Resultado da avaliação internacional precisa considerar desigualdades, trajetória dos estudantes, efeitos da pandemia e mudanças na cobertura escolar.
As avaliações educacionais são importantes ferramentas para identificar avanços, dificuldades e desigualdades nos sistemas de ensino. No entanto, interpretar seus resultados exige atenção aos critérios utilizados, à população avaliada e ao momento em que os estudantes são observados.
Essa cautela é especialmente necessária na análise do Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (Pisa), realizado pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). A prova avalia jovens de 15 anos matriculados a partir do 7º ano. Com isso, adolescentes que deixaram a escola ou que ainda estão em etapas anteriores não fazem parte da população analisada.
O resultado, portanto, oferece um retrato importante de uma geração, mas não representa todos os jovens de 15 anos.
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Na América Latina, a ampliação do acesso e da permanência na escola acrescenta outra variável à interpretação dos dados. Conforme mais jovens permanecem no sistema educacional e avançam pelas séries sem grandes distorções de idade, aumenta também a parcela da população de 15 anos alcançada pelo Pisa.
Esse processo pode incluir estudantes de grupos historicamente mais vulneráveis, alterando a composição da população avaliada. Dessa forma, uma eventual estabilidade ou queda na média não necessariamente significa ausência de avanços no sistema, especialmente quando há expansão da inclusão escolar.
Outro fator é a etapa de ensino em que os estudantes são avaliados. No Brasil, jovens de 15 anos podem estar nos anos finais do ensino fundamental ou no primeiro ano do ensino médio, dependendo da trajetória escolar.
Assim, políticas implementadas recentemente no ensino médio ainda não aparecem integralmente nos resultados do Pisa. O mesmo vale para melhorias realizadas nos primeiros anos da educação básica. Um estudante avaliado aos 15 anos passou pela fase de alfabetização aproximadamente oito anos antes, o que significa que mudanças mais recentes nessa etapa não são necessariamente refletidas pela avaliação.
PANDEMIA AINDA PESA NO DESEMPENHO
Apesar dessas ressalvas, os resultados do Pisa 2025 continuam apontando dificuldades importantes. Entre os 35 países da OCDE com resultados comparáveis, a média caiu três pontos em ciências, 14 em leitura e nove em matemática em relação a 2022.
Os estudantes avaliados tinham aproximadamente 10 ou 11 anos quando as escolas foram fechadas durante a pandemia de Covid-19. Eles estavam justamente em uma fase importante para a consolidação de conhecimentos básicos.
O impacto provocado pela interrupção das aulas se soma a problemas educacionais que já existiam antes da pandemia e à capacidade de cada país para recuperar as aprendizagens perdidas.
AMÉRICA LATINA APRESENTA CENÁRIOS DIFERENTES
Os países latino-americanos apresentam trajetórias distintas. Entre as nações analisadas pelo Instituto Natura, o Chile mantém o melhor desempenho do grupo, embora tenha registrado queda de 12 pontos em leitura e nove em matemática desde 2022.
O Peru apresentou redução de 18 pontos em leitura e nove em matemática. Colômbia e México alcançaram 414 pontos em ciências e mantiveram estabilidade nessa área desde 2015, apesar de perdas recentes em leitura ou matemática.
A Argentina registrou queda nos três campos avaliados e chegou a 393 pontos em ciências, o menor resultado entre os países considerados.
BRASIL MANTÉM ESTABILIDADE, MAS RESULTADO PREOCUPA
No Brasil, a avaliação apontou 409 pontos em ciências. Em relação a 2022, o desempenho permaneceu estatisticamente estável em leitura e matemática.
Desde 2015, a OCDE considera estável o desempenho brasileiro nas três áreas. Apesar disso, o nível de aprendizagem continua considerado baixo e insuficiente.
Ao mesmo tempo, a cobertura do Pisa no país aumentou quatro pontos percentuais no período. Segundo a análise apresentada, o Brasil foi o único entre os países avaliados a combinar estabilidade nas três áreas com expansão da cobertura.
Esse cenário reforça a necessidade de analisar os resultados além da média. Manter o desempenho enquanto uma parcela maior e potencialmente mais vulnerável dos estudantes passa a ser representada pode indicar avanços na inclusão, mas também evidencia a necessidade de fortalecer a aprendizagem, especialmente nos anos finais do ensino fundamental.
AVALIAÇÃO DEVE ORIENTAR POLÍTICAS PÚBLICAS
O Pisa permanece como uma importante referência internacional para comparar sistemas educacionais. Seus resultados, porém, ganham maior significado quando analisados em conjunto com outros indicadores capazes de acompanhar a trajetória dos estudantes desde os primeiros anos da educação básica.
Essa combinação permite identificar em quais etapas ocorrem perdas de aprendizagem e quais políticas podem produzir resultados mais duradouros.
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Na América Latina, compreender essas diferentes trajetórias é fundamental para transformar os dados das avaliações em políticas públicas consistentes, capazes de reduzir desigualdades e melhorar a aprendizagem ao longo de toda a educação básica.