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Padre gamer concilia fé, animes, jogos e vida sacerdotal
Foto: Reproduçao

Edson Ribeiro relembra infância, seminário, lives, relação com fiéis, limites diante das telas, além de muitas histórias marcadas pelo bom humor

Um menino que não queria acompanhar a mãe à missa passou a frequentar as celebrações depois de fechar um acordo com o padre Edson Ribeiro. Ao fim de cada missa, o sacerdote apresenta dois jogos de videogame. O jovem escolhe um deles e leva para casa emprestado.

 

Certo dia, o garoto apareceu sozinho.

 

Ele falou: ‘Minha mãe não pôde vir hoje, mas eu não deixei de vir’. Eu disse: ‘Olha, então tem gerado frutos’

 

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Padre da Paróquia São José Operário, em Ubá, cidade de Minas Gerais, Edson divide os compromissos religiosos com uma paixão que começou muito antes do sacerdócio. Ele cresceu jogando Atari e Master System, levou um Game Boy para o seminário e ainda guarda ao lado da televisão um cartucho de "Super Mario Kart".

 

Confira a entrevista na íntegra:

 

O padre não começou a jogar para atrair jovens à Igreja. Os videogames já faziam parte de sua vida, quando ele percebeu que aquele repertório poderia abrir conversas sobre fé, relações humanas e comportamento.

 

Nas lives e nos vídeos publicados nas redes sociais, surgem perguntas improváveis: já quiseram saber se é pecado desistir do Vasco, se cristãos podem jogar títulos violentos e até o que a sexualização de personagens revela sobre a maneira como as pessoas enxergam o corpo do outro.

 

O tom pode começar em brincadeira. Nem sempre termina nela.

 

UM PADRE QUE NÃO PARECIA PADRE

 

Edson nasceu em Palma, cidade da Zona da Mata mineira, e cresceu em uma família católica. Apesar da formação religiosa, não se via como alguém especialmente devoto durante a adolescência.

 

Eu nunca fui uma pessoa muito religiosa. Era uma pessoa mais solta, digamos assim

 

A aproximação com a fé ganhou força por volta dos 16 ou 17 anos, conta ele. Aos poucos, passou a compreender melhor o Evangelho e sentiu que poderia se dedicar mais à Igreja. Se tornar padre, porém, ainda parecia distante.

 

“Eu sempre tinha essa imagem do padre como um ser intocável, uma coisa muito fora da realidade.”

 

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A percepção mudou quando Edson passou a conviver mais de perto com sacerdotes. Viu que, por trás da função religiosa, havia pessoas com alegrias, dificuldades e frustrações.

 

“O padre é aquele que preside o culto, mas também é um ser humano que vive suas alegrias, tristezas e dificuldades. Alguém tirado do meio do povo para o povo.”

 

A decisão de entrar para o seminário veio aos 21 anos. A notícia causou estranhamento entre pessoas próximas.

 

“Muita gente teve essa reação: ‘Mas não combina muito com a personalidade dele’. Eu mesmo tive essas dúvidas na época.”

 

O VIDEOGAME NÃO FICOU DO LADO DE FORA


Edson não sabe dizer quando começou a jogar. As lembranças dos videogames se misturam às da infância com os irmãos e amigos.

 

“Desde que me entendo por gente, jogo videogame. Sou alguém que nasceu nos anos 1980 e viveu os anos 1990. Peguei Atari, Master System e tudo.”

 

O primeiro título de que se recorda é "Enduro", do Atari. Depois vieram "Sonic", no Master System, e inúmeras corridas em "Super Mario Kart".

 

O meu jogo favorito da vida é ‘Super Mario Kart’. Joguei a vida inteira e jogo até hoje.Tenho um cartucho que fica aqui do meu lado. De vez em quando, eu ligo na televisão e jogo.

 

“Tem coisa que é de quando eu era pequeno, tem coisa que tive durante um período. Tem o Game Boy que eu usava no seminário para jogar. Vai sendo guardado", descreve, ao ser perguntado sobre a porta de entrada no mundo dos games.

 

Hoje, Edson usa com mais frequência Xbox, PlayStation 5 e Nintendo Switch. Os aparelhos mais antigos integram uma coleção cujo tamanho nem ele consegue precisar.

 

“Aí você fez uma pergunta difícil, viu, Pedro?”, responde, entre risos, ao ser questionado sobre a quantidade de consoles e jogos.

 

Padre Edson Ribeiro

 

A conta se perdeu entre cartuchos, discos, compras digitais e títulos adquiridos em promoções para serem jogados algum dia. O chamado backlog, a fila de jogos ainda não iniciados ou concluídos, também cresceu.

 

LIVES


As lives só apareceram décadas mais tarde, durante a pandemia de Covid-19. Com as pessoas dentro de casa, Edson viu transmissões sobre culinária, conversas e atividades cotidianas se multiplicarem na internet.

 

Ele já transmitia celebrações e momentos de oração. Resolveu mostrar também um pouco do que fazia fora deles.

 

“Tinha gente fazendo live cozinhando, fazendo massa de pão, live para conversar. Não era uma coisa específica”, lembra. “Eu pensei: ‘Por que não faço uma live também, uma coisa mais pessoal?’”

 

As restrições acabaram. as partidas continuaram.

 

O público passou a enviar perguntas durante as transmissões, nos comentários dos vídeos, em mensagens privadas e até por e-mail. Algumas são religiosas. Outras parecem ter sido formuladas apenas para testar o senso de humor do padre.

 

Quase toda live aparece algum comentário assim. Alguém traz uma questão pelo humor, pela brincadeira, e aquilo acaba sendo um gancho para reflexões mais profundas.


Edson também joga com fiéis da própria paróquia e empresta títulos de sua coleção.

 

“Jogo direto. Sempre tem alguns que falam: ‘Vamos jogar, vamos marcar’. Tem gente que vem e pergunta se posso emprestar algum jogo."

 

A rotina, no entanto, segue uma ordem.

 

Durante o dia, ele se dedica a atendimentos, celebrações, visitas a enfermos e tarefas administrativas. As partidas e gravações ficam para os intervalos ou para depois das atividades, geralmente a partir das 20h ou 21h.

 

“Tenho uma regra de ouro. Em primeiro lugar está a minha vocação, o cuidado com o povo de Deus”, afirma. “Os jogos e o trabalho de evangelização usando a cultura pop ficam em segundo lugar.”

 

É PECADO DESISTIR DO VASCO?


Uma das perguntas que mais surpreenderam Edson veio de um torcedor: seria pecado abandonar o Vasco?

 

O padre não acompanha futebol de perto. Ainda assim, encontrou uma resposta.

 

Eu não imaginei que ia dar tanta repercussão. Foi chegando a torcedores, a páginas de torcida organizada, e eles acharam o máximo.

 

Edson usou a relação entre o torcedor e o clube para falar sobre a rapidez com que pessoas também são descartadas quando decepcionam ou deixam de corresponder às expectativas.

 

“Não era uma crítica ao time. Pelo contrário, era uma coisa de carinho”, diz. “Peguei esse gancho do desistir para falar sobre quando a gente desiste das pessoas, de como descarta as pessoas da própria vida.”

 

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Ele chama o recurso de “leitura comparada”. Um jogo, um personagem ou uma situação conhecida pelo público se torna o ponto de partida para outra conversa.

 

“Você pega um elemento de uma história e mostra: ‘Olha, tem algo de cristão nisso. Dá para fazer uma reflexão’. As pessoas falam: ‘Nossa, nunca tinha parado para pensar dessa forma’.”

 

O espanto também aparece entre católicos que não esperam encontrar um padre jogando diante de uma câmera.

 

“Quando comecei, eu tinha muito medo. Pensava: ‘Será que as pessoas vão entender? Será que não vão achar que o padre está perdendo tempo?’”

 

Segundo Edson, as críticas são raras. Parte do público se diverte de imediato. Outra parcela estranha faz perguntas e depois compreende o trabalho.

 

A aproximação atinge crianças e adolescentes, mas não apenas eles. Adultos que cresceram nos anos 1980 e 1990 reconhecem os jogos, os consoles e as referências daquele período.

 

São pessoas que também viveram essa realidade. Fazem um processo de identificação e se sentem à vontade para conversar

 

ENTRE O VIRTUAL E O REAL


Nem toda pergunta rende piada. Uma discussão recente tratou da pressão para que empresas criem personagens cada vez mais sexualizados.

 

Edson levou o assunto para além das telas.

 

“Às vezes, as pessoas olham para o outro apenas como um objeto e esquecem que ali existe uma pessoa por inteiro”, afirma. “São reflexões que extrapolam a evangelização e vão para o humano. Aí, abarca todo mundo.”

 

Quando o assunto são jogos violentos, o primeiro cuidado, segundo ele, deve ser a classificação etária.

 

“Se é um jogo com classificação para maiores de 18 anos, não é para todo mundo. O grande problema é pegar uma criança de oito anos e o pai dar esse jogo para ela.”

 

Padre Edson durante partida de videogame

 

Entre adultos, a avaliação passa pela capacidade de separar ficção e realidade.

 

“Uma pessoa que tem maturidade para entender que aquilo é uma ficção e não representa o que ela acredita ou faz na vida real, pode consumir”, diz. “É a mesma coisa que assistir a um filme de ação. Você assiste e nem por isso faz aquilo que está no filme.”

 

Edson evita definir um limite universal de horas diante do videogame. Defende, porém, que pais observem se a diversão começou a ocupar o espaço dos estudos, da convivência e das obrigações.

 

“O lúdico seduz. A pessoa quer continuar consumindo. Só que nem tudo é lazer”, afirma. “A criança pode deixar de estudar. Um adulto também pode deixar de fazer o trabalho.”

 

O interesse por uma carreira nos esportes eletrônicos também exige acompanhamento. Para o padre, o treinamento pode ser incentivado, desde que não prejudique o desenvolvimento do jovem.

 

A criança não deixa de frequentar a escola, porque está em uma escolinha de futebol. Precisa conciliar as duas coisas. No esporte eletrônico é a mesma coisa.

 

Fora dos games, Edson acompanha animes e mangás. Ao ser obrigado a escolher entre dois dos títulos mais conhecidos do gênero, não tenta escapar.

 

Naruto

 

“Eu sinto dizer, mas hoje prefiro ‘Naruto’.”

 

A preferência não significa desprezo por "Dragon Ball"; Edson elogia Akira Toriyama, criador da obra, mas diz se identificar mais com a profundidade das histórias escritas por Masashi Kishimoto, autor de "Naruto".

 

“‘Dragon Ball’ é muito bem escrito. Toriyama era um cara à frente do tempo. Mas ele era um autor de comédia. Já Kishimoto tem mais essa pegada de aventura e profundidade.”

 

A fé também pode aparecer em jogos que não foram criados como obras religiosas. Edson cita "Journey", no qual um viajante atravessa paisagens desertas em direção a uma montanha.

 

Journey tem um tom que fala sobre a jornada, quase um trajeto vocacional. Existe um sentido de fé ali no fundo.

 

Ele também experimentou "I Am Jesus Christ", título inspirado na vida de Jesus, mas ainda não conseguiu chegar ao final.

 

“Joguei só uma parte, não por achar ruim, mas por falta de tempo.”

 

ACEITAÇÃO DOS NERDS


Para Edson, animes, mangás e videogames ainda são rejeitados por algumas pessoas religiosas antes mesmo de serem conhecidos.

 

Padre Edson Ribeiro

Imagens Reprodução

 

“Há quem ache que não tem nada de bom, que não é de Deus. Os animes passam muito por isso. Os jogos também.”

 

O padre prefere olhar para quem acompanha essas histórias.

 

“Por trás delas existem pessoas que consomem esse conteúdo e que têm sede. Sede de Deus, sede da palavra, sede de conhecer melhor”, afirma.

 

Não é para olhar para esse universo e vê-lo como algo perdido, mas como algo para ser ganhado. Há corações ali.


A aposta de Edson não está em transformar toda partida em sermão. Está em conhecer a linguagem, dividir a experiência e deixar que a conversa avance.

 

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“Precisa de mais gente com coragem de ir até lá, entender aquilo de que essas pessoas falam e partilhar desses conteúdos”, diz. “É um campo fértil de evangelização.”

 

Fonte:Ig

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