Adaptações no corpo e nas células permitem que espécies marinhas resistam a pressões superiores a mil vezes a pressão atmosférica ao nível do mar, mas tornam esses organismos vulneráveis à retirada de seu habitat.
Nas regiões mais profundas dos oceanos, onde a luz solar não chega e as temperaturas se aproximam do congelamento, animais marinhos sobrevivem a condições extremas. A cada dez metros de profundidade, a pressão aumenta aproximadamente uma atmosfera. Em fossas oceânicas, situadas a milhares de metros abaixo da superfície, essa força pode ultrapassar mil atmosferas.
“Em áreas de fossas oceânicas, nos pontos mais profundos do planeta, a pressão pode chegar a mais de mil atm”, explica Raquel Avelina, pesquisadora da Universidade Federal Fluminense (UFF), com apoio do Instituto Serrapilheira.
A sobrevivência nesses ambientes depende de adaptações anatômicas, celulares e moleculares que permitem aos organismos suportar a pressão e manter suas funções vitais.
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Uma das principais estratégias dos animais que vivem em grandes profundidades é a ausência ou a redução de cavidades preenchidas por gases, como as encontradas em órgãos de espécies que habitam regiões mais rasas. Isso ocorre porque os gases são muito mais compressíveis do que os líquidos e sofrem alterações significativas sob pressão elevada.
“Dentre as adaptações, uma das principais é a ausência ou redução de cavidades dentro das quais existe um tipo de gás. O gás é muito compressível pela pressão, enquanto os líquidos não são”, explica Alexander Turra, professordo Instituto Oceanográfico da Universidade de São Paulo (IO-USP) e coordenador da Cátedra Unesco para a Sustentabilidade do Oceano.
Além de apresentarem menos espaços internos preenchidos por gás, muitos desses animais possuem corpos flexíveis e tecidos com elevada proporção de água. Essas características ajudam a reduzir os efeitos mecânicos da pressão sobre o organismo.
CÉLULAS E PROTEÍNAS PROTEGIDAS
A pressão extrema também representa um desafio microscópico. Ela pode alterar as membranas celulares e comprometer o funcionamento de proteínas e enzimas responsáveis por processos essenciais à vida.
Para lidar com essas condições, os organismos das profundezas apresentam adaptações na composição das membranas, incluindo proporções específicas de ácidos graxos, que ajudam a manter sua fluidez e o transporte de substâncias.
Outra proteção importante envolve compostos químicos capazes de preservar a estrutura das proteínas. Um exemplo é o óxido de trimetilamina (TMAO), molécula que contribui para estabilizar proteínas e enzimas sob pressão elevada.
Segundo Turra, essa substância ajuda a manter o funcionamento das estruturas celulares, permitindo que as reações bioquímicas continuem acontecendo mesmo em ambientes submetidos a forças extremas.
POR QUE A SUBIDA À SUPERFÍCIE PODE SER FATAL?
A retirada desses animais de seu habitat representa um risco significativo. Quando organismos adaptados às grandes profundidades são levados rapidamente à superfície, a mudança brusca de pressão pode provocar danos graves.
A expansão dos gases residuais no corpo pode causar barotrauma, hemorragias, embolias e lesões em órgãos. Ao mesmo tempo, as membranas celulares e as proteínas, adaptadas às condições do fundo do mar, podem perder estabilidade e funcionalidade.
Por isso, a captura por redes de pesca ou durante expedições científicas pode comprometer a sobrevivência de determinadas espécies, especialmente quando a subida ocorre sem procedimentos que considerem suas necessidades fisiológicas.
POUCO ALIMENTO E CRESCIMENTO LENTO
Além da pressão, a escassez de alimento é outro desafio para a vida nas profundezas. A maior parte dos organismos que vivem nessas regiões depende de matéria orgânica que afunda das camadas superficiais do oceano. Esse material, formado por restos de organismos e partículas orgânicas, é conhecido como neve marinha.
Há, porém, exceções importantes. Em áreas com fontes hidrotermais, microrganismos utilizam energia proveniente de compostos químicos para produzir matéria orgânica por meio da quimiossíntese. Esses microrganismos sustentam cadeias alimentares que independem diretamente da luz solar.
Raquel Avelina descreve essas fontes como “oásis em ambientes extremos”, por oferecerem condições para a manutenção de comunidades de organismos em locais onde a energia disponível é limitada.
A escassez de recursos também influencia o ritmo de vida de muitas espécies. Crescimento lento, maturidade sexual tardia e produção reduzida de descendentes podem dificultar a recuperação de populações após perturbações ambientais.
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Esse cenário aumenta a preocupação com atividades humanas, como a mineração de nódulos polimetálicos no fundo do mar. Como muitas espécies profundas se recuperam lentamente, alterações em seus habitats podem produzir impactos duradouros nos ecossistemas oceânicos.