Na contagem regressiva para o início do conclave que escolherá o sucessor do Papa Francisco, uma dúvida paira sobre o Vaticano: saberá o novo Papa preservar e aprofundar seu legado na aproximação entre a Igreja e os mais pobres e na abertura para debates da atualidade em questões comportamentais e sociais? Ou haverá retrocesso?
Primeiro Papa jesuíta e das Américas, o cardeal argentino Jorge Mario Bergoglio assumiu a Igreja em momento difícil depois da renúncia de Bento XVI. No pontificado iniciado em 2013, enfrentou a séria crise provocada pelos casos de abuso sexual de menores.
Embora tenha recebido críticas por ter demorado a agir e por não ter ido a fundo nas sanções, Francisco puniu vários padres, alguns de alta hierarquia — nos Estados Unidos, não escapou o cardeal Theodore McCarrick, afastado em 2018 e expulso do clero no ano seguinte (foi o primeiro afastamento de um cardeal da Igreja na História moderna).
Veja também

Donald Trump posta foto vestido de papa e gera revolta nas redes sociais
Francisco também publicou a encíclica “Laudato Si’ ” (Louvado Sejas), com engajamento inédito em questões envolvendo meio ambiente e sociedade. Foi um passo importante na aproximação de Igreja e mundo concreto, colocando de modo pioneiro os ensinamentos eclesiásticos ao lado dos conhecimentos científicos. Por fim, Francisco adotou uma postura mais aberta e tolerante em relação a homossexuais e à comunhão para divorciados.
Todos esses passos positivos estão agora em suspenso até a escolha do próximo Papa. Uma possibilidade é o sucessor de Francisco tê-lo como referência e aprofundar sua agenda. A outra é enclausurar-se no Vaticano e voltar a afastar a Igreja da sociedade.
Nas últimas décadas, a Igreja Católica tem pagado um preço pela distância das angústias populares. Em número de fiéis, ela cresce menos que a população desde o período entre 1950 e 1970, quando o total de católicos aumentava 1,9% e a população mundial 1,8%, segundo o World Christian Database (WCD). Entre 2015 e 2025, durante o pontificado de Francisco, os católicos cresceram 0,65% ante 0,97% da população global. Sob Francisco, o rebanho da Igreja cresceu de 1,19 bilhão para 1,27 bilhão, mas proporcionalmente perdeu espaço na população do planeta.
No mapa das religiões, o catolicismo tem encolhido nas Américas — única região em que há queda em números absolutos —, enquanto cresce na África e na Ásia. Ainda está na América Latina a maior população católica do mundo — 504,9 milhões, 140 milhões dos quais no Brasil, o mais católico dos países —, mas aqui e na maioria dos países latinos a proporção de católicos tem caído, enquanto cresce a de evangélicos e denominações do protestantismo.
Curtiu? Siga o PORTAL DO ZACARIAS no Facebook, Twitter e no Instagram.
Entre no nosso Grupo de WhatApp, Canal e Telegram
Francisco indicou 108 dos 133 cardeais que escolherão seu sucessor na Capela Sistina. Muitos têm aproveitado os dias no Vaticano para se conhecer, em contatos que deverão ser decisivos para o conclave. É previsível que a ala conservadora, derrotada na eleição de Bergoglio, tente ser mais influente desta vez. O futuro da Igreja, contudo, parece mais seguro com alguém capaz de dar continuidade e de aprofundar os princípios que guiaram Francisco — alguém cujo perfil seja próximo de um Francisco II.
Fonte: O Globo