Queda nos títulos da CoreWeave e aumento do custo de proteção contra calotes levantam dúvidas sobre a sustentabilidade dos investimentos em data centers e infraestrutura de IA.
O crescimento acelerado da inteligência artificial (IA) foi impulsionado por trilhões de dólares em empréstimos e investimentos. Agora, porém, o mercado financeiro começa a demonstrar preocupação com a capacidade de algumas empresas do setor de continuar obtendo recursos e, principalmente, de pagar as dívidas acumuladas para financiar a expansão da tecnologia.
O alerta ganhou força na semana passada, quando investidores perderam a confiança na CoreWeave, empresa de data centers que opera com elevado nível de endividamento. Os preços dos títulos de dívida da companhia despencaram, enquanto o mercado passou a considerar superior a 60% a probabilidade de que ela não consiga cumprir suas obrigações financeiras.
A empresa acumula US$ 72 bilhões em passivos e administra 51 data centers. A situação provocou apreensão entre investidores, que também passaram a vender títulos de outras companhias ligadas à inteligência artificial, como a Oracle, empresa associada ao empresário Larry Ellison. Nesse caso, entretanto, as desvalorizações foram menos intensas do que as registradas pela CoreWeave.
Veja também

Cortes em benefícios sociais podem reduzir renda e afetar economias do interior
STF mantém mínimo existencial em R$ 600 para proteger consumidores endividados
Outro sinal de preocupação veio do mercado de instrumentos financeiros utilizados para proteger investidores contra possíveis calotes de empresas. Os preços de contratos desse tipo relacionados à SoftBank, gigante japonesa de tecnologia que assumiu dívidas elevadas para apostar em uma parceria com a OpenAI, também subiram.
Essas movimentações podem provocar prejuízos para quem já possui títulos emitidos pelas empresas afetadas. Além disso, as companhias podem enfrentar juros mais altos quando precisarem buscar novos empréstimos, aumentando os custos de projetos de inteligência artificial que já exigem investimentos gigantescos.
A dúvida entre analistas e investidores é se CoreWeave, Oracle e SoftBank representam casos isolados de fragilidade financeira ou se os problemas indicam riscos mais amplos no modelo de expansão da infraestrutura de IA.
Segundo o banco de investimentos Barclays, o prêmio adicional exigido pelos investidores para financiar operações de dívida consideradas arriscadas e vinculadas à inteligência artificial aumentou mais de 50% nos últimos seis meses.
“O mercado está por um fio em todos os lugares”, afirmou Alexandra Coleman, fundadora da Azraq, empresa especializada na análise de riscos relacionados a data centers.
ENDIVIDAMENTO CRESCENTE PREOCUPA INVESTIDORES
A dimensão dos investimentos necessários para sustentar o avanço da inteligência artificial ajuda a explicar a preocupação. Nas últimas semanas, economistas, bancos e empresas de private equity passaram a projetar volumes cada vez maiores de recursos emprestados para financiar a construção e a operação dos sistemas que, segundo seus defensores, terão papel central na economia mundial nos próximos anos.
Grandes gestoras de fundos, seguradoras e empresas de private equity já compraram títulos de dívida associados ao setor. Ao mesmo tempo, milhares de investidores individuais direcionaram dinheiro para empresas de inteligência artificial, cujas ações registraram fortes valorizações.
Apesar disso, o mercado não avalia todas as companhias da mesma maneira. As chamadas hiperescaladoras, como Meta e Alphabet, continuam recorrendo a empréstimos expressivos, mas conseguiram captar recursos recentemente pagando apenas juros um pouco mais elevados.
Essas empresas são grandes corporações de tecnologia que operam extensas redes próprias de data centers para sustentar serviços de computação em nuvem, inteligência artificial e plataformas digitais em escala global.
Mesmo entre as gigantes, porém, houve investidores que venderam títulos de dívida já emitidos. As perdas de valor foram menos acentuadas do que as observadas nos papéis da CoreWeave, mas contribuíram para ampliar a cautela em relação ao financiamento do setor.
MODELO DA COREWEAVE LEVANTA DÚVIDAS
Parte das preocupações está relacionada à estrutura de negócios da CoreWeave, que alguns analistas e investidores comparam à da WeWork, empresa que enfrentou dificuldades financeiras ao oferecer espaços de escritórios compartilhados.
A CoreWeave compra chips da Nvidia e de outros fabricantes de tecnologia para inteligência artificial. Em seguida, fecha contratos com proprietários de data centers para utilizar as instalações em operações de computação, em acordos que podem durar 15 anos ou mais. Depois, aluga essa capacidade a clientes como Meta, Microsoft e OpenAI, geralmente por períodos mais curtos.
O principal risco está no descompasso entre os compromissos assumidos pela companhia e a duração dos contratos com seus clientes. A empresa precisa arcar com os custos de montagem e operação da infraestrutura antes mesmo de garantir ocupantes e permanece vinculada às instalações por períodos potencialmente superiores aos acordos firmados com quem utiliza seus serviços.
Investidores também questionam se empresas como Meta e Microsoft continuarão precisando alugar espaço da CoreWeave no futuro. Caso essas companhias passem a operar mais infraestrutura própria ou reduzam a demanda, a empresa poderá enfrentar dificuldades para manter a ocupação de seus data centers.
Há ainda o risco de que as instalações e os equipamentos se tornem ultrapassados ou obsoletos antes do encerramento dos contratos de longo prazo, comprometendo a capacidade de recuperar os investimentos realizados.
Em resposta às críticas, Lia Davis, porta-voz da CoreWeave, afirmou que a empresa discorda da comparação com a WeWork. “A complexidade da nossa estrutura de financiamento reflete disciplina, algo de que nos orgulhamos”, declarou em comunicado.
Curtiu? Siga o PORTAL DO ZACARIAS no Facebook, Twitter e no Instagram.
O cenário mantém o mercado em alerta diante da expansão da inteligência artificial. Embora os investimentos sejam considerados fundamentais para ampliar a capacidade computacional e desenvolver novas aplicações, o aumento das dívidas e dos custos de financiamento levanta dúvidas sobre a sustentabilidade financeira de parte das empresas que sustentam esse crescimento.