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O Dilema do Polo Industrial de Manaus: Eficiência Chinesa ou Segurança Americana?
Foto: Reprodução / PORTAL DO ZACARIAS

* Por Plínio César A. Coêlho - No cotidiano do Polo Industrial de Manaus (PIM), a escolha de como pagar as importações de componentes asiáticos deixou de ser uma mera decisão contábil para se tornar um jogo de xadrez geopolítico. No centro dessa disputa estão o SWIFT, o sistema tradicional liderado pelo dólar, e o CIPS, a alternativa chinesa que promete agilidade e custos menores para os setores eletroeletrônico e de informática.

 

 

O PODER ESTRUTURAL E A INÉRCIA DE US$ 160 MILHÕES

 

Para entender por que o PIM resiste à mudança, precisamos recorrer ao conceito de "Poder Estrutural" da economista política Susan Strange. Segundo ela, o poder real não é apenas influenciar decisões, mas a capacidade de decidir as regras do jogo e a infraestrutura pela qual os outros devem operar. O SWIFT, embora tecnicamente seja uma cooperativa, é a expressão desse poder: ele é o sistema nervoso central da hegemonia do dólar.

 

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Essa estrutura alimenta o que investigo em minha tese como a Hipótese da Inércia (H4). Os dados de 2024 mostram o PIM importando cerca de US$ 8 bilhões da China. Ao aplicar uma taxa média de 2% na triangulação pelo dólar, vemos que as empresas queimam US$ 160 milhões anuais apenas para permanecer no sistema tradicional. Por que os gestores aceitam esse "prejuízo"? Porque o Poder Estrutural dos EUA torna o custo da saída muito mais alto que o custo da permanência.

 

 

O BRAÇO FORTE DO TESOURO: O EFEITO OFAC

 

A ferramenta prática desse poder é o OFAC (Office of Foreign Assets Control). Este órgão do Tesouro dos EUA monitora o SWIFT e atua como o "policiamento" das finanças globais. Mesmo em Manaus, uma empresa que utiliza o dólar deve seguir as normas do OFAC, sob risco de sofrer sanções extraterritoriais — o "beijo da morte" que pode banir uma multinacional do comércio mundial e dos mercados de capitais ocidentais.

 

Essa estrutura gera o que David Harper (2003) chama de Incerteza Radical. O gestor não teme apenas a volatilidade da moeda, mas a insegurança jurídica. Para uma gigante de informática, a eficiência marginal com o Yuan não compensa o risco de entrar no radar de sanções de Washington.

 

 

A LIÇÃO DE ARRIGHI: COMO QUEBRAR A ARMADILHA?

 

No entanto, a história nos ensina que hegemonias monetárias não são eternas. Como analisa Giovanni Arrighi em sua teoria dos Ciclos Sistêmicos de Acumulação, o capitalismo global passou por sucessivas transições de poder — do ciclo britânico ao atual ciclo americano. Em cada uma dessas passagens, o antigo centro financeiro resistiu através do controle da infraestrutura (o Poder Estrutural de Strange), mas acabou superado pela nova realidade do comércio real.

 

A "armadilha da inércia" que hoje trava o PIM só será rompida quando o desenho das instituições brasileiras mudar. Assim como o dólar substituiu a Libra Esterlina através de novos acordos institucionais, a transição para o Yuan exige um trabalho institucional coordenado.

 

Não basta a China ser o maior parceiro comercial; é preciso que o Estado brasileiro ofereça garantias políticas e segurança jurídica que protejam as empresas no processo de diversificação de moedas. Sem essa ponte, o Polo Industrial de Manaus continuará refém de um sistema que privilegia a segurança de uma hegemonia em declínio em detrimento da boa eficiência do comércio que efetivamente movimenta o nosso futuro.

 

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* Plinio Cesar Albuquerque Coêlho é professor do Departamento de Economia da Universidade Federal do Amazonas (UFAM). É mestre em Administração pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e doutorando na Universidade de Ciências Empresariais e Sociais (UCES), em Buenos Aires.

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