Investigação dos EUA usa dados sobre crimes ambientais e desmatamento para embasar tarifas contra o Brasil, mas não menciona a queda recente dos índices e isenta produtos dos setores apontados no relatório
O desmatamento ilegal foi um dos principais argumentos usados pelo governo dos Estados Unidos para justificar a proposta de tarifas de 25% sobre produtos brasileiros. A investigação alega que o país pratica concorrência desleal, com preços baixos sobre produtos como madeira e carne, porque eles são produzidos em áreas de crimes ambientais. Apesar disso, deixou de fora da taxação parte dos produtos desses mercados.
Divulgado na terça-feira (2), o relatório que cita os crimes ambientais conclui que o Brasil estaria permitindo a comercialização de produtos de áreas desmatadas ilegalmente, o que reduziria custos de produção e daria ao país uma vantagem competitiva considerada desleal pelos norte-americanos.
Para sustentar essa acusação, o documento recorre principalmente a dados de desmatamento, mas cita índices já defasados. Um deles é o aumento do desmatamento em 2021, um dos maiores que o país já viveu, durante o governo de Jair Bolsonaro.
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Embora isso seja real, o documento ignora novo números que mostram a redução dos índices e das ilegalidades. Por exemplo, o país ter a menor taxa de desmatamento na Amazônia em mais de dez anos em 2025.
Apesar da redução, o desmatamento ainda não é zero – o que é uma meta do governo federal até 2030. A maior parte do corte nas florestas brasileiras é ilegal e o governo Trump usa essa informação, mas aponta uma omissão sistêmica – que o governo federal nega. (Leia mais abaixo)
Entre os trechos citados na investigação estão:
Falha na Fiscalização e Auditoria - O documento diz dos EUA que, embora existam leis como o Código Florestal e o Cadastro Ambiental Rural (CAR), as autoridades brasileiras não realizam auditorias para detectar fraudes ou informações falsas. Alega que falta o cruzamento frequente de dados do CAR com imagens de satélite e investimento insuficiente em tecnologia de fiscalização.
Fraude e Lavagem de Produtos - A investigação dos EUA alega a prevalência de fraude no setor de madeira, onde documentos oficiais seriam insuficientes para garantir a origem legal do produto. Da mesma forma, pecuaristas "lavariam" gado criado em terras desmatadas ilegalmente, transferindo-os para matadouros legítimos.
Altos Índices de Ilegalidade - O documento dos EUA aponta relatórios que indicam que, entre 2023 e 2024, 91% do desmatamento na Amazônia foi ilegal. No Cerrado, onde os limites legais são mais flexíveis, estima-se que 51% da supressão de vegetação tenha sido ilegal no mesmo período. Outro estudo indica que 95% da perda florestal para conversão agrícola entre 2013 e 2019 foi provavelmente ilegal.
SEM RELAÇÃO CRIME X PRODUTOS
Ao longo do documento, o governo norte-americano pontua várias vezes a relação entre crimes ambientais e a produção de gado e madeira no país. No entanto, a lista de produtos poupados da sobretaxa inclui diferentes tipos de madeira, entre elas espécies consideradas vulneráveis à exploração em áreas de desmate, como mogno, embuia e ucuúba. Além de parte dos cortes bovinos brasileiros.
Para especialistas, a preocupação ambiental do governo Trump foi uma surpresa. O presidente norte-americano alega que as mudanças climáticas “são uma farsa” e assim que assumiu, o país deixou o Acordo de Paris, principal acordo internacional voltado à coordenação de ações contra as mudanças climáticas.
Para além disso, os EUA não estiveram na COP30, conferência mundial sobre o clima, que foi realizada no Brasil no ano passado. Além de ser o maior emissor de gases do efeito estufa do mundo e, desde que assumiu, o governo retrocedeu em várias das medidas para combater as emissões.
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climática em 40 anos (Foto: silvioassuncao/ Fickr)
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Segundo especialistas, os EUA levantaram problemas reais do Brasil para justificar a tarifa, mas ao apontar o país, ignora suas próprias convicções.