Pesquisa com participação de cientistas da Unicamp aponta que o avanço das emissões de gases de efeito estufa pode agravar os períodos de calor e estiagem, ameaçando a floresta, os rios e as comunidades amazônicas.
As secas extremas que atingiram a Amazônia em 2023 e 2024 podem se tornar cada vez mais frequentes nas próximas décadas. O alerta está em um estudo científico desenvolvido com a participação de pesquisadores da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp). A pesquisa, divulgada em 7 de outubro, relaciona o agravamento desses eventos ao aumento das emissões de gases de efeito estufa.
De acordo com o levantamento, durante a atuação do fenômeno El Niño em 2023 e 2024, cerca de 75% das áreas de florestas tropicais do planeta enfrentaram pelo menos seis meses consecutivos de calor e seca extremos simultaneamente. Na Amazônia, o período foi marcado por níveis historicamente baixos dos rios, comunidades isoladas e dificuldades no acesso à água.
Um dos episódios mais preocupantes ocorreu nos lagos da região, onde mais de 300 botos morreram em meio ao aquecimento extremo das águas. O fenômeno evidenciou os efeitos das temperaturas elevadas e da redução dos níveis dos rios sobre a fauna aquática e o equilíbrio dos ecossistemas amazônicos.
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CALOR E FALTA DE ÁGUA AMEAÇAM A FLORESTA
Os pesquisadores alertam que a combinação de temperaturas elevadas e escassez de água provoca estresse na vegetação e aumenta o risco de mortalidade das árvores. Com a perda de cobertura vegetal, a floresta também pode ter sua capacidade de absorver dióxido de carbono reduzida, agravando o acúmulo de gases de efeito estufa na atmosfera.
Outro efeito está relacionado à evapotranspiração, processo pelo qual a vegetação libera água para a atmosfera. Quando a floresta perde parte de sua capacidade de realizar esse processo, há alterações na circulação de umidade e no regime de chuvas. Os impactos podem ultrapassar os limites da Amazônia e alcançar regiões como o centro-sul do Brasil e a Bolívia, com possíveis consequências para o clima em escala global.
MAIS DE 2 MIL LOCALIDADES TIVERAM ALTA EXPOSIÇÃO À SECA
Os efeitos da estiagem também foram registrados em comunidades amazônicas. Um levantamento do MapBiomas apontou que 38% das localidades analisadas na região apresentaram alta exposição à seca entre setembro e novembro de 2024, totalizando mais de 2 mil localidades.
Em Manaus, moradores do Parque das Tribos enfrentaram dificuldades no abastecimento de água durante o período. Para lidar com as interrupções, algumas famílias precisaram antecipar tarefas domésticas para as primeiras horas da manhã, tentando aproveitar o período em que ainda havia fornecimento.
A situação evidencia como as secas prolongadas afetam não apenas os rios e a biodiversidade, mas também a rotina de milhares de pessoas que dependem dos recursos naturais para atividades básicas.
Os cientistas destacam que a intensidade dos impactos nas próximas décadas dependerá, em parte, das medidas adotadas para reduzir as emissões de gases de efeito estufa. A preservação contínua da floresta também é considerada fundamental para manter sua capacidade de absorver carbono e contribuir para a regulação do ciclo da água.
O estudo reforça o alerta de que a combinação entre mudanças climáticas e degradação ambiental pode ampliar os riscos de novas estiagens severas na Amazônia. Sem medidas para conter o aquecimento global e proteger a vegetação, eventos semelhantes aos registrados em 2023 e 2024 poderão representar desafios cada vez maiores para os ecossistemas e as populações da região.