Estudo aponta que o brilho produzido pelo tubarão-lixa-negro vai além da camuflagem e pode ajudar o animal a localizar alimentos nas profundezas
Um dos maiores animais bioluminescentes conhecidos pela ciência pode ter uma função surpreendente para a própria luz que produz. Pesquisadores descobriram evidências de que o tubarão-lixa-negro (Dalatias licha) pode utilizar parte de seu brilho para facilitar a localização de presas em regiões profundas do oceano.
A descoberta foi publicada na quinta-feira (6) na revista científica iScience. O estudo, conduzido por pesquisadores da Université Catholique de Louvain, na Bélgica, analisou a intensidade, a coloração e a direção da luz emitida pelo corpo desses tubarões.
A bioluminescência já era conhecida como uma estratégia de camuflagem da espécie. Agora, os cientistas levantam a possibilidade de que o fenômeno também desempenhe um papel durante a alimentação.
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Em grandes profundidades, a quantidade de luz solar que chega ao oceano é extremamente pequena. Mesmo assim, a claridade vinda da superfície pode revelar a silhueta de um animal visto de baixo.
Para evitar esse contraste, algumas espécies marinhas desenvolveram a capacidade de produzir luz na parte inferior do corpo. A estratégia, conhecida como contra-iluminação, permite que o animal se misture melhor ao ambiente e fique menos visível para possíveis predadores ou presas.
No caso do Dalatias licha, entretanto, os pesquisadores observaram que a emissão luminosa não se concentra apenas nas áreas relacionadas à camuflagem.
PESQUISADORES ANALISARAM OITO TUBARÕES
Para investigar a característica, os cientistas analisaram oito exemplares vivos capturados acidentalmente durante uma pesquisa científica na região de Chatham Rise, a leste da Nova Zelândia.
Os pesquisadores mediram diferentes características da bioluminescência, incluindo intensidade, cor e direção da luz.
O brilho observado na parte inferior do corpo apresentou uma tonalidade azul-esverdeada, com pico de emissão próximo de 491 nanômetros.
Os resultados reforçaram a hipótese de que a luz emitida pela região ventral ajuda o animal a reduzir sua silhueta no ambiente escuro.
Porém, parte da luminosidade também se espalhou lateralmente, principalmente na região dianteira do corpo, próxima ao focinho, à mandíbula e às nadadeiras peitorais.
A partir dessas características, os pesquisadores levantaram a hipótese de que a iluminação lateral possa funcionar como uma espécie de “farol biológico”. A luz poderia iluminar pequenas áreas próximas ao tubarão, facilitando a identificação de possíveis presas em meio à escuridão.
A possibilidade é especialmente interessante porque o Dalatias licha é considerado um nadador relativamente lento, mas se alimenta de animais que podem ser mais velozes, incluindo outros tubarões e cefalópodes, como lulas e polvos.
Nesse cenário, a bioluminescência poderia ajudar o animal a se aproximar discretamente da presa, em vez de depender de perseguições prolongadas.
HIPÓTESE AINDA PRECISA SER COMPROVADA
Apesar dos resultados, os cientistas ressaltam que ainda não é possível afirmar que o tubarão utiliza efetivamente sua luz para caçar.
Os exemplares analisados foram estudados após a captura e não foram observados em situações naturais de busca por alimento nas profundezas do oceano.
Por isso, novas pesquisas serão necessárias para acompanhar o comportamento da espécie em seu habitat e verificar se a emissão lateral de luz realmente funciona como uma ferramenta de caça.
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A descoberta, no entanto, amplia o conhecimento sobre a bioluminescência e mostra que uma característica conhecida principalmente pela função de camuflagem pode ter outras utilidades na sobrevivência de animais que vivem nas regiões mais escuras do oceano.