Os impactos de Belo Monte, as promessas da Coalizão LEAF e os desafios da agricultura familiar revelam o retrato desigual da Amazônia paraense
Um ponto vermelho no meio do Pará chama a atenção ao observar de perto o mapa das cinco amazônias – metodologia usada pelo Amazônia 2030 para classificar as diferentes zonas dentro da Amazônia Legal. Trata-se de Vitória do Xingu, inserida na chamada “Amazônia desmatada”, cercada por áreas de floresta sob pressão. Com um dos maiores PIB per capita do estado (R$ 274 mil em 2021), essa riqueza nem sempre se reflete no cotidiano da população.
A construção da Usina Hidrelétrica de Belo Monte mudou o curso do rio Xingu, deslocou dezenas de milhares de pessoas e provocou a morte de mais de 85 mil peixes entre 2015 e 2019, segundo o Ministério Público Federal.
Embora a concessionária Norte Energia fale em “legado de desenvolvimento sustentável”, os impactos seguem marcantes: modos de vida de pescadores e comunidades tradicionais foram comprometidos, e as mudanças climáticas apenas ampliam vulnerabilidades.
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Em junho deste ano, por exemplo, a zona rural, onde vivem pequenos produtores e famílias que dependem da agricultura de subsistência, enfrentou grandes prejuízos. As chuvas dificultaram o escoamento da produção, tornaram as estradas vicinais quase intransitáveis e agravaram ainda mais a já delicada situação socioeconômica da comunidade.

Foto: Reprodução
O contraste entre crescimento econômico e realidade social é evidente. Desde 2012, o PIB per capita do município aumentou mais de 30 vezes. Porém, dos 16,5 mil moradores, só 7,62% têm acesso ao esgotamento sanitário e apenas 2,4% das vias são urbanizadas. “Os municípios não tinham histórico ou competência técnica para planejar e mitigar impactos. As decisões foram difusas e, muitas vezes, enviesadas”, critica André Villas-Bôas, secretário-executivo da Rede Xingu+ e sócio-fundador do Instituto Socioambiental (ISA).
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A Rede Xingu+, que reúne 53 organizações no Corredor Xingu de Diversidade Socioambiental, questiona o verdadeiro legado de Belo Monte e os caminhos de desenvolvimento no território. Afinal, a “Vitória” que dá nome ao município é de quem? O brasão local, com uma vaca e um peixe, simboliza a economia entre pecuária e pesca, agora transformada em atrativo turístico não pela prática artesanal das comunidades, mas pela pesca esportiva. Basta buscar “pesca Vitória do Xingu” na internet para encontrar campeonatos, e não a atividade de pescadores tradicionais.
Fonte: O Eco