Imagem, que tem milhões de curtidas e milhares de compartilhamentos correu as redes no fim de semana, gerou memes, agitou fãs e outros artistas
O cheiro do pernil assado no forno a lenha tomava conta do quintal quando Ney Matogrosso adentrou o sítio de Zeca Pagodinho no início da tarde da última sexta-feira (4), em Xerém.
O convite para a visita havia sido feito há tempos. Zeca vivia pedindo a João Mario Linhares, empresário de Ney, que o levasse até o lugar do qual morre de orgulho. O sambista ama receber gente lá. Maria Bethânia, Neguinho da Beija-Flor e Benito di Paula, por exemplo, já deram o ar da graça. Somente três dias atrás, no entanto, o cantor de Mato Grosso do Sul conseguiu pisar pela primeira vez naquele bairro de Duque de Caxias. Após um percurso de pouco mais de uma hora de carro, saindo de seu apartamento no Leblon, na companhia de João Mario e os dois filhos dele, Joaquim e Antonio, Ney desembarcou no QG de Zeca.
À sua espera, estava o dono da casa, pronto para um abraço apertado. “Xerém é bom demais!”, dizia o recado estampado na camiseta regata do anfitrião, que deixava à mostra um aparelho de medir glicose pregado no braço. A geringonça dispara um alarme sonoro no telefone de Zeca quando os níveis de açúcar estão altos ou baixos demais (“dá para viver”, brinca o sambista)
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Voltando à frase escrita na blusa: ela traduz justamente o que o rei do pedaço mal podia esperar para apresentar ao convidado. A começar por oferecer o que comer. Primeiro, veio uma “sopa invocada”, segundo Zeca, repleta de legumes e carnes. Depois: o tal pernil, preparado “pela rapaziada” que trabalha no sítio. Foi quando o sambista resolveu montar um “sanduíche enorme”. Em seguida, partiu ao meio, ficou com uma das metades e ofereceu a outra ao visitante.
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— Achei tão bonito esse gesto. A intimidade que não tínhamos se estabeleceu ali — conta Ney.
Apesar de serem fãs do trabalho um do outro, os dois se conheciam en passant. Uma esbarrada num prêmio de música aqui, outra na plateia de um show acolá. Bastaram algumas horas e um lanche compartilhado, no entanto, para desabrochar uma afinidade natural.
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— Vamos dar uma volta de quadriciclo? — perguntou Zeca, virando a chave do veículo com o qual circula pela região. — Sobe aí!
Diante do chamado, Ney sequer pestanejou. Ajeitou a calça jeans justa no corpo esguio e subiu na garupa. Foi nessa hora que Joaquim Linhares testemunhou a História acontecendo na sua frente.
— Quando Zeca subiu no quadriciclo, pensei: ele tá de graça ou vai rolar alguma coisa. Aí, vejo Ney sentando na carona. E só me veio à cabeça: o que é isso? A vida inteira para acontecer um troço desse e acontece na minha frente? —diverte-se o estudante de Jornalismo, filho do empresário de Ney.
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Não demorou para Joaquim sacar o celular e fazer o registro que “parou o país” na sexta-feira. Era por volta das 16h quando o próprio Ney publicou em sua conta no Instagram a imagem que despertou o maior orgulho de ser brasileiro. Minutos depois, o retrato já era um viral. “A foto do ano!”, “Absolute cinema”, “IA não faz isso”, dizia parte da chuva de comentários.
— Foi completamente inesperado para mim — afirma Ney sobre a reação das pessoas. — Quando imaginaria isso? Dois homens, amigos... Coloquei na inocência, e começaram a me ligar dizendo: “Vocês estão enlouquecendo a internet.” Respondi: “Então, a internet enlouquece à toa porque para mim era uma coisa tão cotidiana...”
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Responsável pela criação de conteúdo das redes de Zeca, a produtora Adriana Penna quase caiu para trás quando viu a foto. Ela recebeu de Jane Barbosa, assessora de Zeca, uma print do post de Ney.
— Ninguém sabia que Ney ia lá. Na hora, eu pedi mais fotos ao Luizinho, filho do Zeca. Postei e, em cinco minutos,havia mais de 100 mil curtidas e 500 comentários. Agora, enquanto estamos falando, está com 1 milhão e 840 mil — contabiliza Adriana.
'Esse é o Brasil que eu quero': os memes e imagens criados a partir de foto de Ney Matogrosso e Zeca Pagodinho
FAZENDO ARTE
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A imagem também mobilizou artistas, que criaram obras em cima dela. As inspirações traduziam o sentimento de “Esse é o Brasil que eu quero”. Sensação parecida com a de Ney ao ver Zeca em seu habitat.
— Fiquei impressionado. A porta da casa fica aberta, todo mundo fala o nome dele no lugar. Teve uma hora que as crianças se juntaram e ele comprou picolé para todas — lembra Ney.
Zeca dividiu com o amigo cada canto preferido da região. Mostrou sua horta e os filhotes de porco que haviam nascido naquele dia. Aliás, foi a deixa para ele fazer uma fezinha no bicho. Zeca jogou no porco. E levou.
— Tá vendo como Xerém é bom? Tem comida, bebida e ainda se ganha dinheiro — brinca.
DA ESCOLA ATÉ O BAR DA FOFOCA
É só atravessar a rua de casa que Zeca Pagodinho chega ao instituto que leva seu nome. A escola oferece aulas gratuitas de cinema, música, manicure, inglês, espanhol e outras disciplinas para 250 crianças. O rolé com Ney Matogrosso começou por lá, onde os dois assistiram a uma apresentação do quarteto de cordas que interpretou, em ritmo de chorinho, a música “Água da minha sede”, famosa na voz de Zeca.— O instituto fica no terreno em que minha mãe morou. Botei muito dinheiro da minha vida lá. É assim que se vive, dividindo — ensina o sambista.
Ney se encantou com a iniciativa:
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Fotos: Reprodução
— É muito bem feito, há um monte de salas. E tudo com a grana do Zeca, não tem nada de governo.
De lá, os dois passaram pela “cerquinha”, onde fica a “corredeira que o povo daqui chama de cachoeira”, como conta Zeca. Em seguida, foram dar um alô no Bar da Fofoca, batizado assim depois que o cliente ilustre pendurou placa com esses dizeres.
— Passo toda hora ali para saber das fofocas... E contar umas também. Mas é só fofoca do bem. Descubro quem ficou bêbado primeiro, quem apanhou da mulher.... — zoa —. Também levei o Ney na Dona Rosa, que conheço desde que Xerém é Xerém. Ela disse: “Olha que tô conhecendo esse moço”. E eu: “É ele mesmo!”— recorda Zeca.
O sambista segue dizendo que Ney “tirou um dia maravilhoso” em Xerém.
— Comeu cajá, carambola, botou para quebrar. E ninguém aporrinhou ele, falou de trabalho, pediu para tirar foto ou fazer vídeo para mandar para a mãe. As pessoas pensam: “Ah, na casa do Zeca tá cheio de artista...” Não! Tem pessoas comuns, funcionários... Todo mundo senta junto na mesa, come da mesma comida. Falo para geral: “Se meus amigos vierem aqui e vocês ficarem pedindo para tirar foto, vou botar todo mundo pra fora.” Só no final a Mônica (companheira de Zeca) quis tirar foto, e aí meu sogro quis também... Mas as pessoas ficam numa boa aqui. Já vieram Maria Bethânia, Neguinho da Beija-Flor, Benito di Paula... Todo mundo fica encantado com Xerém.
O passeio, de fato, calou fundo em Ney.
— Não conhecia esse lado do Zeca. Quando teve inundação em Xerém, soube que ele fez campanha para ajudar as pessoas. Mas agora fiquei gostando mais dele — diz o cantor. — Sempre simpatizei, mas conheci uma faceta que admirei muito. Foi muito positivo o nosso encontro. Quando é gente de verdade, não tem problema, né? Aqui é Zeca Pagodinho pra caralho! — brada Ney.
A recíproca é verdadeira.
— Sou fã desse cara desde os Secos & Molhados. Quem não é? — pergunta Zeca. — Vi o filme dele, que deu um duro danado antes de ser cantor, insistiu no que queria. Foi uma luta grande. Não sabia que ele tinha feito artesanato. É só olhar para o Ney para saber que ele é do bem demais.
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Os dois não têm planos de realizar um trabalho juntos. Mas o palpite é que é só uma questão de tempo. Seja como for, uma bela amizade já brotou.
Fonte: O Globo