*Por Antônio Zacarias - Em cidades pequenas, onde o poder público está a poucos passos da vida cotidiana, a linha entre o que é privado e o que exige explicação pública costuma ser mais sensível — e mais vigiada. É nesse contexto que os vídeos publicados por Tuliana Xavier Braz, irmã do prefeito de Caapiranga, Matulinho Braz, deixaram de ser mera exposição pessoal para se transformar em um problema político e administrativo.
As gravações, nas quais Tuliana exibe viagens internacionais e detalhes de uma cirurgia estética, despertaram indignação não pelo procedimento em si, mas pelo que ele simboliza diante da realidade local: desigualdade social, precariedade de serviços públicos e, sobretudo, a ausência de informações claras. A pergunta que ecoa nas ruas e nas redes é simples e legítima: de onde vêm os recursos?
Não se trata de criminalizar a vida privada de quem quer que seja. Trata-se, sim, de reconhecer que, quando há vínculo direto com o chefe do Executivo municipal, a ostentação sem explicação se converte em dúvida pública. Onde Tuliana trabalha? Exerce alguma função pública? Possui renda compatível com os gastos exibidos? Houve, direta ou indiretamente, uso de recursos públicos? Até agora, nenhuma dessas questões recebeu resposta oficial.
Veja também

O silêncio da gestão municipal não ajuda. Pelo contrário: amplia as suspeitas e alimenta a desconfiança. Em administração pública, a ausência de explicações costuma ser tão danosa quanto a existência de irregularidades comprovadas. Transparência não é favor; é obrigação constitucional.
O episódio se agrava diante de outro fato igualmente controverso: a viagem do prefeito Matulinho Braz à Colômbia, supostamente realizada sem autorização prévia da Câmara Municipal. Se confirmada, a irregularidade não é meramente formal — trata-se de possível descumprimento de dever funcional, algo que exige apuração rigorosa.
O que se vê em Caapiranga é uma sucessão de episódios que, somados, criam um ambiente de instabilidade política e descrédito institucional. Quando a população precisa recorrer às redes sociais para obter respostas que deveriam vir do poder público, algo está profundamente errado.
Não é papel do cidadão provar irregularidades. Esse dever cabe aos órgãos de controle. Por isso, os pedidos para que o Ministério Público e demais instâncias de fiscalização apurem os fatos não representam perseguição política, mas exercício legítimo da cidadania.
Governar é, acima de tudo, prestar contas. E quando os governantes — ou seus círculos mais próximos — optam pelo silêncio diante de questionamentos razoáveis, deixam de governar para administrar crises que eles mesmos ajudaram a criar.
Em Caapiranga, mais do que explicações pontuais, a população cobra respeito. E respeito, na vida pública, começa pela transparência.
Curtiu? Siga o PORTAL DO ZACARIAS no Facebook, Twitter e no Instagram.
Entre no nosso Grupo de WhatApp, Canal e Telegram
*Antônio Zacarias é fundador e proprietário do PORTAL DO ZACARIAS, atualmente no top 10 dos portais de notícias mais acessados do Brasil. Jornalista experiente, foi editor-geral de diversos jornais da Região Norte, com atuação destacada no Amazonas, onde dirigiu os jornais Diário do Amazonas e O Povo do Amazonas, cujos proprietários eram Dissica Thomaz e o hoje senador Plínio Valério. Durante dois anos, atuou como correspondente do jornal O Globo na Região Norte, a convite de Ascânio Seleme, então coordenador dos correspondentes no Brasil e atual editor-geral de O Globo. Antônio Zacarias é também autor do livro “100 erros de português que todo mundo comete, inclusive você!”, obra voltada à valorização do bom uso da língua portuguesa.