Um aviso a todos que dependem da ZFM: seu emprego, sua renda e seus negócios quase foram destruídos em 2022. E o risco ainda não passou
*Plínio Cesar A Coêlho - Em 2022, o então presidente Jair Bolsonaro assinou decretos que reduziam o Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) em até 35% em todo o país. O objetivo declarado era aquecer a economia nacional. O efeito prático, porém, era um tiro certeiro no coração da Zona Franca de Manaus.
A lógica é brutalmente simples: se o IPI cai no Sul e no Sudeste, a vantagem tributária de quem produz no meio da floresta simplesmente desaparece. E sem essa vantagem, não há competitividade que resista.
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O custo logístico de operar em Manaus é altíssimo — frete, insumos, distância dos grandes centros. A única coisa que equilibra a conta é o diferencial de impostos.
Com a redução nacional do IPI, esse diferencial viraria pó.
As consequências previstas eram imediatas e devastadoras: fechamento de empresas, demissão em massa, desindustrialização da Amazônia.
Políticos amazonenses, empresários e trabalhadores soaram o alarme. A bancada do Amazonas no Congresso entrou em campo. A Suframa se mobilizou.
E o senador Flávio Bolsonaro, filho do presidente? Ficou só olhando.
Não houve discurso inflamado em defesa da ZFM. Não houve articulação nos bastidores para barrar os decretos. Não houve emenda protetiva.
Enquanto o pai assinava a sentença de morte da Zona Franca de Manaus, o herdeiro político da família assistiu calado, como quem espera o desfecho de um jogo que não lhe diz respeito.
Quem salvou a ZFM foi o Supremo Tribunal Federal. O ministro Alexandre de Moraes suspendeu os efeitos dos decretos em caráter liminar, acatando o argumento de que a medida violava a proteção constitucional da zona franca.
Em agosto de 2022, sob forte pressão, o governo recuou e publicou um novo decreto, excluindo mais de 170 produtos fabricados em Manaus — incluindo motocicletas, eletroeletrônicos, TV e concentrados de refrigerantes — da redução de 35% do IPI.A zona franca sobreviveu. Mas sobreviveu por um triz. E sobreviveu apesar do presidente, não por causa dele. E certamente não por ação de seu filho.
O aviso está dado: a Zona Franca de Manaus não tem herdeiro na política nacional. Tem, isso sim, gente que já mostrou que não se importa em vê-la definhar.
O risco não passou. Ele apenas se disfarçou. Amanhã pode ser uma PEC, uma medida provisória, um contingenciamento de recursos da Suframa, uma nova tentativa de nivelar por baixo os incentivos fiscais. O método muda; o objetivo, não.
Por isso, amazonenses, fica o alerta final:Cuidado com quem só olha enquanto a faca corta o seu emprego. Cuidado com quem já tentou matar a Zona Franca de Manaus uma vez. E cuidado com o silêncio de quem deveria defender os seus interesses em Brasília.
Seu negócio, seu salário, seu futuro — ninguém vai defender por você.
O aviso está dado.
Portanto, cuidado com o seu voto para presidente em 2026.
Quem já tentou matar a Zona Franca de Manaus uma vez pode tentar de novo. Quem ficou só olhando enquanto o pai assinava os decretos não merece a sua confiança.
A memória de 2022 precisa estar viva na urna.
O Amazonas não pode esquecer. E não pode perdoar quem quis destruir o seu sustento.
Salve a zona franca. E cobre de quem pedir o seu voto: de que lado você estava quando Manaus quase perdeu tudo?
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*Plinio Cesar Albuquerque Coêlho é professor do Departamento de Economia da Universidade Federal do Amazonas (UFAM). É mestre em Administração pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e doutorando na Universidade de Ciências Empresariais e Sociais (UCES), em Buenos Aires.