Psiquiatra defende comunicação mais responsável no ambiente digital e destaca que conteúdos online não substituem avaliação profissional.
As redes sociais se consolidaram como um dos principais espaços para discussões sobre saúde mental, mas o crescimento desse debate também traz desafios. Durante o Brain Congress 2026, realizado em Porto Alegre, o psiquiatra Felipe Santaella alertou para os riscos da simplificação excessiva de temas complexos relacionados ao sofrimento psíquico e aos transtornos mentais.
Consultor externo do Departamento de Saúde Mental do Ministério da Saúde, Santaella destacou que a internet deixou de ser apenas uma ferramenta de uso ocasional e passou a fazer parte da rotina das pessoas, influenciando diretamente a forma como elas interpretam emoções, comportamentos e diagnósticos.
Segundo o especialista, o acesso massivo às redes sociais ampliou a circulação de informações sobre saúde mental, mas também favoreceu a disseminação de conteúdos incompletos ou incorretos. Dados apresentados durante o evento mostram que mais de 90% dos brasileiros têm acesso à internet, enquanto cerca de 88% utilizam redes sociais regularmente.
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Um dos pontos abordados na palestra foi o chamado “efeito looping”, conceito que descreve como diagnósticos podem influenciar a percepção que uma pessoa desenvolve sobre si mesma. De acordo com Santaella, além da avaliação médica, fatores culturais e conteúdos consumidos online também moldam a compreensão que o indivíduo passa a ter sobre sua condição.
O psiquiatra ressaltou que, em alguns casos, diagnósticos como transtorno do espectro autista ou transtorno do déficit de atenção e hiperatividade podem acabar sendo utilizados como explicação única para diferentes dificuldades, limitando a compreensão de aspectos mais amplos do desenvolvimento e da vida cotidiana.
Apesar de reconhecer que as redes sociais criam espaços importantes de acolhimento e troca de experiências, o especialista alertou para o crescimento do autodiagnóstico e da adoção de identidades associadas a transtornos sem avaliação adequada. Estudos apresentados por ele indicam que parte significativa dos conteúdos relacionados à saúde mental nas plataformas digitais contém informações imprecisas ou estigmatizantes.
Para Santaella, a comunicação sobre saúde mental deve incentivar a reflexão e a busca por orientação especializada, sem substituir consultas ou diagnósticos realizados por profissionais. Ele defende que conteúdos digitais sejam encarados como ferramentas de informação e conscientização, e não como fontes definitivas de avaliação clínica.
O debate também tem mobilizado autoridades de saúde. Neste ano, o Ministério da Saúde reuniu especialistas, pesquisadores e influenciadores para elaborar um guia de boas práticas voltado à comunicação sobre saúde mental nas redes sociais, com publicação prevista para os próximos meses.
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Ao encerrar sua participação no evento, o psiquiatra resumiu o principal desafio da era digital: promover informações de qualidade e estimular conversas mais responsáveis sobre saúde mental.