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Milton Hatoum destaca papel da memória na literatura e fala sobre ditadura, educação e empatia
Foto: Divulgação

Escritor amazonense participou da Flipelô, em Salvador, e comentou a trilogia “O Lugar Mais Sombrio” e sua entrada na Academia Brasileira de Letras

A memória ocupa um lugar central na obra do escritor amazonense Milton Hatoum. Desde a publicação de Relato de um Certo Oriente, o autor utiliza lembranças e experiências do passado como matéria-prima para construir suas narrativas.

 

Em Dança de Enganos, lançado no fim de 2025 e último volume da trilogia O Lugar Mais Sombrio, essa relação com a memória ganha ainda mais destaque. A história é construída a partir das lembranças e anotações de Lina, mãe de Martim, protagonista dos dois primeiros livros da série, A Noite da Espera e Pontos de Fuga.

 

Na obra, Lina assume o protagonismo para revelar dores, traumas e acontecimentos que marcaram famílias durante o período da ditadura militar no Brasil.

 

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Durante participação na Festa Literária Internacional do Pelourinho (Flipelô), em Salvador, Hatoum afirmou que a memória só ganha força na literatura quando o passado é trazido para o presente e passa a adquirir novos significados.

 

Segundo o escritor, as experiências vividas no passado ajudam a compreender acontecimentos do presente. Essa relação é um dos elementos que atravessam sua produção literária.

 

DITADURA E RELAÇÕES FAMILIARES

 

A trilogia O Lugar Mais Sombrio apresenta personagens que atravessam a infância, juventude e parte da vida adulta em meio à repressão, censura e autoritarismo da ditadura militar.

 

Hatoum explicou, porém, que o período histórico não é o único foco dos romances. Para ele, a relação entre os integrantes das famílias ocupa uma posição central na narrativa.

 

Em Dança de Enganos, a história é contada principalmente pela perspectiva de Lina, que revisita acontecimentos de sua própria trajetória e descobre fatos que permaneceram ocultos durante anos.

 

O escritor também contou que utilizou como referência diários e relatos de amigos que foram presos e torturados durante a ditadura. Apesar de ter se impressionado com os testemunhos, afirmou que recorreu principalmente à imaginação para transformar o material em literatura.

 

Hatoum também relacionou a trilogia ao cenário político brasileiro e disse que a obra representa uma forma de se posicionar diante de períodos de autoritarismo e das manifestações que defendiam o retorno daquele regime.

 

ENTRADA NA ACADEMIA BRASILEIRA DE LETRAS

 

Recentemente, Milton Hatoum tomou posse como integrante da Academia Brasileira de Letras (ABL). O escritor destacou a importância de representar a Amazônia na instituição e afirmou que continua dedicado às atividades que marcaram sua trajetória, como escrever, ler e participar de debates sobre literatura.

 

A participação na Flipelô atraiu um grande público e lotou o auditório do Museu Eugênio Teixeira Leal.

 

EMPATIA COMO RESPOSTA AOS DESAFIOS ATUAIS

 

Durante o encontro, Hatoum também falou sobre a importância da empatia diante dos problemas enfrentados pela sociedade.

 

Para o escritor, a capacidade de considerar as necessidades do outro representa um contraponto ao individualismo e pode contribuir para enfrentar momentos de crise.

 

EDUCAÇÃO E ESCOLA PÚBLICA

 

A educação também esteve entre os assuntos abordados pelo escritor. Hatoum defendeu a reconstrução da escola pública e destacou a importância da educação para a formação da cidadania e para a redução das desigualdades.

 

Ao falar sobre sua própria trajetória, ele lembrou a professora Maria Luiza Freitas Pinto, responsável por alfabetizá-lo em Manaus e uma das primeiras pessoas a acreditar em seu talento para a escrita.

 

Hatoum contou que, anos depois, quando publicou seu primeiro livro, em 1989, a professora apareceu em uma sessão de autógrafos e mostrou uma antiga redação escrita por ele quando ainda era criança. Ela havia guardado o texto porque acreditava que o aluno se tornaria escritor.

 

Maria Luiza morreu aos 104 anos e, segundo Hatoum, continuou acompanhando os lançamentos de seus livros até completar 100 anos.

 

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A décima edição da Flipelô começou na quarta-feira (5), em Salvador, e termina neste domingo. 

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