Relatório aponta que 67% das mortes ocorreram em zonas de conflito; desde 2006, apenas 14% dos casos de assassinatos de profissionais da imprensa foram solucionados pela Justiça.
Um total de 189 jornalistas foi assassinado em todo o mundo durante 2024 e 2025, segundo um relatório divulgado nesta segunda-feira (2) pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco). O número representa o maior registro de mortes em uma década e se aproxima do balanço do biênio 2014/2015, quando 215 profissionais perderam a vida.
De acordo com o Relatório sobre a Segurança de Jornalistas e o Perigo da Impunidade, 127 assassinatos ocorreram em países envolvidos em conflitos armados, o equivalente a 67% do total. O número representa um aumento de 24% em comparação com o período de 2022 e 2023.
Entre as mortes registradas em zonas de conflito, 50 foram provocadas por ataques com drones. O levantamento também identificou ataques a redações e instalações utilizadas por profissionais da imprensa. Pelo menos 36 jornalistas morreram em ocorrências desse tipo, incluindo um episódio em que nove profissionais foram mortos simultaneamente.
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A organização identificou ainda pelo menos 15 casos em que há indícios de que jornalistas tenham sido atingidos mesmo utilizando coletes com a identificação de imprensa ou veículos claramente identificados como pertencentes a profissionais da comunicação.
Fora das áreas de conflito, foram registrados 62 assassinatos de jornalistas no biênio 2024/2025, o menor número em 18 anos. Apesar da redução, os dados mostram que os profissionais continuam expostos à violência em diferentes ambientes.
Entre os casos registrados nesses países, 17 jornalistas foram mortos dentro de escritórios, 33 em veículos e 20 em suas próprias residências. Em algumas ocorrências, familiares também foram vítimas dos ataques.
O relatório aponta ainda quatro mortes relacionadas a ataques terroristas e sete casos registrados durante manifestações, provocados por manifestantes ou integrantes das forças policiais.
A pesquisa também destaca os riscos enfrentados por profissionais que cobrem temas sensíveis. Ao todo, 104 jornalistas foram mortos enquanto trabalhavam na cobertura de conflitos armados. Outros 38 perderam a vida durante reportagens sobre política, enquanto 22 foram assassinados ao investigar atividades criminosas. Também foram registradas mortes de profissionais que noticiavam casos de corrupção.
Segundo Sylvie Couldray, diretora de Liberdade de Expressão e Desenvolvimento da Mídia e Alfabetização Midiática e Informacional da Unesco, os dados demonstram que determinadas pautas jornalísticas podem representar riscos tão elevados quanto a cobertura de guerras.
PALESTINA CONCENTRA MAIOR NÚMERO DE MORTES
A Palestina registrou o maior número de assassinatos de jornalistas no período, com 62 mortes, aproximadamente um terço de todos os casos contabilizados pela Unesco. O território sofre ataques de forças israelenses desde 2023.
O levantamento também identificou a morte de 14 mulheres jornalistas, correspondendo a 7% do total. Esse foi o menor percentual registrado desde o biênio 2012/2013. Treze dessas profissionais foram assassinadas em países que enfrentam conflitos armados.
Entre os jornalistas mortos, cinco tinham idades entre 15 e 24 anos, enquanto outros 20 estavam na faixa dos 25 aos 29 anos.
BRASIL REGISTRA UM ASSASSINATO
No Brasil, o relatório contabilizou uma morte de jornalista no período. A vítima foi Luís Augusto Carneiro da Costa, conhecido como Luisinho Costa, assassinado em maio de 2025, dentro do estúdio da Rádio Guarany, em Abaetetuba, no nordeste do Pará.
Segundo a Polícia Civil do Pará, a investigação foi concluída e encaminhada à Justiça, com quatro pessoas indiciadas.
O documento da Unesco também menciona uma iniciativa brasileira voltada à proteção dos profissionais da imprensa: o Protocolo Nacional para a Investigação de Crimes contra Jornalistas e Comunicadores Sociais, lançado em abril pelo Ministério da Justiça e Segurança Pública. A medida foi incluída no repositório de mecanismos nacionais de segurança da organização.
IMPUNIDADE CONTINUA SENDO UM DESAFIO MUNDIAL
Além do número de mortes, a Unesco chama a atenção para a baixa responsabilização dos autores dos crimes. Desde 2006, 1.641 jornalistas foram assassinados em todo o mundo, mas apenas 223 casos foram solucionados judicialmente, o equivalente a 14% do total.
Outros 1.013 casos, correspondentes a 66%, permanecem sem solução, com investigações ou processos ainda em andamento. Em 321 ocorrências, cerca de 20%, a organização não recebeu respostas das autoridades responsáveis.
Considerando os casos não solucionados e aqueles sem retorno oficial, o índice de impunidade chegou a 86% em 2025, um ponto percentual acima do registrado em 2024. Segundo a Unesco, essa foi a primeira elevação do indicador desde 2012.
Para Mariya Gabriel, diretora de Comunicação e Informação da organização, o relatório é fundamental para acompanhar as tendências globais e reforçar a necessidade de proteger os jornalistas. A representante destaca que combater a impunidade é essencial para garantir a liberdade de expressão e o direito da população à informação.
O documento ressalta ainda que a violência contra profissionais da imprensa não se limita aos assassinatos. Jornalistas também enfrentam sequestros, desaparecimentos forçados, detenções arbitrárias, ataques virtuais motivados por gênero e restrições à liberdade de circulação.
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Para elaborar o levantamento, a Unesco consultou autoridades de 78 países onde foram registrados casos de violência contra jornalistas. Desse total, 38 governos forneceram informações sobre as medidas adotadas para reforçar a segurança desses profissionais e combater crimes contra a imprensa.