Tecnologia ameaça modelos tradicionais, mas performers apostam em presença física, controle de imagem e novas ferramentas para seguir relevantes
À primeira vista, a Expo AVN, maior encontro anual da indústria de entretenimento adulto, lembra qualquer grande conferência profissional: credenciais penduradas no pescoço, corredores lotados de participantes e filas disputadas por café morno. Mas basta olhar com mais atenção para perceber as diferenças. O código de vestimenta não fala em ternos ou vestidos sociais, e sim em quanto do corpo pode ou deve ficar à mostra. Nos palcos, termos como inteligência artificial (IA) dividem espaço com siglas ligadas a práticas sexuais, revelando o contraste entre tecnologia de ponta e um mercado historicamente baseado na fantasia humana.
Realizada em Las Vegas desde 1984, a Expo AVN acompanha a trajetória de um setor avaliado em cerca de US$ 100 bilhões, que já passou por sucessivas transformações tecnológicas. Primeiro, a internet substituiu o consumo físico; depois, plataformas inspiradas no YouTube, como o Pornhub, mudaram a distribuição de conteúdo; mais recentemente, serviços de assinatura como o OnlyFans permitiram que performers falassem diretamente com seus fãs. Esse movimento enfraqueceu os grandes estúdios e reduziu o tamanho e o brilho da convenção. “É a convenção do incrível encolhimento”, resume Tommy Gunn, veterano da indústria, ao notar menos estandes, menos estrelas e um público menor do que no passado.
Agora, a inteligência artificial surge como a disrupção mais profunda até hoje. Casos recentes de uso de IA para criar imagens íntimas sem consentimento como a polêmica envolvendo o chatbot Grok, da empresa xAI acenderam um alerta vermelho no setor. Na edição mais recente da Expo AVN, realizada entre 21 e 24 de janeiro no Virgin Hotels, o clima foi menos de festa e mais de feira tecnológica. Ao lado de estandes tradicionais, startups exibiam bonecas robóticas com pele de silicone de grau médico, olhos móveis e capacidade limitada de diálogo, além de softwares capazes de criar réplicas digitais de performers para produzir conteúdo explícito de forma automatizada.
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O avanço dessas ferramentas gerou debates intensos sobre emprego, direitos de imagem e sobrevivência profissional. Alguns atores estão registrando nomes artísticos e renegociando contratos para impedir que seus vídeos sejam usados no treinamento de modelos de IA sem autorização. Outros, porém, preferem se adaptar. Ferramentas de IA já são usadas para edição de vídeos, automação de respostas a fãs e gestão de redes sociais. Cherie DeVille, uma das estrelas mais conhecidas do setor, afirma estar disposta a criar um clone digital, desde que tenha controle sobre o uso de sua imagem. “Acredito que isso é o futuro”, diz.
Nem todos compartilham do mesmo otimismo. Casey Calvert, outra performer, teme não conseguir competir com personagens virtuais. “A garota de IA está sempre disponível, sempre no clima certo”, observa. A pressão sobre quem produz conteúdo humano também aumentou: fãs esperam respostas imediatas, personalização extrema e disponibilidade constante, como se estivessem interagindo com um chatbot. Roxy Renee conta que já precisou provar que não era uma inteligência artificial ao receber pedidos inusitados, como segurar objetos específicos em fotos para confirmar sua humanidade.
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Diante desse cenário, muitos performers enxergam na presença física um diferencial insubstituível. Encontros ao vivo, eventos e interações cara a cara ganham valor em um mundo cada vez mais digital. Jennifer White, eleita Performer Feminina do Ano, passou boa parte da Expo AVN tirando selfies com fãs e, fora do evento, foi ovacionada em um famoso clube de striptease de Las Vegas. Na era da inteligência artificial, a aposta é clara: quanto mais real o contato, maior a chance de sobrevivência em um mercado que nunca esteve tão próximo de ser dominado por máquinas.