Pesquisadores identificaram o bagrinho-de-kaetés, espécie criticamente ameaçada de extinção, a partir de vestígios genéticos encontrados em riachos da bacia do Rio Itapemirim, no Sul do Espírito Santo
Um peixe de apenas cinco centímetros, ameaçado de extinção e encontrado unicamente no Espírito Santo voltou a ser identificado em riachos da bacia do Rio Itapemirim, no Sul do estado, após mais de dez anos desde a sua descoberta, graças a uma técnica que analisa o DNA deixado pelos animais na água.
O bagrinho-de-kaetés foi encontrado em três dos dez pontos monitorados entre os municípios de Castelo e Vargem Alta sem que fosse necessário capturar nenhum exemplar da espécie.
Um estudo com os resultados da análise foi publicado na revista científica "Neotropical Ichthyology", na última semana. A expectativa é que a descoberta ajude a entender melhor onde o bagrinho ainda vive e oriente ações para proteger a espécie e os riachos da Mata Atlântica.
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Participaram do estudo pesquisadores do Instituto Nacional da Mata Atlântica (INMA), da Universidade Federal do Espír ito Santo (Ufes), da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC Minas) e do Instituto Nossos Riachos.
Além do bagrinho-de-kaetés, com as coletas de água realizadas os cientistas identificaram vestígios genéticos de outras 24 espécies de vertebrados, incluindo peixes, aves e mamíferos.
COMO O PEIXE FOI ENCONTRADO SEM SER CAPTURADO?
A técnica utilizada é chamada de DNA ambiental, ou eDNA.
Segundo a pesquisadora do INMA e uma das autoras do estudo, Juliana Paulo da Silva, todos os animais deixam rastros genéticos no ambiente por onde passam. Esses vestígios podem estar presentes em células da pele, muco, escamas ou fezes e permanecem na água por determinado período, permitindo a identificação das espécies em laboratório.
Para realizar a pesquisa, os cientistas coletaram apenas 180 mililitros de água em cada um dos pontos analisados.
"É uma quantidade muito pequena para gerar uma resposta tão grande. Conseguimos identificar uma comunidade inteira de organismos que vive naquele ambiente sem necessariamente observar os animais", explicou Juliana.
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Pontos onde vestígios do bagrinho-de-kaetés foram encontrados
em Vargem Alta, Espírito Santo (Foto: Juliana Paulo da Silva)
As análises genéticas foram feitas em um laboratório da PUC Minas, referência nesse tipo de estudo. Após a identificação do DNA nas amostras, os pesquisadores retornaram aos riachos e conseguiram observar exemplares do bagrinho-de-kaetés, além de registrar imagens da espécie.
"Isso mostrou que a tecnologia realmente funciona. A técnica é mais eficiente do que os métodos tradicionais de captura de animais e causa menos impacto à fauna", afirmou a pesquisadora.
MAIS DE UMA DÉCADA SEM NOVOS REGISTROS
O bagrinho-de-kaetés foi descrito pela ciência em 2010 durante pesquisas ambientais realizadas na região onde hoje está localizada a Reserva de Kaetés, em Vargem Alta.
"Depois da descoberta, de 2010 até 2021, ninguém mais tinha encontrado esse peixe, foi mais de uma década sem novos registros, o que nos motivou a recorrer ao DNA ambiental para verificar se ela ainda estava presente na região", contou Juliana.
PEIXE DEPENDE DE ÁGUA LIMPA PARA SOBREVIVER
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Com análise do DNA, cientistas encontram o bagrinho-de-kaetés
na região de Vargem Alta, Espírito Santo
(Foto: Juliana Paulo da Silva)
O peixe capixaba vive em áreas muito específicas das cabeceiras dos rios e é considerado extremamente sensível a alterações ambientais. Qualquer mudança na qualidade da água ou na vegetação ao redor dos riachos pode comprometer a sobrevivência da espécie.
"Se a região é desmatada, se a água fica poluída ou se a vegetação desaparece, o peixe também desaparece", explicou a pesquisadora.
Até o momento, apenas quatro locais são conhecidos por abrigar populações da espécie. A pesquisa identificou o DNA do bagrinho em dois pontos localizados dentro da Reserva de Kaetés e em um terceiro ponto situado em uma propriedade particular.
"Nos quatro pontos onde ele já foi registrado, estimamos populações de aproximadamente 100 a 150 indivíduos", afirmou.
Segundo Juliana, esse resultado chamou a atenção dos pesquisadores porque a área é cercada por pastagens e empreendimento de piscicultura, incluindo a criação de tilápias e bagres, espécies que podem atuar como predadoras.
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"A proximidade desses animais em um ambiente sem proteção nos deixou preocupados. Por outro lado, a família proprietária da área demonstrou interesse em preservar o local quando soube da importância da espécie", disse.