O recente levantamento do Datafolha sobre o espectro ideológico brasileiro expôs um paradoxo que desafia a lógica partidária tradicional: 34% dos petistas se autodeclaram de direita, enquanto 14% dos bolsonaristas se identificam com a esquerda. Essa contradição aparente, porém, não deve ser lida como desconhecimento político do eleitorado. Ela reflete, sobretudo, a eficácia e a estratégia de comunicação adotadas pelos dois polos dominantes da política nacional e dá um indício de por que o lulismo é tão forte ainda hoje.
Para compreender essa dinâmica, é preciso abandonar a ideia de que o voto é puramente racional ou programático. A ciência política já demonstrou que a identidade partidária opera mais como vínculo afetivo e social que como aderência integral a um manifesto. No Brasil, lulismo e bolsonarismo funcionam como identidades “guarda-chuva”, ancoradas em lideranças personalistas. A adesão ao líder precede a análise das propostas, criando vínculos de lealdade que resistem a aparentes incoerências ideológicas.
É nesse terreno que o “petista de direita” se torna razoável, especialmente à luz da leitura do cientista político André Singer. Singer defende que há uma diferença estrutural entre o petismo histórico, programático e reformista, e o lulismo, que opera como reformismo conciliador, centrado na entrega material. O eleitor de baixa renda, frequentemente conservador nos costumes, não enxerga em Lula um símbolo revolucionário, mas um garantidor de bem-estar e estabilidade.
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Há, porém, uma camada frequentemente ignorada: o terreno onde cada liderança escolhe travar sua disputa simbólica com o eleitor. Para Lula, a comunicação é mais eficaz quando se ancora no voto econômico, em que ele pode reforçar os avanços sociais obtidos. Contudo, sempre que o lulismo é empurrado para o campo da moralidade e dos valores, perde potência.
A segurança pública é um exemplo. Quando o discurso se distancia do medo vivido pela população, abre-se uma fratura com parte expressiva da sociedade que, mesmo votando em Lula, não se identifica com essa leitura.
O bolsonarismo faz o movimento inverso. Desloca a política para o terreno simbólico que lhe é mais favorável: ordem e disciplina com elementos religiosos.
Ao moralizar o debate público, transforma dilemas complexos em batalhas entre certo e errado, mobilizando o eleitor emocionalmente. Se Lula tem vantagem quando a pergunta é “quem melhora a minha vida?”, Bolsonaro cresce quando a pergunta é “quem representa os meus valores?”. Enquanto o lulismo amplia sua base oferecendo estabilidade material, o bolsonarismo solidifica a sua criando pertencimento moral.
Não por acaso os números do Datafolha mostraram que 76% dos bolsonaristas se declaram de direita. Bolsonaro foi mais bem-sucedido em alinhar liderança e identidade ideológica. O bolsonarismo cobra um pedágio que o limita, a adesão integral — moral, econômica e comportamental —, enquanto o lulismo fez uma escolha de conviver com a heterogeneidade, unindo elite progressista e subproletariado conservador.
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Os “petistas de direita” não revelam confusão de parte do eleitorado, mas o modo como a política brasileira se organiza. Não estamos diante de eleitores desinformados ou confusos, mas de cidadãos que atribuem pesos distintos a temas distintos. Enquanto a direita busca coesão total, o lulismo sobrevive e ganha eleições justamente por sua capacidade de absorver contradições, trocando pureza ideológica por amplitude eleitoral.
Fonte: O Globo