Existe a mentira ocasional, dirigida a finalidade compreensível, e a mentira patológica com a finalidade de fabricar histórias persistentes, desproporcionais e compulsivas
Mentir faz parte do comportamento humano. Em diferentes situações, uma pessoa pode esconder informações para preservar a própria intimidade, evitar conflitos, proteger relacionamentos ou obter alguma vantagem social.
Existe, porém, uma diferença entre uma mentira ocasional e a chamada mentira patológica, também conhecida como pseudologia fantástica ou mitomania.
Nesse segundo caso, a fabricação de histórias se torna persistente, desproporcional e, em algumas situações, aparentemente compulsiva. O comportamento pode passar a fazer parte do modo como a pessoa se relaciona com os outros e causar prejuízos sociais, profissionais e afetivos.
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Apesar de ser descrita na literatura psiquiátrica há mais de um século, a pseudologia fantástica continua sendo uma condição controversa. Atualmente, ela não é reconhecida como um diagnóstico independente pelos principais sistemas de classificação psiquiátrica.
Ainda assim, estudos contemporâneos apontam que a mentira patológica pode estar associada a sofrimento significativo e dificuldades importantes na vida cotidiana.
COMO SÃO AS HISTÓRIAS DE UM MITÔMANO?

As histórias contadas por alguém com esse padrão de comportamento nem sempre são completamente inventadas. Muitas podem partir de acontecimentos reais que, ao longo do tempo, são modificados, aumentados ou ornamentados.
Em alguns casos, o narrador aparece como protagonista de situações extraordinárias, como alguém que passou por experiências incomuns, realizou feitos improváveis ou foi vítima de acontecimentos dramáticos.
As histórias também podem ser apresentadas com riqueza de detalhes, tornando difícil distinguir inicialmente o que corresponde à realidade e o que foi acrescentado.
Um aspecto importante é que a mentira patológica não deve ser confundida automaticamente com delírio. Em um quadro delirante, a pessoa mantém uma convicção rígida mesmo diante de evidências contrárias. Já na pseudologia fantástica, pode haver reconhecimento de que determinadas histórias não aconteceram como foram contadas.
A MITOMANIA É UM TRANSTORNO DE PERSONALIDADE?

Não necessariamente.
Pesquisas apontam que a mentira patológica pode aparecer em diferentes contextos clínicos e estar associada a diferentes transtornos psiquiátricos. Por isso, não é adequado considerar que toda pessoa que mente de forma patológica tenha um determinado transtorno de personalidade.
Uma revisão de estudos sobre o tema também encontrou diferentes possíveis motivações para o comportamento, incluindo busca por atenção, necessidade de valorização pessoal e tentativa de construir uma determinada imagem diante dos outros.
Dessa forma, a mitomania é mais bem compreendida como um fenômeno psicopatológico que pode aparecer em diferentes condições e organizações de personalidade.
O QUE ACONTECE COM QUEM CONVIVE COM UM MENTIROSO POR ANOS?
Um dos aspectos menos discutidos está nos efeitos da mentira persistente sobre as pessoas que convivem com ela.
No início, familiares, amigos, colegas de trabalho e outras pessoas podem acreditar nas histórias. Com o tempo, porém, surgem contradições, fatos que não se confirmam e versões diferentes para os mesmos acontecimentos.
A relação pode então mudar.
Em vez de perguntar simplesmente “isso é verdade?”, as pessoas passam a interpretar o discurso de outra maneira: “essa é a versão que ele está contando”.
Depois de muitas experiências semelhantes, algumas pessoas deixam de confrontar cada contradição. Não necessariamente porque acreditam, mas porque discutir constantemente o que é verdadeiro ou falso pode gerar desgaste emocional e conflitos repetitivos.
Nesse tipo de relação, o círculo social pode começar a selecionar o que vale a pena verificar e o que será simplesmente ignorado.
Essa adaptação relacional é considerada uma hipótese plausível para entender determinados vínculos, mas não é uma característica da mitomania já demonstrada de forma definitiva por estudos controlados.
QUANDO A MENTIRA DEIXA DE ENGANAR

É justamente aí que aparece um dos aspectos mais curiosos do fenômeno.
A mentira pode continuar sendo contada mesmo depois de perder parte da capacidade de convencer.
A pessoa narra, os outros escutam, poucos acreditam integralmente e, ainda assim, a interação continua.
Em alguns relatos clínicos, a narrativa pode adquirir uma dimensão compartilhada, envolvendo não apenas quem conta as histórias, mas também as pessoas ao redor, que passam a compreender e antecipar esse padrão de comportamento.
POR QUE CONFRONTAR NEM SEMPRE RESOLVE?

Do ponto de vista terapêutico, simplesmente confrontar cada mentira pode não ser a melhor estratégia.
Abordagens descritas na literatura destacam a importância da construção de vínculo, de uma escuta que não seja hostil e da identificação de possíveis condições psiquiátricas associadas.
Isso não significa aceitar como verdade tudo o que é contado, mas evitar transformar cada conversa em uma disputa permanente para descobrir quais afirmações são verdadeiras e quais não são.
A compreensão das razões que levam uma pessoa a sustentar determinada narrativa pode ser mais produtiva do que apenas desmenti-la repetidamente.
UMA RELAÇÃO CONSTRUÍDA EM TORNO DA MENTIRA

Fotos: Reprodução
Talvez um dos aspectos mais intrigantes da mentira patológica seja o efeito do tempo.
Quando o comportamento se prolonga por anos, ele pode deixar de ser apenas uma característica individual e passar a influenciar toda a dinâmica das relações.
Nesse cenário, familiares, amigos e colegas podem reconhecer que determinadas histórias provavelmente não são verdadeiras. Até mesmo quem as conta pode, em algumas situações, perceber a distância entre a narrativa e os fatos.
Ainda assim, a história continua sendo repetida.
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Por isso, compreender por que aquela narrativa precisa existir e qual função ela desempenha na vida da pessoa pode ser clinicamente mais importante do que simplesmente provar que a história é falsa.