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De Árida a Hell Clock: por que a Guerra de Canudos virou cenário de videogames brasileiros
Foto: Reprodução

Árida e Hell Clock levam a Guerra de Canudos aos videogames por caminhos diferentes. Conheça os personagens, as mecânicas e a história por trás deles

Uma menina de 13 anos procura os pais no sertão baiano. Em outro jogo, um combatente enfrenta demônios para resgatar Antônio Conselheiro. As duas histórias levam a Canudos, mas oferecem experiências completamente diferentes.

 

Os videogames conseguem transformar quase qualquer cenário em uma experiência interativa. Até Wild Ape demo, da PG Soft, permite experimentar gratuitamente um jogo de cassino sobre um macaco entediado em uma festa, com rodadas especiais e multiplicadores. Em Árida e Hell Clock, porém, o ponto de partida é um acontecimento histórico brasileiro.

 

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A Guerra de Canudos ganhou dois caminhos nos videogames

 

Entre 1896 e 1897, o Exército brasileiro realizou quatro expedições contra o povoado de Canudos, liderado por Antônio Conselheiro no interior da Bahia. A última terminou com a destruição da comunidade e milhares de mortos.

 

A história ganhou dimensão nacional com Os Sertões, publicado por Euclides da Cunha em 1902. Mais de um século depois, também passou a inspirar desenvolvedores de videogames.

 

Em 2019, o estúdio baiano Aoca Game Lab lançou Árida: Backland's Awakening, uma aventura de sobrevivência ambientada antes da guerra. Seis anos depois, Hell Clock apresentou uma versão fantástica do conflito, com combates rápidos, criaturas sobrenaturais e viagens por ambientes sombrios.

 

Os dois projetos não tentam reconstruir cada batalha. Usam o período histórico para contar histórias que os livros didáticos raramente apresentam da mesma maneira.

 

Árida mostra o sertão pelos olhos de uma menina

Cícera vive com o avô em 1895. Seus pais partiram para Canudos em busca de melhores condições de vida, deixando a menina no povoado onde nasceu.

 

Ela não possui armas poderosas nem enfrenta monstros. Seu desafio é conseguir água, comida e ferramentas para sobreviver à seca.

 

O jogador precisa aprender tarefas ligadas ao cotidiano sertanejo:

- Procurar água e controlar os efeitos da sede.

- Usar facão e enxada para abrir caminhos e colher alimentos.

- Preparar receitas com recursos disponíveis na caatinga.

- Conversar com moradores para descobrir histórias e receber orientações.

- Cuidar das ferramentas, utilizando pedras de amolar.

 

A produção começou como um projeto sobre a Batalha de Canudos. Durante a pesquisa, os desenvolvedores perceberam que havia outras histórias para contar sobre a população da região.

 

A equipe visitou o sertão, consultou museus e trabalhou com historiadores da Universidade do Estado da Bahia. O resultado foi um jogo em que a sobrevivência depende mais de conhecimento e cooperação do que de força.

 

Árida estreou para computadores em 15 de agosto de 2019, chegou aos celulares em 2022 e ganhou versões para Xbox e Nintendo Switch em novembro de 2024.

 

Hell Clock transforma Canudos em uma batalha sobrenatural

Hell Clock escolheu outro protagonista. Pajeú, inspirado em um combatente ligado à resistência de Canudos, atravessa um purgatório repleto de inimigos para tentar salvar a alma de Antônio Conselheiro.

 

A Rogue Snail lançou o jogo em 22 de julho de 2025. Em vez de explorar lentamente a caatinga, o jogador enfrenta grupos de criaturas enquanto um relógio limita o tempo disponível.

 

O sistema combina RPG de ação com elementos roguelike. Cada tentativa permite conquistar equipamentos, desenvolver habilidades e montar combinações diferentes para enfrentar desafios maiores.

 

A versão de lançamento trouxe uma campanha dividida em três atos, além de um sistema de progressão com 27 constelações para personalizar as habilidades do personagem.

 

A proposta lembra jogos como Diablo e Path of Exile, mas com partidas mais curtas. O estúdio chegou a trabalhar com a ideia de condensar a progressão de uma temporada inteira de RPG em aproximadamente 20 minutos.

 

O jogo também recebeu dublagem em português brasileiro e inglês, permitindo apresentar sua interpretação de Canudos a públicos que não conhecem o episódio histórico.

 

Dois jogos mostram o mesmo sertão de maneiras opostas

A maior diferença entre Árida e Hell Clock não está apenas nos gráficos. Está nas ações que cada jogo exige.

 

Em Árida, gastar energia sem planejamento pode deixar Cícera sem recursos. Em Hell Clock, permanecer parado permite que o tempo acabe.

 

Um pede paciência. O outro recompensa velocidade e decisões imediatas.

 

As escolhas também mudam a relação do jogador com a história. Cícera encontra pessoas comuns afetadas pela seca e pela migração. Pajeú enfrenta uma versão fantástica da violência associada à destruição de Canudos.

 

Nenhum dos dois substitui o estudo histórico. A importância está em despertar perguntas sobre personagens, lugares e acontecimentos que normalmente ficam fora das narrativas mais populares dos videogames.

 

O que Canudos ainda pode oferecer aos desenvolvedores

Árida nasceu em Salvador, dentro de um estúdio fundado em 2016. O projeto mostrou que uma produção independente podia transformar referências locais em uma aventura distribuída para computadores, celulares e consoles. A continuação, Árida II: Rise of the Brave, amplia a jornada de Cícera em direção a Canudos.

 

Hell Clock seguiu outro caminho comercial e criativo. Apostou em combates rápidos e sistemas de progressão familiares aos fãs de RPG, mas escolheu um conflito brasileiro como fundamento da história. A ambientação funciona mesmo para quem nunca ouviu falar de Antônio Conselheiro.

 

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Os dois jogos demonstram que Canudos não precisa aparecer sempre como uma batalha retratada do mesmo jeito. A seca, a migração, a resistência e a memória dos moradores oferecem diferentes possibilidades narrativas. Em Árida, essa história começa com uma menina procurando água. Em Hell Clock, com um homem lutando contra demônios. Os caminhos são distintos, mas levam o jogador a conhecer um mesmo capítulo da história da Bahia.

 

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