Nova pesquisa busca explicar como o ciclo hormonal das mulheres altera os efeitos de substâncias psicodélicas e pode abrir caminhos para terapias mais precisas.
Um novo capítulo começa a ser escrito no campo da ciência psicodélica. A ONG Hystelica surge com a proposta inédita de investigar como substâncias que alteram a consciência afetam de maneira específica o corpo e a mente das mulheres um tema historicamente negligenciado pela pesquisa científica. Já se sabe que hormônios como estradiol e progesterona influenciam essas experiências, mas os mecanismos exatos ainda permanecem pouco compreendidos.
À frente da iniciativa está Grace Blest-Hopley, neurocientista de 34 anos e reservista do Exército britânico. Além da Hystelica, ela lidera áreas de pesquisa na empresa NWPharmaTech e atua na ONG Heroic Hearts Project, voltada à saúde mental de veteranos de guerra um grupo que enfrenta altos índices de suicídio tanto nos Estados Unidos quanto no Reino Unido.
Em artigo publicado em 16 de janeiro no boletim da Maps (Associação Multidisciplinar para Estudos Psicodélicos), Blest-Hopley defende a criação de um novo campo de estudos que leve em conta as particularidades biológicas femininas. O objetivo é compreender se diferentes fases do ciclo hormonal interferem no metabolismo e nos efeitos de drogas como ayahuasca, psilocibina e MDMA, cada vez mais utilizadas em pesquisas clínicas e em tratamentos experimentais para depressão e transtorno de estresse pós-traumático.
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O interesse científio se apoia em bases neurobiológicas. O estrogênio, grupo hormonal ao qual pertence o estradiol, influencia diretamente a serotonina neurotransmissor central nos efeitos psicodélicos além de dopamina e glutamato. Essas substâncias atuam, em especial, no receptor 5HT2a, ativado durante estados alterados de consciência, o que reforça a hipótese de uma interação direta entre hormônios femininos e experiências psicodélicas.
Relatos de mulheres que utilizam psicodélicos também chamam atenção. Algumas afirmam notar mudanças em seus ciclos menstruais, incluindo maior regularidade. Curiosamente, a própria descoberta do LSD por Albert Hofmann ocorreu durante pesquisas voltadas à criação de medicamentos ginecológicos, ainda na década de 1930 um detalhe histórico que reforça a ligação entre o tema e a saúde feminina.
Agora, Blest-Hopley quer ir além de evidências anedóticas e estudos em animais. Em parceria com o King’s College de Londres, a Hystelica lançou uma pesquisa com voluntárias que responderão a questionários antes e depois de experiências psicodélicas planejadas. A meta é identificar padrões, potenciais benefícios terapêuticos e riscos específicos para a saúde das mulheres.
Segundo a pesquisadora, a ciência psicodélica repete um problema comum a outras áreas: a predominância masculina nas amostras e a exclusão frequente de mulheres menstruadas dos estudos. Para ela, isso limita a compreensão real dos efeitos dessas substâncias. “Para que os psicodélicos cumpram sua promessa terapêutica, o sexo precisa deixar de ser tratado como uma variável de confusão e passar a ser reconhecido como um fator determinante”, escreveu.
Resultados iniciais indicam que a psilocibina pode reduzir oscilações emocionais no período pré-menstrual e até ajudar em quadros de depressão pós-parto. A pesquisadora também pretende investigar impactos sobre dores crônicas femininas e sintomas do climatério.
Há poucos anos, Blest-Hopley não colocava as questões de gênero no centro de sua agenda científica. Seu foco estava no uso terapêutico de psicodélicos para soldados traumatizados em retiros internacionais. Hoje, porém, ela amplia o olhar mesmo sabendo que estudos voltados a gênero podem enfrentar maior resistência para obter financiamento, especialmente em países onde o tema se tornou politicamente sensível.
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Ainda assim, a proposta da Hystelica sinaliza uma mudança importante: compreender como diferenças biológicas moldam experiências psicodélicas pode ser decisivo para tornar essas terapias mais seguras, eficazes e inclusivas.