Estudo da USP aponta que combinação de calor, seca e alta concentração de CO? pode elevar produtividade da soja em até 50%, porém com perda de proteína e amido nas sementes.
Um estudo conduzido por pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) revelou que as mudanças climáticas podem provocar um aumento significativo na produção de soja, mas também comprometer a qualidade nutricional do grão. A pesquisa, publicada na revista científica Food Research International, analisou os impactos combinados do aumento de dióxido de carbono (CO?), das altas temperaturas e da seca sobre a cultura da soja.
Utilizando modelagem preditiva baseada em inteligência artificial, os cientistas concluíram que, sob o chamado “efeito triplo” das mudanças climáticas, a soja pode produzir até 50% mais grãos. No entanto, as sementes apresentariam redução de aproximadamente 20% no teor de amido e 6% na quantidade de proteína.
Os pesquisadores também identificaram um aumento expressivo de aminoácidos nos grãos, chegando a 175%, resultado considerado inesperado pelos cientistas.
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O estudo foi liderado pelo Laboratório de Fisiologia Ecológica de Plantas (Lafieco), do Instituto de Biociências da USP. Segundo o coordenador da pesquisa, Marcos Buckeridge, a diminuição de proteínas e amido pode afetar diretamente o valor nutricional da soja, amplamente utilizada na alimentação animal.
“O grão perde parte da energia e da qualidade nutricional. Ainda precisamos entender melhor os impactos desse aumento de aminoácidos e como isso afeta os animais e a cadeia produtiva”, explicou o pesquisador.
De acordo com o estudo, o aumento da concentração de CO? no ambiente funciona como um fator de estímulo ao crescimento das plantas, fenômeno já conhecido pela ciência. O gás favorece a fotossíntese e ajuda a reduzir a perda de água pelas folhas, permitindo que a planta resista melhor à seca.
Os experimentos mostraram que, isoladamente, o aumento do CO? elevou a produção de grãos em até 142%. Já as altas temperaturas e a seca provocaram redução de até 91% e 60% no rendimento da lavoura, respectivamente.
A grande surpresa dos pesquisadores foi perceber que, quando os três fatores atuam juntos, o resultado não segue um comportamento linear. Em vez de apenas reduzir a produtividade, o conjunto de estresses altera profundamente o metabolismo da planta.
Segundo Buckeridge, o carbono absorvido pela soja deixa de ser utilizado principalmente para formação de amido e passa a ser direcionado para produção de fibras, como celulose e hemicelulose. Isso modifica a composição final da semente.
Para chegar às conclusões, os cientistas utilizaram experimentos controlados em câmaras especiais capazes de aumentar artificialmente a temperatura e a concentração de dióxido de carbono. A seca foi simulada por meio da redução da irrigação.
Os dados coletados foram analisados com ferramentas de inteligência artificial e modelos de aprendizado de máquina, desenvolvidos em parceria com pesquisadores do Instituto de Ciências Matemáticas e de Computação (ICMC) da USP.
A equipe acredita que os resultados podem ajudar na criação de modelos mais precisos para prever os impactos das mudanças climáticas na agricultura mundial, inclusive em estudos utilizados pelo Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC).
O próximo passo da pesquisa será identificar os genes responsáveis pelas respostas da soja aos diferentes fatores de estresse climático. A expectativa é desenvolver variedades mais resistentes, capazes de manter a produtividade sem comprometer a qualidade nutricional dos grãos.
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Os pesquisadores também estudam se outras culturas agrícolas podem apresentar comportamento semelhante diante dos efeitos combinados das mudanças climáticas.