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ONU alerta: planeta entra em colapso hídrico e milhões já vivem sem água suficiente
Foto: Divulgação

Uso excessivo da água doce e mudanças climáticas empurram o mundo para uma crise estrutural sem precedentes.

Pesquisadores ligados à Organização das Nações Unidas (ONU) alertam que o planeta já entrou em uma fase de “falência hídrica”, caracterizada pelo uso excessivo e insustentável da água doce em um cenário agravado pelas mudanças climáticas. Segundo os estudos, muitas regiões não conseguem mais se recuperar dos períodos frequentes de escassez, transformando crises temporárias em um problema crônico.

 

Atualmente, cerca de 4 bilhões de pessoas, quase metade da população mundial, enfrentam escassez severa de água por pelo menos um mês ao ano. Em diversas partes do mundo, os efeitos já são visíveis: reservatórios secando, cidades afundando, colheitas comprometidas, racionamento, além do aumento de incêndios florestais e tempestades de poeira.

 

Os sinais desse colapso aparecem em regiões distintas do planeta. No Irã, por exemplo, a capital Teerã sofre com reservatórios esgotados após anos de secas e uso excessivo da água, cenário que também alimenta tensões políticas. Nos Estados Unidos, a demanda já supera a oferta do Rio Colorado, responsável pelo abastecimento de sete estados.

 

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De acordo com especialistas, a falência hídrica vai além da simples falta de água. Trata-se de uma condição estrutural que ocorre quando a retirada supera a capacidade natural de reposição e quando ecossistemas essenciais como aquíferos e áreas úmidas são degradados a ponto de não conseguirem se regenerar.

 

Um estudo recente do Instituto da Universidade das Nações Unidas para Água, Meio Ambiente e Saúde conclui que o mundo ultrapassou a fase das crises pontuais. Muitos sistemas hídricos não conseguem mais retornar às condições naturais históricas, entrando em estado de colapso permanente.

 

Seca no rio Paraguai. — Foto: Jorge Adorno/Reuters

Foto: Reprodução

 

Na prática, o processo segue um padrão. Inicialmente, recorre-se à perfuração de poços mais profundos, à ampliação de bombas e à transferência de água entre bacias. Com o tempo, surgem os impactos ocultos: rios tornam-se sazonais, lagos diminuem, a água salgada invade aquíferos e o solo começa a afundar fenômeno conhecido como subsidência. Na Cidade do México, por exemplo, o terreno afunda cerca de 25 centímetros por ano, um dano irreversível.

 

O relatório Global Water Bankruptcy, publicado em janeiro de 2026, aponta que mais de 6 milhões de quilômetros quadrados do planeta já sofrem com afundamento do solo causado pela superexploração de águas subterrâneas. Estima-se que cerca de 2 bilhões de pessoas vivam nessas áreas, incluindo grandes centros urbanos como Jacarta, Bangkok e Ho Chi Minh.

 

A agricultura, responsável por aproximadamente 70% do consumo global de água doce, é um dos setores mais afetados. A escassez eleva custos, reduz a produção, provoca desemprego e ameaça a segurança alimentar e a estabilidade social. Hoje, mais de 3 bilhões de pessoas e mais da metade da produção mundial de alimentos estão concentradas em regiões onde a capacidade de armazenamento de água já é instável.

 

Imóvel de dois andares, parte de vilarejo intencionalmente submerso na década de 1980 na Grécia, volta à superfície após seca severa na região, em 3 de setembro de 2024. — Foto: Stelios Misinas/ Reuters

Foto: Reprodução

 

As secas também se intensificaram nos últimos anos. Entre 2022 e 2023, cerca de 1,8 bilhão de pessoas enfrentaram algum grau de seca severa. Os reflexos vão além da água: aumento nos preços dos alimentos, crises energéticas, problemas de saúde, migrações forçadas e conflitos sociais.

 

Especialistas comparam a situação a uma falência financeira. Durante anos, a humanidade gastou mais “renda hídrica” do que recebia, recorrendo às reservas naturais como aquíferos e zonas úmidas. O problema é que essas reservas estão se esgotando. Em cinco décadas, o mundo perdeu mais de 4,1 milhões de quilômetros quadrados de áreas úmidas, fundamentais para armazenar, filtrar água e reduzir enchentes.

 

Além disso, a qualidade da água piora com a poluição, a salinização do solo e a intrusão de água salgada. As mudanças climáticas agravam ainda mais o cenário, reduzindo chuvas em várias regiões, aumentando a demanda agrícola e derretendo geleiras que funcionavam como grandes reservas naturais.

 

Apesar do alerta, muitos países continuam ampliando o uso da água para sustentar o crescimento urbano, a expansão agrícola, a indústria e, mais recentemente, grandes centros de dados voltados à inteligência artificial.

 

Para os pesquisadores, ainda há caminhos possíveis. Entre as soluções estão estabelecer limites reais de uso da água, proteger ecossistemas naturais, investir em eficiência hídrica, garantir justiça social no acesso ao recurso e planejar cidades e economias para consumir menos água.

 

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Segundo os especialistas, a falência hídrica pode se tornar um ponto de virada. Ou a humanidade aprende a viver dentro dos limites do planeta, ou enfrentará crises cada vez mais profundas e irreversíveis. 

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