Queixas apresentadas em quatro países europeus apontam possível ligação entre a cadeia de fornecedores da empresa e mais de 6,5 milhões de hectares desmatados; companhia contesta as acusações
A JBS, uma das maiores empresas de processamento de carne do mundo, foi alvo de 14 denúncias apresentadas a autoridades de quatro países europeus por suspeita de lavagem de dinheiro relacionada ao desmatamento ilegal na Amazônia brasileira. As representações foram encaminhadas ao Reino Unido, Irlanda, Alemanha e Países Baixos por organizações ambientais e de direitos humanos.
As acusações foram articuladas pela Coalizão Jurídica Transnacional (TLC), que reúne entidades de diferentes países. O grupo também incluiu nas denúncias bancos, investidores, gestores de recursos e prestadores de serviços que mantêm relações comerciais com a companhia.
Um estudo encomendado à organização AidEnvironment associou a cadeia de fornecedores diretos e indiretos da JBS a mais de 6,5 milhões de hectares desmatados na Amazônia desde 1988. Desse total, aproximadamente 3,4 milhões de hectares estariam relacionados a fornecedores diretos e outros 3,2 milhões a fornecedores indiretos.
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Para elaborar o levantamento, os pesquisadores cruzaram registros oficiais de transporte de gado com cadastros de propriedades rurais e informações de desmatamento do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). A análise identificou 12.576 fornecedores nos estados de Mato Grosso, Pará e Tocantins.
Segundo a coalizão, mais de 80% dos fornecedores analisados na amostra apresentavam registros de desmatamento em áreas protegidas, como Reservas Legais e Áreas de Preservação Permanente. As organizações argumentam que o gado criado em áreas desmatadas ilegalmente pode ser considerado um bem de origem criminosa, e que os recursos obtidos com sua comercialização podem ser enquadrados nas normas europeias de combate à lavagem de dinheiro.
Nos Países Baixos, onde está sediada a controladora global da JBS, foi apresentada uma notícia-crime ao Ministério Público local. No Reino Unido, as denúncias envolvem uma subsidiária da empresa e instituições financeiras. Já na Irlanda e na Alemanha, as representações também citam operações de fundos administrados pela gestora BlackRock.
Em resposta às acusações, a JBS afirmou que as organizações não apresentaram os dados e a metodologia utilizados no estudo, o que impediria uma avaliação adequada das alegações. A empresa declarou ainda que monitora fornecedores de gado na Amazônia desde 2010, utilizando imagens de satélite e georreferenciamento para identificar irregularidades e bloquear propriedades que descumprem critérios ambientais e sociais.
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As denúncias ainda dependem da análise das autoridades europeias, que poderão decidir pela abertura de investigações. A apresentação das representações não significa que as empresas citadas tenham sido consideradas culpadas. A coalizão afirma que pretende responsabilizar os envolvidos em possíveis operações financeiras relacionadas ao desmatamento ilegal na Amazônia.