Reunião entre Donald Trump e Xi Jinping na China expõe disputa por liderança econômica, tecnologia e influência geopolítica no século 21
O encontro entre o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e o líder chinês, Xi Jinping, em Pequim, pode simbolizar um momento histórico de transição na ordem internacional, em que Washington tenta administrar a perda relativa de centralidade global enquanto Pequim consolida sua ascensão como potência sistêmica.
A visita oficial, encerrada nessa sexta-feira (15/5), ocorreu em meio a um cenário internacional de forte instabilidade. O professor de geografia humana da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) Vitor de Pieri avaliou que o encontro vai muito além de negociações comerciais.
“O diálogo de alto nível entre Xi e Trump precisa ser interpretado não como uma simples rodada de negociação bilateral, mas como um dos episódios mais simbólicos da atual transição da ordem internacional”, avaliou.
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Segundo Pieri, a disputa entre Washington e Pequim envolve temas estruturais ligados à liderança econômica global, ao controle de tecnologias críticas, às rotas energéticas e à própria arquitetura de poder que moldará as próximas décadas. Estados Unidos e China são as duas maiores potências do mundo.
“O que está em disputa vai muito além de tarifas, exportações ou déficits comerciais”, afirmou. Para o professor, o encontro entre Trump e Xi sintetiza uma mudança histórica mais ampla.
“Os Estados Unidos continuam sendo a principal potência militar e financeira do planeta, mas já não conseguem definir sozinhos as regras da ordem global”, disse.
Ao mesmo tempo, segundo ele, a China ainda não substituiu integralmente a liderança americana, mas consolidou-se como potência capaz de influenciar conflitos regionais, controlar cadeias produtivas estratégicas e desafiar a supremacia tecnológica ocidental.
Na pauta das conversas entre os dois líderes estiveram temas como a guerra envolvendo Estados Unidos, Israel e Irã, a questão de Taiwan, inteligência artificial, comércio internacional, minerais estratégicos e cadeias globais de produção.
Durante os encontros, realizados no Grande Salão do Povo e em outros espaços simbólicos do poder chinês, Xi e Trump trocaram elogios e defenderam uma relação mais estável entre os dois países.
O líder chinês afirmou que “China e Estados Unidos devem ser parceiros, não rivais”. Enquanto Trump classificou a viagem como “muito bem-sucedida” e “inesquecível”.
GUERRA COMERCIAL E PRAGMATISMO ECONÔMICO
A reunião ocorreu após meses de tensão entre as duas potências.
No último ano, EUA e China protagonizaram uma guerra tarifária que elevou taxas de importação para patamares superiores a 100% em alguns setores.
Como resposta às medidas adotadas por Washington, Pequim restringiu exportações de minerais de terras raras — essenciais para a produção de semicondutores, baterias, sistemas militares e equipamentos de inteligência artificial.
Com isso, a política tarifária defendida pelo republicano produziu efeitos ambíguos dentro dos próprios Estados Unidos, como aumento de custos industriais, pressões inflacionárias e resistência de setores empresariais.
Internamente, o republicano também enfrenta desgaste político. Pesquisa Atlas/Intel divulgada neste mês apontou desaprovação de 59,8% ao governo Trump.
O levantamento mostrou ainda que 62,8% dos entrevistados consideram que as políticas econômicas da atual gestão pioraram a economia norte-americana.
Na avaliação do professor Vitor de Pieri, fragilidades domésticas acabam limitando a capacidade de negociação externa dos Estados Unidos.
“O discurso de confronto permanece relevante para sua base política, mas passa a conviver com necessidades econômicas concretas, como controlar preços, garantir abastecimento industrial e reduzir vulnerabilidades estratégicas”, explicou.
TAIWAN PERMANECE COMO PRINCIPAL PONTO DE TENSÃO
Apesar do tom cordial adotado durante a visita, a questão de Taiwan continuou sendo o ponto mais sensível da relação bilateral.
A China considera Taiwan uma província separatista e vê qualquer aproximação militar entre Washington e Taipei como uma ameaça direta à soberania chinesa.
Antes da viagem, Trump indicou que discutiria a venda de armas norte-americanas para a ilha — possibilidade que gerou reação imediata de Pequim.
Durante o encontro, Xi alertou que o tema pode levar os dois países a uma situação “muito perigosa”.
Para Vitor de Pieri, Taiwan se transformou no principal epicentro potencial de uma crise militar sistêmica. “Taiwan tornou-se peça central do redesenho militar asiático”, afirmou.
Após o encontro, o chefe da Casa Branca chegou a afirmar que gostaria que a situação entre os países permanecesse inalterada.
“Gostaria que continuasse como está. Conversamos a noite toda sobre esse assunto. Acho que agora sei mais sobre Taiwan do que sobre quase qualquer outro país”, disse.
IRÃ, ENERGIA E DISPUTA POR INFLUÊNCIA GLOBAL
Outro eixo central das conversas foi o Oriente Médio, especialmente a guerra envolvendo Irã, Israel e Estados Unidos.
Trump afirmou que ele e Xi concordaram que o Irã não deve ter armas nucleares e defenderam a reabertura do Estreito de Ormuz, rota marítima estratégica para o comércio global de petróleo.
Segundo Pieri, a discussão sobre o Irã revela uma transformação importante no sistema internacional.
“Os Estados Unidos passam a reconhecer que determinadas crises regionais exigem interlocução com potências emergentes capazes de influenciar atores locais”, afirmou.
A China é hoje a principal parceira comercial do Irã e depende fortemente do petróleo da região do Golfo. Além disso, Pequim vê Teerã como peça importante de sua estratégia de integração euroasiática.
“Quando Xi discute o Irã com Trump, não está apenas atuando diplomaticamente; está protegendo corredores energéticos fundamentais para o crescimento chinês e ampliando sua legitimidade como ator estabilizador global”, explicou o professor.
NOVA ORDEM GLOBAL
A rivalidade entre as duas potências também se intensifica na área tecnológica. Inteligência artificial, semicondutores, telecomunicações, supercomputação e guerra cibernética passaram a ocupar posição central na disputa estratégica entre Washington e Pequim.
Os Estados Unidos vêm tentando restringir o acesso chinês a tecnologias consideradas críticas, enquanto a China amplia investimentos em autonomia tecnológica e inovação industrial.
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O especialista também aponta que o atual cenário revela um deslocamento gradual do centro de gravidade geopolítico do Atlântico para o Indo-Pacífico, além do fortalecimento do chamado Sul Global.
Fonte:Metropóles