Estudo aponta piora de indicadores cardiovasculares já na perimenopausa e reforça importância de acompanhar colesterol, glicemia e pressão arterial
Embora o risco cardiovascular em mulheres seja mais conhecido após a menopausa, quando há importantes mudanças hormonais, alguns fatores podem se intensificar antes, ainda na perimenopausa, período de transição que antecede a última menstruação. O Dia Mundial do Coração, celebrado em 29 de setembro, é uma oportunidade para chamar atenção para esse cenário e suas formas de prevenção.
Um estudo divulgado em 2026 pela American Heart Association, com dados de mais de 9 mil mulheres, mostrou que aquelas na perimenopausa apresentaram duas vezes mais chance de ter uma avaliação geral ruim da saúde cardiovascular em comparação às que ainda mantinham ciclos menstruais regulares, mesmo após considerar o efeito da idade. Colesterol e glicemia estavam entre os indicadores que mais contribuíram para essa diferença.
Outro estudo recente reforça que a atenção à saúde cardiovascular feminina não deve ficar restrita à menopausa. Publicada em 2026 na revista The Lancet Obstetrics, Gynaecology & Women’s Health, a pesquisa analisou dados de mais de 2,4 milhões de mulheres e mostrou que pacientes com síndrome ovariana metabólica poliendócrina (Somp) apresentaram risco 4,4 vezes maior de eventos cardiovasculares ateroscleróticos, como infarto e AVC. A Somp é a nova denominação proposta para a síndrome dos ovários policísticos (SOP).
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ATENÇÃO ANTECIPADA
Para a ginecologista e consultora médica do Sabin Diagnóstico e Saúde, Luciana de Paiva Nery, é essencial que mulheres e médicos ajam antes que o problema se instale. “A perimenopausa deve ser vista como uma verdadeira janela de oportunidade para prevenção. Esperar a mulher chegar à menopausa para começar a cuidar da saúde cardiovascular pode significar perder anos importantes de prevenção”, explica.
Segundo a especialista, as oscilações hormonais dessa fase podem vir acompanhadas de mudanças metabólicas importantes. O próprio estudo divulgado pela American Heart Association aponta que as variações nos níveis de estrogênio durante a perimenopausa podem afetar colesterol, resistência à insulina, pressão arterial e controle do peso.
A avaliação cardiometabólica é, portanto, um caminho para identificar fatores de risco. Entre os principais parâmetros estão aferição da pressão arterial, perfil lipídico — que inclui LDL, HDL, triglicérides e colesterol total — e avaliação da glicemia. Peso, índice de massa corporal (IMC) e circunferência abdominal também podem fazer parte desse acompanhamento.
Em mulheres com fatores de risco ou histórico familiar de doenças cardiovasculares, a investigação pode ser ampliada conforme avaliação médica. “O mais importante é estabelecer um ponto de base ainda na perimenopausa e acompanhar esses parâmetros ao longo do tempo”, reforça Luciana.
CUIDADO INDIVIDUAL
Não existe uma regra única para todas as mulheres. Segundo a ginecologista, a frequência dos exames deve considerar idade, resultados anteriores, histórico familiar e o risco cardiovascular de cada paciente. Mulheres com Somp, obesidade, diabetes, hipertensão, alterações no colesterol, sedentarismo ou histórico familiar de doença cardiovascular precoce podem precisar de acompanhamento mais próximo.
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HÁBITOS PREVENTIVOS
Mudanças no dia a dia também têm papel importante na redução do risco cardiovascular. Entre as recomendações estão a prática regular de atividade física, alimentação equilibrada, controle do peso, abandono do tabagismo, moderação no consumo de álcool e cuidados com o sono.
A médica ressalta ainda que não basta tratar apenas o que aparece alterado nos exames: é preciso olhar para a mulher de forma integral. Pressão alta, colesterol elevado, pré-diabetes ou diabetes identificados durante o acompanhamento devem ser avaliados e, quando necessário, tratados.
“A perimenopausa e a menopausa não devem ser encaradas apenas como fases de sintomas, mas como oportunidades de rever hábitos e investir na saúde cardiovascular para as próximas décadas”, conclui Luciana de Paiva Nery.