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Queimadas podem levar cinzas e poluentes para igarapés de Manaus, alerta especialista
Foto: Divulgação

Além de comprometer a qualidade do ar, incêndios podem contaminar recursos hídricos após as chuvas e favorecer desequilíbrios ambientais, segundo o Greenpeace

A fumaça provocada pelas queimadas que atingem Manaus e municípios do interior do Amazonas não afeta apenas a qualidade do ar. Segundo especialistas, os incêndios também podem contribuir para a contaminação de rios, igarapés, córregos e áreas de abastecimento, principalmente após a ocorrência de chuvas.

 

De acordo com Cristiane Mazzetti, coordenadora da Frente de Desmatamento do Greenpeace Brasil, as queimadas não são a principal fonte de poluição dos corpos d’água, mas podem agravar problemas ambientais já existentes.

 

“As queimadas podem sim contribuir com a poluição de rios e igarapés, embora esse não seja o principal fator de poluição desses corpos d’água”, explicou.

 

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Após um incêndio, partículas presentes nas cinzas ficam acumuladas sobre o solo. Com a chegada das chuvas, esse material pode ser carregado para os cursos d’água. Segundo Mazzetti, as cinzas podem apresentar concentrações de nutrientes como nitrogênio, fósforo e potássio, além de metais pesados.

 

O impacto tende a ser maior em áreas onde a vegetação das margens dos rios foi retirada. As chamadas matas ciliares funcionam como uma barreira natural, ajudando a reter sedimentos e outros materiais antes que eles cheguem à água.

 

“Em muitos casos, a camada protetora ao redor de rios, as matas ciliares, ou áreas de preservação permanente foram removidas, o que é muito comum na cidade de Manaus, e essa vegetação que poderia atuar como um filtro para esses poluentes já não está lá”, afirmou a coordenadora.

 

Além do material transportado pelas chuvas, a fumaça e a fuligem também podem se deslocar por longas distâncias e se depositar diretamente sobre lagos e reservatórios utilizados para abastecimento.

 

“A fumaça e fuligem podem viajar por centenas de quilômetros e se depositam diretamente sobre superfícies de lagos e represas de abastecimento urbano”, alertou.

 

A presença de nutrientes em excesso na água também pode provocar alterações no equilíbrio dos ecossistemas. Segundo a especialista, concentrações elevadas de fósforo e nitrogênio podem favorecer a proliferação de algas e cianobactérias, processo conhecido como eutrofização.

 

Esse fenômeno pode reduzir a quantidade de oxigênio disponível na água e provocar a morte de peixes e outros organismos aquáticos. O problema tende a se agravar quando os incêndios são recorrentes e ocorrem durante períodos de estiagem.

 

Apesar dos impactos, a recuperação dos ecossistemas é possível, mas depende de medidas de longo prazo.

 

“A recuperação do ecossistema é possível, mas exige interromper o fluxo de poluentes, restaurar com vegetação nativa as margens dos rios e dar tempo para que a natureza se regenere, um processo que pode levar de meses a anos”, explicou Mazzetti.

 

Para a coordenadora do Greenpeace, as ações ambientais não devem ser adotadas somente depois dos períodos mais críticos. Ela defende medidas permanentes de prevenção, recuperação das áreas degradadas e adaptação dos recursos hídricos diante do aumento da ocorrência de incêndios associado às mudanças climáticas.

 

“Não basta agir somente na responsividade à situação, mas preparar, recuperar e adaptar os igarapés à nova realidade de incêndios agravados pela crise climática”, destacou.

 

Os impactos das queimadas também atingem diretamente a fauna. Animais silvestres podem morrer durante os incêndios, perder seus habitats e enfrentar dificuldades para encontrar alimento. Em alguns casos, a fuga das áreas atingidas pelo fogo pode levar os animais para regiões urbanas e rodovias, aumentando o risco de atropelamentos.

 

“No caso de animais há o risco direto, com a iminência de morte pelas chamas, risco de acesso à comida e habitat destruído, e o risco indireto quando, por exemplo, eles acabam atropelados na estrada tentando se salvar de um grande incêndio”, afirmou Mazzetti.

 

Para o Greenpeace, a situação ambiental do Amazonas é resultado da combinação de fatores climáticos e ações humanas. O período de seca e a influência de fenômenos climáticos podem deixar a vegetação mais vulnerável ao fogo, enquanto incêndios provocados por atividades humanas contribuem para ampliar os danos.

 

A especialista ressalta ainda que as queimadas estão relacionadas a processos como desmatamento, abertura de novas áreas e limpeza de terrenos destinados a atividades agropecuárias.

 

Além dos impactos ambientais, a fumaça representa um problema de saúde pública. Durante os períodos de maior concentração de material particulado, a qualidade do ar pode atingir níveis considerados prejudiciais à população.

 

Dados recentes do Sistema Eletrônico de Vigilância Ambiental (Selva) mostram a variação da qualidade do ar em diferentes municípios e bairros do Amazonas. Em Manaus, o aplicativo registrou níveis de 58,5 µg/m³ no Coroado e 51,1 µg/m³ no Mauazinho em um dos períodos analisados, classificados como qualidade do ar ruim.

 

No interior, Boa Vista do Ramos chegou a 122,8 µg/m³, Urucurituba a 85,1 µg/m³, Silves a 106,9 µg/m³ e Careiro da Várzea a 77,4 µg/m³, índices classificados como muito ruins. Em Careiro Castanho, a concentração chegou a 253 µg/m³, considerada péssima.

 

Em outro período analisado, São Sebastião do Uatumã registrou 53,5 µg/m³ e Jutaí, 51,5 µg/m³, também classificados como níveis ruins. Em Manaus, Mauazinho e Coroado apresentaram 31,5 µg/m³ e 30,1 µg/m³, respectivamente, considerados níveis de poluição moderada.

 

Na quarta-feira (30), após um incêndio que durou mais de 12 horas no distrito de Cacau Pirêra, o Selva chegou a registrar 262,8 µg/m³ no bairro Compensa, zona Oeste de Manaus, índice classificado como péssimo.

 

Diante do cenário, especialistas defendem que o combate às queimadas seja acompanhado de ações de fiscalização, recuperação da vegetação, proteção das margens dos cursos d’água e monitoramento permanente da qualidade do ar e dos recursos hídricos.

 

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A combinação entre incêndios recorrentes, perda de vegetação, poluição e períodos de estiagem pode ampliar os impactos sobre os ecossistemas e a população, reforçando a necessidade de medidas preventivas e de recuperação ambiental no Amazonas. 

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