão corretos cabe aos governos estaduais. Entretanto, essa validação caminha a passos lentos e até hoje só foi concluída em uma quantidade ínfima de propriedades, correspondente a 3% dos imóveis cadastrados. Na prática, vale a palavra do fazendeiro.

 

No caso da fazenda BV, a propriedade não foi a única registrada com um CPF considerado inválido pela Receita. Levantamento do GLOBO identificou 112 imóveis rurais com a mesma sequência numérica atribuída a um técnico agrícola. A análise foi feita pela reportagem em parceria com os cientistas Yan Werneck e Antônio Barroso (Universidade Federal de Juiz de Fora), Iago Simões (Universidade Federal de Minas Gerais) e Pedro Lopes (Universidade do Rio Grande do Norte), que integram o programa de formação em ecologia quantitativa do Instituto Serrapilheira.

 

O CPF cadastrado nos registros do CAR é atribuído a um mesmo técnico agrícola, que também apresenta um número de registro profissional falso. A reportagem tentou contato com ele, mas não obteve resposta. Além da fazenda BV, outros nove imóveis tiveram acesso a financiamentos de crédito rural que somam R$ 3,5 milhões — sete deles também estão demarcados em cima de rios do Pará.

 

Localização da Fazenda BV em cima do rio no sistema do CAR do Pará — Foto: Reprodução

Fotos: Reprodução

 

O Ministério Público Federal investiga a manipulação de informações do CAR para conseguir acesso a financiamentos bancados com dinheiro público. — Estamos investigando denúncias do uso do CAR para esconder áreas com desmatamento e conseguir financiamentos em condições super favoráveis. Isso preocupa muito, porque é como se fosse o poder público atuando contra ele mesmo — afirmou o procurador do Pará Gilberto Naves Filho, que apura denúncias feitas pelo Greenpeace de que o crédito rural teria bancado empreendimentos onde ocorreram desmatamentos e queimadas.

 

O levantamento sobre os imóveis com o mesmo CPF identificou duas fazendas demarcadas dentro da área de proteção ambiental Triunfo do Xingu, cuja ocupação só pode ocorrer em situações excepcionais voltadas ao uso sustentável dos recursos naturais. A unidade de conservação foi a mais desmatada no Brasil no ano passado, com 6413 hectares de perda de vegetação (três vezes o tamanho da ilha de Fernando de Noronha), segundo relatório do Mapbiomas.Criado no Código Florestal em 2012, o CAR é visto por especialistas como uma política inovadora na tentativa de fazer um raio-X das propriedades rurais no Brasil, sobretudo na Amazônia, onde há um vazio de informações. Segundo Paulo Moutinho, cofundador do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (IPAM), porém, a falta de fiscalização "abriu um flanco" para uso fraudulento do cadastro.

 

— Quando o cadastro foi implementado, fazia sentido ser autodeclaratório para agilizar a entrada de dados nas bases dos governos, o que de fato aconteceu. Agora, o segundo momento, de validação e georreferenciamento, não andou a contento — avalia o Moutinho. O Ministério da Gestão e Inovação (MGI), que gerencia o CAR, afirmou que está "em processo de identificação de CPFs inválidos” e, "em conjunto com os estados, estuda medidas normativas para saneamento da base de dados legada".

 

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(Esta reportagem é resultado de uma chamada pública para reportagens de periódicos sobre biodiversidade e serviços ambientais na Amazônia, em colaboração entre jornalistas e cientistas, organizada pelo Instituto Serrapilheira e pelo Centro Latino-Americano de Jornalismo Investigativo - CLIP) 

 

Fonte: O Globo

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