Senador cita luto pela morte do irmão; decisão ocorre após uma semana de idas e vindas com Republicanos sobre candidatura
O senador Cleitinho Azevedo (Republicanos-MG) anunciou nesta segunda-feira que desistiu de disputar o governo de Minas Gerais e permanecerá no Senado. A decisão foi comunicada após uma nova reunião com a cúpula do Republicanos, em Brasília, e amplia o impasse para a montagem do palanque de Flávio Bolsonaro (PL) no segundo maior colégio eleitoral do país.
Cleitinho atribuiu o recuo ao momento pessoal que atravessa desde a morte do irmão mais novo, Matheus Azevedo, vítima de leucemia no mês passado. Em um vídeo divulgado ao lado do presidente nacional do Republicanos, Marcos Pereira, o senador afirmou que não se considera em condições de enfrentar uma campanha neste momento.
— Quero pedir perdão porque meu momento não está fácil para mim e para minha família. Não adianta eu entrar numa campanha agora do jeito que eu estou. Eu tenho que ser honesto com vocês, tenho que falar a verdade — afirmou o senador, chorando.
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A decisão foi tomada depois de uma nova rodada de negociações nesta segunda-feira. Cleitinho se reuniu em Brasília com Marcos Pereira, o presidente estadual do Republicanos, Euclydes Pettersen, o ex-prefeito de Patos de Minas Luís Eduardo Falcão e parlamentares da legenda. Durante o encontro, o comando partidário também fez contatos com PL, União Brasil e PP para discutir os caminhos para a chapa mineira.
Ao anunciar o desfecho, Pereira afirmou que, apesar de ter barrado a candidatura na semana passada, o Republicanos voltou a oferecer a Cleitinho condições para disputar o governo. Segundo o dirigente, desta vez a decisão de não concorrer partiu do próprio senador.
— Demos toda a oportunidade para que ele pudesse ser candidato. Mas ele tem uma decisão pessoal por causa desse momento que está passando — afirmou Pereira.
Cleitinho confirmou a versão e disse que não teria condições de iniciar uma campanha antes de se recuperar e cuidar da família.
— Vim com o coração aberto para falar que, neste momento, pelas circunstâncias da minha vida, não tem como entrar numa campanha agora sem cuidar de mim primeiro e cuidar da minha família — afirmou.
IDAS E VINDAS
O anúncio encerra uma sequência de idas e vindas que se arrastou por meses e se intensificou na última semana. Cleitinho liderava pesquisas de intenção de voto para o governo, mas evitava confirmar publicamente que concorreria e condicionava sua decisão ao cenário eleitoral. Nos bastidores, a indefinição passou a incomodar dirigentes do Republicanos e partidos que tentavam organizar uma chapa única da direita em Minas.
A direção nacional da legenda afirma que aguardou uma manifestação definitiva até a convenção estadual, realizada no último dia 25. Cleitinho não compareceu ao evento e tampouco aceitou, naquele momento, uma proposta de Marcos Pereira para ir a São Paulo gravar ao lado dele um vídeo no qual confirmaria publicamente a candidatura.
O senador, no entanto, chegou a sustentar uma versão diferente. Segundo ele, havia um entendimento prévio com a direção partidária para que o lançamento oficial de sua candidatura ocorresse apenas em 5 de agosto. Cleitinho também atribuiu parte do silêncio das últimas semanas ao tratamento e, posteriormente, à morte do irmão, e reclamou que esse contexto não havia sido considerado nas cobranças por uma definição.
O impasse chegou ao limite na terça-feira passada. Enquanto Cleitinho divulgava um vídeo afirmando que aceitava a missão de disputar o governo, dirigentes do Republicanos e do PL avançavam em uma articulação para lançar o ex-secretário da Casa Civil Marcelo Aro (PP) ao Palácio Tiradentes. Participaram das conversas Flávio Bolsonaro, o senador Rogério Marinho (PL-RN), o presidente do PL em Minas, Zé Vitor, além de integrantes das demais legendas envolvidas na construção.
No dia seguinte, o Republicanos anunciou que não daria legenda a Cleitinho para concorrer. A direção partidária argumentou que a demora em assumir a candidatura havia gerado insegurança entre os aliados e comprometido o prazo para a montagem das chapas majoritária e proporcional.
Cleitinho reagiu publicamente. Em entrevista coletiva em Divinópolis, anunciou que manteria a candidatura, apresentou Falcão como seu candidato a vice e contestou a justificativa apresentada pelo partido.
— Sou candidato a governador junto com o Falcão como vice. Tem quase 50% da população mineira que quer que eu venha candidato a governador — afirmou na ocasião.
O senador também elevou o tom contra aqueles que atribuíam a indefinição a uma suposta falta de disposição para enfrentar a eleição. Disse ter sido surpreendido pela decisão da legenda e afirmou que tentaria “tocar o coração” de Marcos Pereira para reverter o veto.
A reação aumentou o desgaste com a direção nacional. Na quinta-feira, Cleitinho foi a São Paulo para uma reunião de cerca de cinco horas com Pereira e dirigentes do Republicanos e ouviu cobranças sobre a condução de sua pré-candidatura. Um dos principais incômodos foi justamente a decisão de anunciar publicamente que concorreria depois de o próprio partido já ter comunicado que não lhe daria legenda para a disputa.
Apesar da lavagem de roupa suja, Pereira aceitou manter uma nova rodada de conversas. O encontro ocorreu nesta segunda-feira e produziu uma nova reviravolta: desta vez, segundo o presidente do Republicanos, o partido colocou novamente a candidatura à disposição, mas Cleitinho concluiu que não tinha condições pessoais de enfrentar a campanha.
No vídeo divulgado após a reunião, Pereira fez questão de reconstruir essa cronologia e afastar a leitura de que Cleitinho estivesse deixando a disputa por imposição partidária. O presidente do Republicanos citou o luto vivido pelo senador e afirmou que a legenda respeitaria sua decisão.
— Para você cuidar do povo, você tem que cuidar primeiro da sua casa — disse Pereira.
PALANQUE DE FLÁVIO
A desistência reabre a discussão sobre a montagem da chapa da direita em Minas e aumenta a pressão sobre o PL para consolidar um palanque para Flávio. O estado, segundo maior colégio eleitoral do país, é considerado estratégico pela campanha presidencial e vinha sendo um dos principais pontos de indefinição na costura dos acordos regionais.
Depois de decidir retirar o apoio a Cleitinho na semana passada, Republicanos, PL e integrantes da federação União Progressista passaram a negociar uma composição em torno de Marcelo Aro. Ex-secretário da Casa Civil, ele vinha sendo preparado para disputar uma vaga ao Senado, mas passou ao centro das negociações para o governo diante da crise envolvendo Cleitinho.
Aro já sinalizou que não criaria obstáculos para que Flávio fizesse campanha em seu palanque, eliminando uma das principais preocupações do PL na negociação. A construção, porém, ainda depende de um acordo entre as legendas e da acomodação dos demais candidatos à chapa majoritária.
A movimentação em torno de Aro também alterou planos que vinham sendo construídos havia meses. Ele era tratado inicialmente como candidato ao Senado na chapa do governador Mateus Simões (PSD), mas perdeu espaço para a vaga depois da entrada do senador Carlos Viana na composição. A partir daí, dirigentes de PP, Republicanos e PL passaram a defender seu nome para o governo como uma alternativa capaz de reunir parte da direita.
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Cleitinho, por outro lado, continuava tendo defensores dentro do próprio PL. Parte da legenda em Minas considerava o senador o nome mais competitivo para enfrentar o grupo governista justamente por seu desempenho nas pesquisas.