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Governo Lula celebra vitórias do cinema brasileiro, mas retorno político tende a ser limitado
Foto: Divulgação

O governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) tem usado o sucesso recente do cinema nacional como vitrine institucional para reforçar a imagem de retomada cultural e projeção internacional do Brasil. Apesar da visibilidade gerada por prêmios e eventos, especialistas avaliam que a estratégia tem alcance eleitoral limitado e funciona mais como reforço simbólico do que como instrumento de ampliação do eleitorado.

 

Um exemplo dessa iniciativa ocorreu no início do mês, quando a primeira-dama Rosângela Lula da Silva, a Janja, fez uma ligação ao diretor Kleber Mendonça Filho e ao ator Wagner Moura para parabenizá-los pelos prêmios conquistados pelo filme O Agente Secreto no Globo de Ouro  melhor filme em língua não inglesa e melhor ator de drama. Em viva-voz, o presidente Lula entrou na conversa, elogiou a produção e prometeu ampliar políticas públicas para o setor audiovisual. O diálogo foi gravado, editado com trilha de frevo e divulgado nas redes oficiais do governo.

 

A ação integra uma série de publicações que exaltam o momento positivo do cinema brasileiro, iniciado com Ainda Estou Aqui, de Walter Salles. Para analistas, o Planalto busca usar o reconhecimento internacional para legitimar investimentos públicos em cultura e marcar contraste com o governo do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), associando o atual mandato à ideia de que “o Brasil voltou” ao cenário global.

 

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“A estratégia é menos sobre conquistar novos eleitores e mais sobre construir reputação institucional. Os prêmios geram orgulho e prestígio, mas não necessariamente se convertem em votos”, avalia Mariana Bonjour, consultora de marketing político.

 

Ambientado no Recife durante a ditadura militar, O Agente Secreto acompanha a trajetória de Marcelo, professor universitário interpretado por Wagner Moura, que retorna à cidade natal perseguido por assassinos de aluguel. O filme estreou na 78ª edição do Festival de Cannes, onde recebeu os prêmios de melhor direção e melhor ator, e agora é cotado para múltiplas indicações ao Oscar.

 

Nos bastidores, o governo articulou uma campanha paralela à divulgação da obra. Antes da ligação com Lula, foram feitas postagens com linguagem informal, incluindo uma imagem de Moura acompanhada da frase “o baiano tem o Golden Globes”, em alusão a um hit musical. Em agosto, o Palácio da Alvorada recebeu uma sessão especial do filme, com tapete vermelho, frevo e elogios públicos do ator ao presidente.

 

Estratégia semelhante foi adotada no ano anterior com Ainda Estou Aqui, inspirado no livro de Marcelo Rubens Paiva, que retrata o impacto da ditadura militar na família do autor após o desaparecimento do deputado Rubens Paiva. O longa rendeu a Fernanda Torres o prêmio de melhor atriz de drama no Globo de Ouro de 2025 e garantiu ao Brasil o Oscar de melhor filme internacional. Lula chegou a mencionar a produção durante a cerimônia de 8 de Janeiro.

 

“Esses filmes dialogam diretamente com o discurso do governo sobre a defesa da democracia”, observa Bonjour.

 

Para Felipe Soutello, especialista em marketing político e produtor audiovisual, o governo se apoia em um sentimento de ufanismo semelhante ao gerado por conquistas esportivas. Embora esse clima sinalize prosperidade, o efeito eleitoral tende a ser restrito. “Há uma carga ideológica envolvida, porque o reconhecimento internacional valida a política de fomento cultural, algo que o PT tem legitimidade para celebrar. Mas isso mobiliza mais a militância do que o eleitor médio”, afirma.

 

O protagonismo do cinema brasileiro coincide com a retomada do financiamento público ao setor. Dados da Agência Nacional do Cinema (Ancine) mostram crescimento na liberação de recursos do Fundo Setorial do Audiovisual (FSA) a partir de 2022, após a eleição de Lula. O fundo, abastecido pela Condecine, é o principal mecanismo de apoio a produções cinematográficas, com recursos destinados tanto a editais de produção quanto a financiamentos de infraestrutura.

 

Além disso, o governo anunciou um investimento de R$ 1,6 bilhão no audiovisual e sancionou a lei que garante a cota de tela para produções brasileiras até 2033. No governo Bolsonaro, houve redução significativa dos recursos, com contingenciamento de 43% do FSA em 2019 e ameaças de extinção da Ancine, cenário agravado pela pandemia, que paralisou linhas de financiamento como o Prodav.

 

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Apesar da recuperação do setor e do reconhecimento internacional, analistas concordam que o uso político do cinema pelo governo tende a reforçar narrativas já consolidadas, sem grande capacidade de alterar o cenário eleitoral. 

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