A partir da radiação cósmica de fundo, cientistas reabrem a discussão sobre a existência de um centro no Universo
Desde a Antiguidade, a humanidade tenta responder a uma pergunta aparentemente simples: onde estamos no Universo? Durante séculos, acreditou-se que a Terra ocupava uma posição central. Mais tarde, esse papel foi atribuído ao Sol e depois à Via Láctea. Cada avanço científico, no entanto, mostrou que nossa posição é menos privilegiada do que imaginávamos. Ainda assim, a dúvida persiste em outra escala: existe um centro no próprio Universo?
Na cosmologia moderna, essa pergunta não é apenas filosófica, mas profundamente científica. Um estudo publicado na Cornell University revisita esse debate ao analisar como a expansão do Universo e a radiação cósmica de fundo podem ou não apontar para a existência de um centro físico real.
O QUE A COSMOLOGIA MODERNA COSTUMA AFIRMAR
O ponto de partida do estudo é o modelo cosmológico baseado nas soluções das equações de Friedmann, que descrevem um Universo em expansão. Nesse modelo, a expansão não ocorre a partir de um ponto específico no espaço, mas do próprio espaço como um todo. Isso faz com que qualquer observador veja todas as galáxias se afastando, independentemente de sua posição.
Veja também

Menções à IA disparam nas falas de executivos de grandes empresas brasileiras
3I/ATLAS pode não ser um cometa? Novo estudo acende debate sobre natureza do objeto
A lei de Hubble, que relaciona a velocidade de afastamento das galáxias à distância, reforça essa ideia: matematicamente, todos os pontos parecem equivalentes. Por isso, apenas a expansão observada não permite concluir se existe ou não um centro real no Universo.
DOIS UNIVERSOS POSSÍVEIS: COM CENTRO E SEM CENTRO
Para lidar com essa ambiguidade, o artigo propõe dois tipos distintos de interpretação cosmológica dentro do Universo de Friedmann. No Universo sem centro, o espaço é comparado à superfície de um balão em expansão. O centro da expansão não faz parte do próprio Universo e, portanto, não possui significado físico observável. Nenhum ponto é especial, e todos os observadores são equivalentes. Essa é a imagem mais comum adotada na cosmologia contemporânea.
Já no Universo com centro, a expansão teria partido de um ponto físico real. Cada região do cosmos se afastaria desse centro com uma velocidade proporcional à distância. Apesar de a expansão fazer com que qualquer ponto pareça central, apenas um ponto, o verdadeiro centro, não apresentaria movimento em relação ao restante do Universo.
A PISTA CÓSMICA: O PAPEL DA RADIAÇÃO CÓSMICA DE FUNDO
Para tentar distinguir entre esses dois cenários, o estudo recorre à radiação cósmica de fundo (CMB), um dos pilares da cosmologia observacional. Essa radiação é um resquício do Universo primordial e preenche todo o espaço, sendo observada como um fundo quase uniforme de micro-ondas.
Observações precisas da CMB revelam uma pequena anisotropia chamada dipolo, caracterizada por uma diferença sutil de temperatura entre direções opostas do céu. Esse dipolo indica que o observador está em movimento em relação ao referencial definido pela própria radiação cósmica de fundo.
O QUE O DIPOLO DA CMB REVELA, SEGUNDO O ESTUDO
O artigo apresenta uma série de teoremas para interpretar o significado desse dipolo. Em um Universo sem centro, argumenta o autor, a simetria do espaço impediria a existência de um dipolo da CMB em qualquer ponto. Nem mesmo movimentos locais, chamados de velocidades peculiares, seriam capazes de gerar essa anisotropia.
Em contraste, em um Universo com centro, o dipolo surge naturalmente. Todo observador afastado do centro detectaria uma anisotropia cuja intensidade corresponde à sua velocidade de afastamento, o chamado fluxo de Hubble. Apenas no centro o dipolo seria inexistente. A observação real desse efeito, portanto, é interpretada no estudo como um indício favorável à existência de um centro cósmico.
É POSSÍVEL ESTIMAR ONDE ESTARIA ESSE CENTRO?
A partir dessa interpretação, o autor utiliza dados observacionais para tentar localizar o possível centro do Universo. Entram na análise a velocidade do dipolo da CMB, o movimento peculiar do Sistema Solar, o deslocamento do aglomerado de Virgem e a influência gravitacional do Grande Atrator, uma enorme concentração de massa que afeta o movimento das galáxias próximas.
Os cálculos apontam para uma região localizada a dezenas de megaparsecs de distância, em uma direção próxima à galáxia Centaurus A. O próprio artigo destaca que essa estimativa está sujeita a incertezas e depende de hipóteses específicas sobre os movimentos cósmicos considerados.
O CONCEITO DE “CENTRO APARENTE”
O estudo introduz uma ressalva importante, mesmo em um Universo sem centro real, pode surgir um centro aparente. Isso ocorre porque o Universo tem idade finita e apenas uma fração dele pode influenciar observacionalmente um ponto específico dentro do tempo disponível.
Nesse cenário, uma região limitada do cosmos passa a se comportar como se fosse um universo completo, criando a ilusão de um centro local. Diferentes observadores, em locais distintos, identificariam centros diferentes, o que distingue esse caso de um Universo com centro único e universal.
Curtiu? Siga o PORTAL DO ZACARIAS no Facebook, Twitter e no Instagram.
Entre no nosso Grupo de WhatApp, Canal e Telegram
No fim, o estudo não oferece uma resposta definitiva sobre a existência de um centro no Universo, mas expõe com clareza os limites da observação científica atual. Todas as medições disponíveis partem de um único ponto, a Terra,, o que torna impossível distinguir, por enquanto, se o dipolo da radiação cósmica de fundo revela um centro físico real ou apenas um efeito aparente da nossa posição no cosmos.
Fonte: CNN