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Por Diágoras Spinoza - Não se pode negar que o Brasil entrou naquela fase da política em que o elevador está quebrado, a escada rolante desce e o povo insiste em subir carregando geladeira.
O presidente Lula distribui bondade em prestações, inaugura casa, promete ponte, asfalto na BR319, navio, picanha, crédito parcelado em 72 vezes e até esperança subsidiada pelo BNDES, e mesmo assim não sobe nas pesquisas. O homem despeja bilhões no país como quem joga milho para pombo em praça pública, mas o eleitor olha, mastiga o benefício e responde com a mesma paixão de quem recebe panfleto de ótica no sinal. Lula não sobe. Apenas se mantém na frente porque seus oponentes são muito ruins, com marqueteiros jurássicos.
Vejam só o caso de Flávio Bolsonaro. Ele aparece enrolado em histórias mais confusas que recibo de oficina mecânica e também não cai de vez. Leva pancada, explicação torta, suspeita atravessada, meme nacional, ironia internacional e continua na corrida eleitoral, sustentado por uma legião que trata investigação como perseguição religiosa e CPI como sacramento comunista.
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Quero dizer, em alto e bom som, que o Brasil não é mais governado pela lógica. É administrado pela birra.
Antigamente escândalo derrubava candidato. Hoje escândalo fideliza torcida. O sujeito é pego numa contradição cabeluda e imediatamente ganha mais defensores no WhatsApp. Surge um áudio estranho? Viram dez vídeos dizendo que a CIA, o Foro de São Paulo, George Soros, Alexandre de Moraes, os Illuminati e um estagiário da ONU estão tentando destruir a família tradicional brasileira.
Enquanto isso, o lulismo transformou qualquer crítica ao governo numa espécie de agressão pessoal à pobreza mundial. Se faltar café no supermercado, a culpa é do fascismo. Se o ônibus atrasar, sabotagem neoliberal. Se chover muito no sertão cearense, claramente é uma tentativa golpista do agronegócio.
O país virou um Fla-Flu de hospício. Lulistas e bolsonaristas já não discutem política. Disputam um estado civil de nervos à flor da pele. Um lado acha que Lula ainda é o retirante messiânico que desceu do pau de arara direto para a eternidade histórica.
O outro lado acredita que Bolsonaro continua montado num cavalo branco invisível combatendo o comunismo internacional armado apenas com um grupo de Telegram e um kit de cloroquina vencido.
No meio dessa guerra santa, o Brasil vai andando para trás igual caranguejo bêbado. A economia patina, o debate público derrete, a educação desaprende, o Congresso negocia em atacado e o eleitor vive num eterno ciclo psicológico vicioso entre ódio, saudade e algoritmo. E o mais extraordinário é que ninguém muda de opinião. Nada abala ninguém.
Lula pode anunciar um PAC intergaláctico com ponte ligando Manaus a Lisboa por cima do Atlântico que seus índices não respiram adequadamente. Não dispara. Flávio pode aparecer abraçado com um agiota interplanetário em Dubai que a base bolsonarista dirá tratar-se apenas de “narrativa da mídia”. O brasileiro já não vota em candidato. Vota em ressentimento personalizado.
A excelente articulista e comentarista Dora Kramer tem razão quando diz que a política virou refém das emoções. Mas talvez o quadro já tenha avançado para algo clinicamente mais complexo. O país parece viver uma espécie de surto afetivo institucionalizado, onde fatos perderam valor de mercado e a coerência foi aposentada sem direito a aviso prévio.
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O moral da história é que Lula não sobe, Flávio despenca sem parar e o Brasil inteiro fica parado no acostamento, vendo a carreta da realidade perder o freio ladeira abaixo. E o povo ainda discute sobre quem está vencendo a pré-campanha de votos. Que lixo!