Entre redes sociais, colapso educacional e crises demográficas, as novas gerações enfrentam um processo profundo de adoecimento e desadaptação
Os estudos sobre o futuro costumam oscilar entre o delírio tecnológico, o marketing disfarçado de previsão e discursos feitos para acalmar consciências inquietas. Quando se tornam edificantes demais, perdem sua razão de ser. Pensar o futuro exige observar as condições materiais, sociais e econômicas do presente e avaliar se há sinais concretos de mudança. Quando não há, a tendência é clara: os processos em curso se mantêm e tendem a se radicalizar.
As redes sociais, por exemplo, já demonstram seu potencial disruptivo sobre as democracias. Assim como a imprensa e a tradução da Bíblia para línguas vernáculas contribuíram para guerras religiosas na Europa do século 16 que, após enorme violência, abriram caminho para o Estado laico, o rádio foi instrumental para a ascensão do fascismo no século 20. Hoje, as plataformas digitais abalam os mecanismos de representação política de forma profunda.
Esse fenômeno tende a se reverter? Pouco provável. O ambiente digital é altamente monetizado e estruturalmente integrado à economia global. Sua extinção é improvável; sua radicalização, quase certa. Tentativas de regulação frequentemente implicam perda de competitividade, algo que a Europa conhece bem ao se comparar com Estados Unidos e China. O mais plausível é esperar novos transtornos, acompanhados da esperança — incerta de algum tipo de acomodação institucional.
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Diante desse cenário, é realista esperar uma educação capaz de preparar as novas gerações para lidar com tais impactos? Difícil acreditar. No Brasil, como em grande parte do mundo, os sistemas educacionais falham em aspectos básicos. Crianças que mal dominam leitura, escrita e matemática dificilmente conseguirão enfrentar os desafios sociais, políticos e econômicos que se anunciam.
A entrada da inteligência artificial em praticamente todas as esferas da vida inclusive na política tende a agravar ainda mais esse quadro. O desemprego estrutural deve crescer, assim como o número de pessoas tornadas economicamente irrelevantes. O que fazer com elas permanece uma pergunta sem resposta.
Nesse contexto, projeta-se um mundo cada vez mais envelhecido. Jovens tornam-se raros. Já surgem sinais de um processo que pode ser descrito como extinção simbólica das novas gerações: desordem cognitiva, incapacidade de lidar com ambientes hostis, instabilidade emocional, insegurança crônica, radicalização de comportamentos antissociais e queda acentuada da capacidade reprodutiva e de autossustentação.
O meio ambiente social sempre foi hostil se não fosse, não haveria seleção natural. O adoecimento mental das gerações mais jovens, portanto, pode ser analisado também sob a ótica da adaptação: espécies que não se ajustam às condições do meio tendem a desaparecer. A ironia é que a extinção dos jovens implica, inevitavelmente, na extinção da própria espécie que eles deveriam perpetuar.
A humanidade, afinal, talvez nunca tenha sido verdadeiramente racional. Mais do que sapiens, é uma espécie movida por impulsos passionais, desequilíbrio e entropia um processo de desorganização crescente que hoje se torna cada vez mais visível.
A redução do número de jovens é resultado de decisões individuais tomadas por homens e mulheres que passaram a enxergar os filhos como ônus, e não como bônus. Trata-se de um desdobramento histórico da emancipação feminina, que incluiu, como condição de sobrevivência no mercado de trabalho, a diminuição da maternidade compulsória.
Soma-se a isso a escolha crescente por relações afetivas menos duradouras. Compromissos amorosos sólidos passaram a ser vistos como fontes de estresse e risco. No mundo corporativo, departamentos de compliance conhecem bem os custos do envolvimento emocional. O amor, muitas vezes, é percebido como obstáculo aos negócios.
Esse cenário tende a mudar? A emancipação feminina será revertida? Evidentemente, não a menos que uma catástrofe civilizatória leve a humanidade de volta a formas pré-históricas de organização social.
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Por fim, o capitalismo permanece estruturado sobre aquilo que Santo Agostinho chamou de concupiscência: a busca incessante e desmedida pelos objetos do desejo. Esse impulso transforma adultos em crianças envelhecidas, dispostas a tudo para alcançar aquilo que querem. O capitalismo é, em essência, a política da concupiscência. E não há sinais de que isso vá mudar.