O procurador-geral da República, Paulo Gonet
Reconduzido ao cargo há pouco mais de um mês após uma votação apertada no Senado, o procurador-geral da República, Paulo Gonet, vive um momento de forte desgaste nos bastidores de Brasília. O chefe do Ministério Público Federal acumula divergências com a Polícia Federal, mantém investigações delicadas sem desfecho, inclusive uma que preocupa o Palácio do Planalto, e ainda passou a ser alvo de críticas por sua atuação diante de decisões consideradas atípicas do ministro Dias Toffoli, do Supremo Tribunal Federal (STF), no caso Banco Master.
Em meio ao desconforto gerado pelas decisões de Toffoli envolvendo a instituição financeira ligada a Daniel Vorcaro, Gonet decidiu arquivar uma representação apresentada por parlamentares da oposição que pedia a suspeição do ministro. O pedido alegava possível conflito de interesses após Toffoli viajar em um jatinho para Lima, no Peru, acompanhado do advogado de um diretor do banco.
Procurada, a Procuradoria-Geral da República afirmou que a atuação de Gonet é baseada em critérios técnicos e na análise individual de cada caso. A aliados, o procurador-geral avalia que as críticas fazem parte da função.
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DIVERGÊNCIAS COM A PF
Um dos episódios mais recentes de atrito com a Polícia Federal envolve o senador Chico Rodrigues (PSB-RR). A PGR defendeu o arquivamento de parte do inquérito que investiga desvios de recursos durante a pandemia, no qual o parlamentar foi flagrado, em 2020, com R$ 33.150 escondidos na cueca. Para a PGR, não havia provas suficientes de que o dinheiro tivesse origem ilícita.
A PF, no entanto, indiciou o senador e chegou a pedir medidas mais duras, como prisão preventiva e afastamento do mandato — pedidos negados à época pelo então relator do caso no STF, ministro Luís Roberto Barroso. Chico Rodrigues sempre negou irregularidades e alegou que o dinheiro seria para pagar funcionários.
Outro embate ocorreu na Operação Sem Desconto, que apura um suposto esquema bilionário de descontos ilegais em benefícios do INSS. A PF pediu a prisão preventiva do senador Weverton Rocha (PDT-MA), mas a PGR se posicionou contra. Weverton é aliado do presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), figura-chave na articulação que garantiu a recondução de Gonet.
TRÂNSITO POLÍTICO E SUPREMO
Interlocutores avaliam que as posições de Gonet refletem seu bom trânsito tanto no STF quanto no meio político. Às vésperas da sabatina no Senado, ele defendeu a constitucionalidade das emendas impositivas, agradando parlamentares e ajudando a destravar sua recondução, que enfrentava resistência de setores bolsonaristas.
O alinhamento com o Supremo também ficou evidente na condução do processo da trama golpista, que terminou com a condenação do ex-presidente Jair Bolsonaro. A indicação antecipada de Gonet para mais dois anos à frente da PGR foi feita pelo presidente Lula ainda em agosto, antes do julgamento no STF.
‘ABIN PARALELA’ E INVESTIGAÇÕES PARADAS
Apesar da atuação firme no caso da tentativa de golpe, outras investigações envolvendo Bolsonaro seguem sem avanço na PGR. Entre elas está o inquérito sobre a chamada “Abin paralela”, que aponta participação do ex-presidente em um esquema de espionagem ilegal.
A PF pediu o indiciamento do atual diretor-geral da Abin, Luiz Fernando Corrêa, por suspeita de obstrução das investigações. Mesmo assim, ele segue no cargo mais de sete meses após o pedido, o que gera preocupação no governo. Homem de confiança de Lula, Corrêa já comandou a PF em outro mandato do petista, e sua permanência é vista como um flanco político sensível.
Também seguem sem definição na PGR as apurações sobre o caso das joias sauditas e o inquérito sobre fraude nos cartões de vacina. Neste último, Gonet pediu o arquivamento.
CASO BANCO MASTER E PRESSÃO DA PF
Nos bastidores do STF, a avaliação é que apoiar a suspeição de Toffoli no caso Banco Master poderia abrir brecha para anular o processo e ainda criar atritos com ministros da Corte. O arquivamento do pedido foi elogiado por Gilmar Mendes, um dos principais padrinhos da indicação de Gonet, ao lado de Alexandre de Moraes. Já o presidente do STF, Edson Fachin, divulgou nota em defesa da atuação do Supremo.
A pressão, porém, não vem apenas da oposição. Delegados da PF reclamam da falta de reação da PGR diante de decisões de Toffoli. A Associação Nacional dos Delegados de Polícia Federal chegou a divulgar nota afirmando que as medidas do ministro representam “afronta às prerrogativas” da categoria.
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Embora a PGR tenha atuado para revisar uma acareação determinada por Toffoli em dezembro de 2025, considerada incomum, não houve manifestação quando o ministro retirou das mãos da PF as provas já coletadas — ponto que aumentou ainda mais o desgaste entre investigadores e o procurador-geral.