*Por Antônio Zacarias — O David Almeida chorou. Durante uma entrevista, ao falar sobre as dificuldades enfrentadas pela população do interior do Amazonas, sua voz embargou. O candidato tentou se conter e disse: “Eu me revolto, eu vou me segurar, porque o povo está sofrendo”.
Não demorou para que o episódio fosse levado ao tribunal implacável das redes sociais.
Vieram as ironias, os memes e, sobretudo, a acusação de que o choro teria sido ensaiado. Seria teatro. Encenação eleitoral. Lágrimas de candidato em busca de votos.
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Não sei o que se passava no íntimo do David Almeida naquele momento. Ninguém sabe. Mas vi as imagens e não encontrei nelas razões para concluir que estivesse representando.
Minha impressão foi exatamente a contrária. Vi um homem genuinamente emocionado ao falar de uma realidade que conhece e que, convenhamos, deveria mesmo emocionar — e até revoltar — qualquer pessoa que conheça o Amazonas como o David conhece.
Há comunidades onde o acesso à saúde continua sendo uma aventura. Há comunidades submetidas a enormes dificuldades de deslocamento. Há famílias para as quais aquilo que consideramos básico ainda chega tarde, precariamente ou simplesmente não chega.
Diante do que expus, creio ser legítimo perguntar: por que seria tão absurdo alguém se emocionar ao falar disso?
A política brasileira atingiu tamanho grau de desconfiança e insensibilidade que começamos a considerar falsa qualquer demonstração de humanidade vinda de um político.
Se não demonstra emoção, é frio;?se demonstra, é falso; se fala com indignação, está fazendo discurso eleitoral; se chora, está representando.
Criamos uma espécie de armadilha da qual ninguém escapa. Isso não significa, evidentemente, que o choro do David Almeida deva funcionar como salvo-conduto político. Claro que não.
Muito pelo contrário. O David foi prefeito de Manaus e sua administração pode — e deve — ser submetida ao escrutínio mais rigoroso. Os adversários têm todo o direito de confrontá-lo com promessas não cumpridas, obras inacabadas, indicadores administrativos e tudo aquilo que considerem relevante para avaliar sua passagem pela prefeitura.
Esse é o debate que interessa ao eleitor.
Se prometeu fazer e não fez, que explique; se administrou mal determinada área, que responda; se os números apresentados por sua campanha não correspondem à realidade, que sejam confrontados.
Há, porém, uma distância enorme entre questionar a atuação de um homem público e pretender determinar se a emoção desse homem é verdadeira ou falsa.
Uma coisa pertence ao terreno dos fatos; a outra pertence ao íntimo.
Há ainda uma questão mais importante: chorar pelo sofrimento do povo não governa o Amazonas.
Lágrima não constrói hospital, não pavimenta estrada, não coloca médico no interior, não melhora escola e não reduz a pobreza.
Portanto, caso o David Almeida seja eleito governador, aquela emoção terá necessariamente de encontrar correspondência na ação administrativa. Esse será o verdadeiro teste.
O eleitor não precisa perguntar se a lágrima era verdadeira. Poderá perguntar algo muito mais objetivo: a indignação manifestada naquela entrevista transformou-se em política pública?
É assim que políticos devem ser julgados. Pelos atos e resultados. Pela distância entre aquilo que prometem e aquilo que entregam.
Não pela quantidade de lágrimas que derramam, nem pela suspeita automática de que qualquer lágrima seja falsa.
Tenho divergências com políticos e continuarei tendo. Acho saudável que jornalistas, eleitores e adversários desconfiem do poder. Democracia sem cobrança produz governantes acomodados.
Desconfiança, porém, não pode virar cinismo permanente.
É bom que fique bem claro que há uma diferença entre fiscalizar um político e negar-lhe o direito de ser humano, de chorar, como o fez o David Almeida.
O David pode ter errado como prefeito. Pode errar como candidato. Pode ser duramente cobrado por tudo isso.
Mas, naquele momento específico, o que vi não foi um ator procurando uma câmera.
Vi um homem tocado pelo sofrimento de sua gente. E talvez a política esteja precisando justamente reaprender uma coisa muito simples: nem toda lágrima é marketing.
*Antônio Zacarias é jornalista e fundador do PORTAL DO ZACARIAS, um dos portais de notícias mais acessados do Brasil e referência no jornalismo digital da Região Norte.
Com longa trajetória na imprensa da Amazônia, foi editor-geral de diversos jornais na Região Norte. No Amazonas, dirigiu os jornais Diário do Amazonas e O Povo do Amazonas, cujos proprietários eram o empresário Dissica Thomaz e o hoje senador Plínio Valério.
Também atuou como correspondente do jornal O Globo na Região Norte durante dois anos, a convite do jornalista Ascânio Seleme, então coordenador dos correspondentes no Brasil e atual editor-geral do jornal.
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Antônio Zacarias é autor do livro “100 erros de português que todo mundo comete, inclusive você!”, obra dedicada à valorização do bom uso da língua portuguesa.