NOTÍCIAS
Manchete
DAVID ALMEIDA CHOROU PELO AMAZONAS. E SEUS ADVERSÁRIOS TRANSFORMARAM A EMOÇÃO EM PALANQUE. REVOLTANTE ISSO!
Foto: Reprodução

*Por Antônio Zacarias — O David Almeida chorou. Durante uma entrevista, ao falar sobre as dificuldades enfrentadas pela população do interior do Amazonas, sua voz embargou. O candidato tentou se conter e disse: “Eu me revolto, eu vou me segurar, porque o povo está sofrendo”.

 

Não demorou para que o episódio fosse levado ao tribunal implacável das redes sociais.

 

Vieram as ironias, os memes e, sobretudo, a acusação de que o choro teria sido ensaiado. Seria teatro. Encenação eleitoral. Lágrimas de candidato em busca de votos.

 

Veja também

 

A República virou refém de Daniel Vorcaro. E Brasília treme a cada vez que seu celular é aberto

 

“NÃO PRECISA PAGAR A GENTE, NÃO”: quando a compra de votos se torna tão comum que já parece normal

 

Não sei o que se passava no íntimo do David Almeida naquele momento. Ninguém sabe. Mas vi as imagens e não encontrei nelas razões para concluir que estivesse representando.

 

Minha impressão foi exatamente a contrária. Vi um homem genuinamente emocionado ao falar de uma realidade que conhece e que, convenhamos, deveria mesmo emocionar — e até revoltar — qualquer pessoa que conheça o Amazonas como o David conhece.

 

Há comunidades onde o acesso à saúde continua sendo uma aventura. Há comunidades submetidas a enormes dificuldades de deslocamento. Há famílias para as quais aquilo que consideramos básico ainda chega tarde, precariamente ou simplesmente não chega.

 

Diante do que expus, creio ser legítimo perguntar: por que seria tão absurdo alguém se emocionar ao falar disso?

 

A política brasileira atingiu tamanho grau de desconfiança e insensibilidade que começamos a considerar falsa qualquer demonstração de humanidade vinda de um político.

 

Se não demonstra emoção, é frio;?se demonstra, é falso; se fala com indignação, está fazendo discurso eleitoral; se chora, está representando.

 

Criamos uma espécie de armadilha da qual ninguém escapa. Isso não significa, evidentemente, que o choro do David Almeida deva funcionar como salvo-conduto político. Claro que não.

 

Muito pelo contrário. O David foi prefeito de Manaus e sua administração pode — e deve — ser submetida ao escrutínio mais rigoroso. Os adversários têm todo o direito de confrontá-lo com promessas não cumpridas, obras inacabadas, indicadores administrativos e tudo aquilo que considerem relevante para avaliar sua passagem pela prefeitura.

 

Esse é o debate que interessa ao eleitor.

 

Se prometeu fazer e não fez, que explique; se administrou mal determinada área, que responda; se os números apresentados por sua campanha não correspondem à realidade, que sejam confrontados.

 

Há, porém, uma distância enorme entre questionar a atuação de um homem público e pretender determinar se a emoção desse homem é verdadeira ou falsa.

 

Uma coisa pertence ao terreno dos fatos; a outra pertence ao íntimo.

 

Há ainda uma questão mais importante: chorar pelo sofrimento do povo não governa o Amazonas.

 

Lágrima não constrói hospital, não pavimenta estrada, não coloca médico no interior, não melhora escola e não reduz a pobreza.

 

Portanto, caso o David Almeida seja eleito governador, aquela emoção terá necessariamente de encontrar correspondência na ação administrativa. Esse será o verdadeiro teste.

 

O eleitor não precisa perguntar se a lágrima era verdadeira. Poderá perguntar algo muito mais objetivo: a indignação manifestada naquela entrevista transformou-se em política pública?

 

É assim que políticos devem ser julgados. Pelos atos e resultados. Pela distância entre aquilo que prometem e aquilo que entregam.

 

Não pela quantidade de lágrimas que derramam, nem pela suspeita automática de que qualquer lágrima seja falsa.

 

Tenho divergências com políticos e continuarei tendo. Acho saudável que jornalistas, eleitores e adversários desconfiem do poder. Democracia sem cobrança produz governantes acomodados.

 

Desconfiança, porém, não pode virar cinismo permanente.

 

É bom que fique bem claro que há uma diferença entre fiscalizar um político e negar-lhe o direito de ser humano, de chorar, como o fez o David Almeida.

 

O David pode ter errado como prefeito. Pode errar como candidato. Pode ser duramente cobrado por tudo isso.

 

Mas, naquele momento específico, o que vi não foi um ator procurando uma câmera.

 

Vi um homem tocado pelo sofrimento de sua gente. E talvez a política esteja precisando justamente reaprender uma coisa muito simples: nem toda lágrima é marketing.

 

*Antônio Zacarias é jornalista e fundador do PORTAL DO ZACARIAS, um dos portais de notícias mais acessados do Brasil e referência no jornalismo digital da Região Norte.


Com longa trajetória na imprensa da Amazônia, foi editor-geral de diversos jornais na Região Norte. No Amazonas, dirigiu os jornais Diário do Amazonas e O Povo do Amazonas, cujos proprietários eram o empresário Dissica Thomaz e o hoje senador Plínio Valério.


Também atuou como correspondente do jornal O Globo na Região Norte durante dois anos, a convite do jornalista Ascânio Seleme, então coordenador dos correspondentes no Brasil e atual editor-geral do jornal.

 

Curtiu? Siga o PORTAL DO ZACARIAS no Facebook, Twitter e no Instagram.

Entre no nosso Grupo de WhatApp, Canal e Telegram

 

Antônio Zacarias é autor do livro “100 erros de português que todo mundo comete, inclusive você!”, obra dedicada à valorização do bom uso da língua portuguesa.

LEIA MAIS
DEIXE SEU COMENTÁRIO

Nome:

Mensagem:

Copyright © 2013 - 2026. Portal do Zacarias - Todos os direitos reservados.