El Niño pode provocar chuvas abaixo da média, calor intenso e níveis críticos dos rios, aumentando os riscos para transporte, abastecimento, agricultura e incêndios no Amazonas
A estiagem que atinge a Amazônia pode se prolongar até março de 2027, segundo projeções divulgadas pela Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa). O cenário está associado à influência de um episódio de El Niño que pode atingir forte intensidade nos próximos meses.
A previsão aponta para um período marcado por chuvas irregulares, temperaturas acima da média e redução da disponibilidade de água. Na Amazônia Ocidental, onde está localizado o Amazonas, os efeitos podem ser ainda mais significativos.
Mesmo com a ocorrência de algumas chuvas durante os próximos meses, os volumes podem não ser suficientes para recuperar rios, solos e lençóis freáticos. Dessa forma, a chamada seca hidrológica pode continuar avançando durante o início de 2027.
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EL NIÑO PODE ATINGIR FORTE INTENSIDADE
O Painel El Niño 2026-2027 aponta uma probabilidade superior a 95% de que o fenômeno alcance intensidade muito forte entre outubro e dezembro. Caso a previsão se confirme, o episódio poderá estar entre os mais intensos registrados desde 1950.
O El Niño ocorre quando há um aquecimento anormal das águas superficiais do Oceano Pacífico Equatorial. A mudança interfere na circulação da atmosfera e altera a distribuição das chuvas em diferentes partes do planeta.
Na região Norte do Brasil, o fenômeno costuma estar associado à redução das precipitações e ao aumento das temperaturas, condições que podem agravar os períodos de estiagem.
As projeções indicam que o fenômeno poderá permanecer ativo pelo menos durante o primeiro trimestre de 2027. Os modelos, porém, são atualizados conforme mudam as condições dos oceanos e da atmosfera.
AMAZONAS REGISTRA AGRAVAMENTO DA ESTIAGEM
O Amazonas está entre os estados que apresentaram avanço significativo das condições de seca. Dados de monitoramento federal apontam que algumas áreas chegaram a registrar uma piora de até duas categorias de severidade em apenas um mês.
O Índice Integrado de Seca, elaborado pelo Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), também registrou aumento no número de municípios brasileiros classificados em níveis severos e extremos de estiagem.
Na bacia do rio Negro, a condição passou de seca fraca para moderada em agosto, com projeções de intensificação nos meses seguintes.
O agravamento da vazante pode trazer consequências para o abastecimento de água, a navegação e o deslocamento de comunidades ribeirinhas. Em diversas localidades do Amazonas, os rios são fundamentais para o transporte de alimentos, medicamentos, combustível e atendimento de saúde.
NÍVEL DOS RIOS PREOCUPA
Em Manaus, o rio Negro registrava 24,09 metros no dia 1º de setembro, cerca de 2,59 metros abaixo do nível observado no mesmo período do ano anterior.
Os dados do Porto de Manaus indicaram continuidade da descida ao longo de setembro, acompanhando o avanço do período de vazante.
Em Itacoatiara, o rio Amazonas estava em 9,95 metros, enquanto no mesmo período do ano anterior o nível era de 12,13 metros.
A Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico também prevê vazões abaixo da média em diferentes bacias da região Norte até dezembro. Entre os pontos de preocupação estão os afluentes da margem esquerda do rio Amazonas, incluindo o rio Negro.
CHUVAS AINDA PODEM OCORRER
A possibilidade de a estiagem continuar até março de 2027 não significa que a Amazônia ficará sem chuva durante todo o período.
Pancadas poderão ocorrer nos próximos meses, inclusive com episódios de chuva intensa em determinadas áreas. O problema está na irregularidade das precipitações e no volume acumulado, que pode permanecer abaixo da média histórica.
Com isso, a chuva pode não ser suficiente para recuperar a umidade do solo ou provocar uma elevação consistente dos níveis dos rios.
Mesmo durante o chamado inverno amazônico, período normalmente associado ao aumento das chuvas, os efeitos da estiagem podem continuar sendo sentidos em diferentes partes da região.
RISCO DE INCÊNDIOS AUMENTA
A combinação de temperaturas elevadas, baixa umidade e vegetação ressecada também eleva o risco de incêndios florestais e queimadas.
O Painel El Niño registrou crescimento da atividade de fogo ao longo de 2026. Entre julho e agosto, o aumento chegou a 146%, enquanto setembro apresentou nova elevação de 66%.
Para o período entre outubro e dezembro, o Cemaden aponta centenas de municípios brasileiros em níveis de alerta para risco de fogo.
No Amazonas, a permanência das condições secas pode favorecer a propagação das chamas, principalmente em áreas onde o fogo é utilizado de maneira irregular para limpeza de terrenos ou renovação de pastagens.
AGRICULTURA TAMBÉM PODE SOFRER IMPACTOS
A falta de chuva representa uma ameaça para lavouras, pastagens e criação de animais. Entre os possíveis efeitos estão a redução da produtividade, a falta de água para os rebanhos e alterações no calendário de plantio.
A Embrapa também chama atenção para o fenômeno conhecido como “seca verde”. Nesse cenário, a vegetação permanece aparentemente verde, mas apresenta baixa umidade e perde qualidade nutricional devido à falta de água no solo.
A estiagem prolongada pode provocar perdas em pastagens e aumentar o estresse hídrico de culturas como mandioca, milho e feijão.
A redução do volume de água em rios e lagos também pode elevar a temperatura e diminuir a concentração de oxigênio, aumentando o risco de mortalidade de peixes.
PERÍODO MAIS CRÍTICO DEVE OCORRER ENTRE NOVEMBRO E JANEIRO
As projeções indicam que os meses entre novembro de 2026 e janeiro de 2027 podem concentrar a fase mais crítica da estiagem.
Nesse período, a combinação de temperaturas elevadas e chuvas abaixo da média pode ampliar os impactos sobre os rios, o abastecimento, o transporte, a produção rural e as comunidades que dependem dos recursos hídricos.
Apesar da influência do El Niño, os especialistas ressaltam que o fenômeno não é o único fator responsável pelo comportamento das chuvas na Amazônia. As condições do Oceano Atlântico Tropical também podem contribuir para amenizar ou intensificar os efeitos da estiagem.
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Por isso, as previsões devem continuar sendo atualizadas nos próximos meses. O acompanhamento dos boletins dos órgãos de monitoramento e das autoridades de Defesa Civil será importante para acompanhar a evolução do cenário até 2027.